Covid-19: Associação entre doença renal e óbitos

A doença Covid-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2 (popularmente conhecido como Coronavírus), tem feito milhares de vítimas pelo mundo e apresenta como principal característica o comprometimento respiratório. No entanto, tem sido observado que múltiplos órgãos são gravemente afetados pela doença e diversos são os grupos de pessoas com comorbidades consideradas pela Organização Mundial da Saúde, como grupo de risco. Este é o caso das pessoas com doença renal crônica que, em geral, não produzem hormônios renais e têm baixa imunidade.
Segundo a National Kidney Foundation, instituição de pesquisa e apoio a doentes renais dos Estados Unidos, entre 3% e 9% dos pacientes de Covid-19 desenvolvem insuficiência renal aguda. Por sua vez, dados chineses indicam que o SARS-CoV-2 vem causando insuficiência renal aguda em cerca de 14% a 30% dos pacientes com Covid-19, sendo tal complicação grave o suficiente para levar diversos pacientes a UTI.
Identificar e eliminar fatores que possam predizer o agravamento da Covid-19 nos rins é uma das chaves para melhorar a sobrevida destes pacientes, portanto, é urgente e necessário compreender como o SARS-CoV-2 afeta a função renal. Neste sentido, foi realizado um estudo entre 20 de janeiro e 11 de fevereiro de 2020, com pacientes adultos diagnosticados com Covid-19, admitidos em um hospital universitário, em Wuhan, na China, a fim de determinar a prevalência de insuficiência renal aguda e definir a associação entre marcadores de doença renal e a incidência de morte. No total, 701 pacientes foram incluídos no estudo, sendo 367 homens e 334 mulheres, com idade média de 63 anos.
Foi observada uma alta prevalência de distúrbios renais nos pacientes, sendo que mais de 40% deles apresentavam evidências de doença renal. Na admissão hospitalar, os níveis de creatinina e de ureia (marcadores de função renal) estavam elevados no sangue de 14,4% e 13,1% dos pacientes, respectivamente. A taxa de filtração glomerular estimada <60 ml/min/1,73 m2 (sugestivo de alguma perda de função renal) foi relatada em 13,1% dos pacientes. Ainda, 43,9% dos pacientes apresentaram proteinúria (presença de proteína na urina, que pode ser um sinal de que os glomérulos que são responsáveis pela filtração do sangue nos rins estão danificados) e 26,7% apresentaram hematúria (presença de sangue na urina).
A insuficiência renal aguda, que resulta de uma perda abrupta da função renal e está fortemente associada ao aumento da mortalidade e morbidade, ocorreu em 5,1% dos pacientes, sendo que a sua incidência foi significativamente maior em pacientes com creatinina sérica basal elevada (11,9%) do que em pacientes com valores basais normais (4,0%). Ainda, os pacientes com creatinina sérica basal elevada eram mais propensos a serem admitidos na unidade de terapia intensiva e submetidos à ventilação mecânica.
A morte intra-hospitalar ocorreu em 16,1% dos pacientes, com incidência significativamente maior em pacientes com anormalidades renais. Todos os indicadores de doença renal mencionados acima foram associados a um maior risco de morte hospitalar, mesmo após o ajuste para possíveis fatores de confusão (idade, sexo, gravidade da doença, comorbidades e contagem de linfócitos).
A doença renal é uma das principais complicações da Covid-19 e um fator de risco significativo de morte, indicando assim um péssimo prognóstico, independentemente da gravidade inicial da Covid-19 e da condição física geral. Portanto, o monitoramento da função renal deve ser enfatizado, mesmo em pacientes com sintomas respiratórios leves, e a função renal alterada deve receber atenção especial. A detecção e o tratamento precoces de anormalidades renais, incluindo suporte hemodinâmico adequado e prevenção de drogas nefrotóxicas, podem ajudar a melhorar o prognóstico de pacientes com Covid-19.

Fonte: Cheng e colaboradores. Publicado na revista Kidney International, em maio de 2020.
Disponível em:
https://www.kidney-international.org/article/S0085-2538(20)30255-6/pdf

Enviado por: MSc. Cibele Ferreira Teixeira – Doutoranda em Farmacologia, Universidade Federal de Santa Maria.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9457577413344566

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