Doença de kawaski: uma epidemia silenciosa durante a pandemia da Covid-19?

Até o momento, as crianças suportam uma carga médica mínima na pandemia global da Covid-19, mas podem ser vetores silenciosos da transmissão da patologia. Em estudos recentes foi possível dimensionar a participação das crianças em relação aos índices do coronavírus em mobi-mortalidades. Para tanto, nos Estados Unidos elas representam 1,7% dos casos, 1% dos casos na Holanda, e 2% dos casos no Reino Unido. Essas proporções refletem menor suscetibilidade entre as crianças e adultos, ou taxas de infecção semelhantes, mas proporções muito mais altas com doenças assintomáticas não são claras. Embora a incidência seja baixa, há algum tempo a atenção tem se voltado para as crianças, à nova preocupação agora se dá devido a uma doença rara, pouco conhecida, que afeta quase que exclusivamente as crianças, porém grave do tipo Kawaski. A doença de Kawasaki foi relatada pela primeira vez no Japão e sua causa permanece desconhecida, mas fisiopatologicamente ocorre uma resposta “aberrante” do sistema imunológico a um ou mais patógenos, que levam a inflamação multissistêmica e as complicações pontuais da doença. Ela se caracteriza por uma vasculite aguda (microcoágulos) e geralmente autolimitada dos vasos de médio calibre que dispõe de complicações em aneurismas das artérias coronárias. O diagnóstico é baseado na presença de febre persistente, erupções cutâneas (vermelhidão), linfadenopatia (condição em que os nódulos linfáticos ficam com tamanho, consistência ou número anormais, geralmente inchaço), e alterações nas mucosas e extremidades (inchaço e dores articulares). Verdoni e colaboradores descrevem dez casos de uma doença do tipo Kawasaki ocorridas em Bergamo na Itália, no auge da pandemia por coronavirus, uma incidência mensal cerca de 30 vezes superior a observada nos últimos 5 anos em condições normais na cidade. Nesse contexto, o trato respiratório parece não ser o único sistema suscetível à infecção por SARS-CoV-2. Curiosamente, os médicos de toda a Europa identificaram grupos de casos semelhantes. Também no Reino Unido, os pediatras identificaram um pequeno grupo de crianças apresentando choque e inflamação multissistêmica em unidades de terapia intensiva, algumas das quais com aneurismas das artérias coronárias e outro grupo de crianças menos graves com doença semelhante à Kawasaki. Nos últimos 20 anos, os vírus da família dos coronavírus foram propostos como possivelmente implicados na patogênese da doença de Kawasaki. Essas diferenças levantam a questão de saber se esse gatilho é a doença de Kawasaki com o SARS-CoV-2 como agente desencadeante ou representa uma doença emergente do tipo Kawasaki caracterizada por inflamação multissistêmica. Ainda em 2005, um grupo de New Haven (CT, EUA) identificarou um novo coronavírus humano, designado coronavírus de New Haven (HCoV-NH), nas secreções respiratórias de oito de 11 crianças com doença de Kawasaki, em comparação a um dos 22 controles testados por PCR em tempo real, o método mais confiável para este tipo de diagnostico. A doença do tipo Kawasaki pode representar uma síndrome inflamatória pós-infecciosa, a compreensão desse fenômeno inflamatório em crianças pode fornecer informações vitais sobre as respostas imunes à SARS-CoV-2 e possíveis correlatos de proteção imunológica que podem ter relevância tanto para adultos, quanto para crianças. Em particular, se esse é um fenômeno mediado por anticorpos, pode haver implicações para estudos de vacinas, e isso também pode explicar por que algumas crianças ficam muito doentes com a Covid-19, enquanto a maioria não é afetada ou é assintomática. Segundo os autores, a epidemia de SARS-CoV-2 foi associada à alta incidência de uma forma grave da doença de Kawasaki; Espera-se um surto semelhante da doença de Kawasaki nos países envolvidos na epidemia de SARS-CoV-2, já que evidências crescentes sugerem que os danos causados pela Covid-19 são principalmente mediados pela imunidade inata (aquela adquirida ao longo da vida pela exposição) do hospedeiro, e qualquer reação exarcebada que leve a inflamação crônica se torna crucial ao desenvolvimento de diversas patologias. É preciso permanecermos atentos, pois está pode ser mais uma das muitas complicações já relatadas do novo coronavirus.

Fontes:
Verdoni e colaboradores. Artigo publicado na Revista The Lancet em 13 de maio de 2020. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31103-X/fulltext

Viner e colaboradores. Artigo publicado na Revista The Lancet em 13 de maio de 2020. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31129-6/fulltext

Enviado por: Msc. Bárbara Osmarin Turra – Doutoranda em Farmacologia- UFSM
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3529685763828545

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