Bloqueio de inflamação causada pelo SARS-CoV-2 em pacientes graves com o uso do fármaco Anakinra

Diante da busca incessante por conhecer o novo vírus que vem assombrando o ano de 2020, cientistas tem buscado entender cada vez mais o papel da inflamação sistêmica causada no organismo pelo SARS-CoV-2. Esse vírus causa a Covid-19, que, em sua forma grave o paciente desenvolve a Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA), e pode gerar um processo de inflamação sistêmica, no qual as células de defesa do organismo reagem de forma desenfreada na tentativa de conter esse processo, muitas vezes atacando, também, células saudáveis, o que pode acarretar na morte do hospedeiro. Visto isto, vários estudos tentam mostrar associações entre os biomarcadores inflamatórios com o desenvolvimento da SDRA e a morte. Alguns desses mediadores inflamatórios, como a interleucina 1 humana (IL-1 – molécula proteica que é ativada pelo sistema imune quando há inflamação), tem sido alvo atraente de análise para o combate da Covid-19 . Um estudo mostrou que a inibição da IL-1 teve melhora significativa na redução da mortalidade em pacientes com sepse, nos quais muitos desses apresentavam SDRA. Além disso, em pesquisas recentes, em primatas, encontraram que a IL-1 tem papel fundamental na promoção do desenvolvimento de lesão pulmonar aguda associdada a Covid-19 por SDRA.  
A partir desse quadro, um ensaio clínico recente realizado no hospital San Raffaele, na Itália, avaliou a eficácia de um medicamento utilizado no tratamento de artrite reumatóide, no combate a COVID-19 em casos graves. A droga trata-se da Anakinra, um fármaco que age como antagonista do receptor da IL-1 humana, dessa forma, esse fármaco ajuda a modular o sistema imunológico quando houver uma resposta exagerada. O ensaio clínico que durou 21 dias, contou com 29 participantes maiores de 18 anos, internados com síndrome respiratória aguda moderada e grave causada pelo SARS-CoV-2, nos quais receberam o tratamento padrão utilizado atualmente (ventilação não invasiva, hidroxicloroquina (medicamento utilizado no tratamento de artrite reumatóide) e ritonavir/lopinavir (antirretrovirais)) e infusões diárias com altas doses de Anakinra, cerca de 10mg por quilo de peso corporal. Esses pacientes foram comparados com um grupo controle, em que outros 16 pacientes estavam sendo submetidos apenas a terapia padrão. Cabe ressaltar, que no grupo controle, os pacientes eram mais velhos, predominantemente do sexo masculino e tinham valores mais altos de proteína C reativa (proteína produzida no fígado, que quando aumentada na corrente sanguínea, é indicadora de processo inflamatório), porém, essa diferença entre os grupos não identificou fator de confusão no estudo. Os resultados foram satisfatórios, no qual as altas doses de Anakinra foi associada a redução da proteína C no sangue e melhorias na função respiratória em 72% desses pacientes, enquanto no grupo que não recebeu a droga estudada, a proteína C reativa continou aumentando progressivamente e a função respiratória melhorou para 50% do grupo. Em relação a sobrevivência dos pacientes, o grupo de ensaio apresentou uma taxa de 90%, e nesse mesmo espaço de tempo, no grupo controle, 56% sobreviveram. Todavia, as limitações do estudo encontram-se no pequeno tamanho da amostra, além de contar com pacientes internados em um único hospital, ainda nota-se a necessidade de novos estudos que sejam randomizados para avaliar a eficácia da Anakinra no tratamento da Covid-19. Ainda assim, esse é o primeiro estudo ao sugerir que uma dose alta de um medicamento utilizado para tratar artrite reumatóide possa ser capaz de bloquear a reação exagerada causada pela Covid-19 de forma segura em pacientes que desenvolveram a Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo, sendo essa a principal causa de morte pela Covid-19.
Apesar da grande discussão em torno das comorbidades que aumentam o risco de agravemento e morte por Covid-19, como doenças cardiovasculares e diabetes, pouco se sabe sobre a resposta imunológica do homem para com essa doença. Novos estudos devem visar atenção na resposta inflamatória causada pelo SARS-Cov-2.

Fontes: Giulio Cavalli e colaboradores. Artigo publicado na Revista The Lancet em maio de 2020.
Disponível em: https://www.thelancet.com/pdfs/journals/lanrhe/PIIS2665-9913(20)30127-2.pdf
Kate F. Kernan. Artigo publicado na Revista The Lancet em maio de 2020.
Disponível em: https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S2665-9913%2820%2930129-6

Enviado por: Jaqueline Grejianim- Acadêmica de Medicina e Aluna de Iniciação Científica Laboratório Biogenômica- UFSM  
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8684395655408465

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quinze − três =