Desfecho clínico da COVID-19: quais fatores estão envolvidos?

A doença do coronavírus de 2019, denominada de COVID-19, emergiu em dezembro de 2019 na cidade de Wuhan, na China, possivelmente após o contato dos habitantes com o mercado de frutos do mar da cidade, e rapidamente se espalhou por todo o mundo. O agente causador da doença foi posteriormente identificado como sendo um novo tipo de coronavirus (SARS-CoV-2), associado com a síndrome respiratória aguda grave.
Em março de 2020, a doença foi classificada como pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e vem sendo enfrentada globalmente causando grande preocupação aos órgãos públicos bem como às autoridades públicas e profissionais da saúde devido a sua rápida disseminação e as complicações geradas pela doença. Apesar dos esforços incansáveis de cientistas e pesquisadores de todo o mundo, ainda não há medidas terapêuticas efetivas e seguras disponíveis e, para atingir tal propósito, especialistas alertam que é fundamental o conhecimento aprofundado sobre a epidemiologia, transmissibilidade e patogênese da doença.
Diversas questões ainda permanecem não esclarecidas com relação a origem, as características evolutivas e as interações do vírus com o organismo humano. Até o momento, ainda não há informações suficientes que indiquem uma possível alteração e agravamento da virulência (grau de patogenicidade que é expresso pela gravidade da doença, demonstrada pelos casos com sequelas e pela letalidade) do agente infeccioso (SARS-CoV-2). Além disso, apesar da infecção pelo coronavírus, em casos graves, evoluir para doença respiratória e óbito, a maioria dos casos desenvolve complicações mais moderadas, como pneumonia leve. Contudo, os fatores descritos acima e a associação dos mesmos com o desfecho da doença ainda precisam ser melhor estudados e caracterizados.
Nesse sentido, em um estudo publicado recentemente na revista Nature, pesquisadores analisaram alguns parâmetros imunológicos envolvidos no curso da infecção viral e dados moleculares dos genomas virais (o genoma de um organismo representa o conteúdo completo de seu DNA (ácido desoxirribonucleico)), obtidos diretamente a partir de amostras clínicas de pacientes, para tentar esclarecer alguns possíveis fatores associados com o prognóstico dos pacientes e características epidemiológicas. Os dados clínicos, moleculares e imunológicos foram obtidos a partir de 326 casos confirmados de Covid-19 da cidade de Shanghai, na China.
Com relação as informações obtidas a partir dos genomas virais de SARS-CoV-2, os pesquisadores puderam dividir as amostras virais em dois grandes grupos. Entretanto, ambos os grupos exibiram a mesma virulência, apesar das variações encontradas nos seus genomas, e foram responsáveis por desencadear desfechos clínicos semelhantes. Resultados dos testes imunológicos demonstraram que uma característica relevante observada nos pacientes com Covid-19 foi a progressiva linfocitopenia (ou linfopenia), ou seja, a diminuição na contagem e número normal de linfócitos, classificados como células brancas do sangue. A redução de linfócitos, especialmente dos tipos conhecidos como CD4+ (linfócitos T auxiliares) e CD8+ (linfócitos T citotóxicos) foi preditiva para a progressão da doença. Além disso, altos níveis de moléculas conhecidas como citocinas especialmente as dos tipos IL-6 (interleucina 6) e IL-8 (interleucina 8), produzidas pelas células imunes do sangue, foram encontradas durante o tratamento em pacientes com manifestações severas da doença e foram correlacionados com a contagem diminuída de linfócitos. Assim, os dados sugeriram uma associação significativa entre os níveis elevados de citocinas inflamatórias, como a IL-6 e a IL-8, e a patogênese da infecção por SARS-CoV-2.
Com base nos resultados do estudo, os pesquisadores puderam sugerir que fatores determinantes para a severidade da doença parecem estar relacionados principalmente ao hospedeiro, tais como a linfocitopenia e a idade dos pacientes. Variações no genoma viral parecem não afetar significativamente o desfecho clínico dos pacientes. Contudo, estudos futuros poderão esclarecer melhor o papel desempenhado por fatores tanto virais quanto do hospedeiro para a progressão e severidade da doença, bem como ao desfecho clínico dos pacientes.

Fontes: Xiaonan Zhang e colaboradores (2020), “Viral and host factors related to the clinical outcome of COVID-19”. Artigo publicado na revista Nature no dia 20 de maio de 2020.
Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-020-2355-0.

Harapan Harapan e colaboradores (2020), “Coronavirus disease 2019 (COVID-19): A literature review”. Artigo publicado na revista Journal of Infection and Public Health no dia 08 de abril de 2020.
Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1876034120304329.

Enviado por: Charles Elias Assmann, graduado em Ciências Biológicas e aluno de Doutorado em Bioquímica Toxicológica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). 
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5754493402648045.

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