Síndrome inflamatória multissistêmica em crianças: uma nova condição associada à Covid-19?

Os casos de eventos graves relacionados à Covid-19 em crianças ainda são relativamente raros, assim como a baixa mortalidade neste grupo em decorrência da doença, contribuíram para que as crianças fossem tratadas apenas como vetores no atual cenário da pandemia. Embora, na maioria das vezes, este grupo tenha uma reação minimamente sintomática à infecção, não apresentando casos críticos da doença, nem necessitando de cuidados intensivos, um aumento no número de crianças com quadros de síndrome inflamatória multissistêmica (SIM) preocupou, inicialmente, médicos no Reino Unido, sendo, posteriormente, observada na Itália e nos Estados Unidos.
Esta síndrome foi temporariamente associada à infecção pelo novo coronavírus, e, embora não se saiba ao certo a sua causa, nem a relação entre a SIM e a Covid-19, o surgimento da mesma durante este momento pandêmico, sugere que há uma relação entre as duas. Neste cenário, a maioria das crianças testadas não são positivas para SARS-CoV-2, mas sim para anticorpos contra este vírus, o que demonstra a existência de infecção em um momento passado. Assim, tendo em vista que a SIM foi observada várias semanas após o contato com o vírus, e que o seu pico está atrasado em relação ao pico da Covid-19, os médicos sugerem que esta condição pode ser uma resposta tardia à infecção.
Embora comparada pelos médicos à doença de Kawaski e ao choque tóxico (complicação rara associada à certas infecções bacterianas), com características sobrepostas destas duas doenças, a SIM parece ser uma condição distinta, com alguns sinais clínicos que a diferem das demais doenças. A diferença entre a SIM e a doença de Kawasaki (veja mais sobre a associação desta doença e Covid-19 em https://portalcienciaeconsciencia.com.br/portal/?s=kawa) está ligada à faixa etária dos acometidos. Enquanto a doença de Kawasaki (condição rara, caracterizada por estado febril com duração de 5 dias ou mais, presença de erupções cutâneas e edema nas glândulas) atinge, principalmente, crianças de até 5 anos de idade, a SIM foi diagnosticada em pessoas com idade entre 7 e 17 anos, sendo que a maioria da população com quadros desta doença está na adolescência, em torno de 13 ou 14 anos.
Adilia Warris, professora da Universidade de Exeter no Reino Unido, especialista em doenças infecciosas pediátricas , descreve o estado inflamatório multissistêmico como sendo “uma apresentação clínica na qual são produzidas muitas citocinas que afetam várias funções do corpo, mas a mais importante é a perda de vasos sanguíneos, causando pressão arterial baixa e acúmulo de líquidos nos pulmões e outros órgãos, necessitando urgentemente de tratamento intensivo para apoiar a função do coração e dos pulmões, e às vezes outros órgãos como os rins”.
As manifestações da SIM são semelhantes as apresentadas pela doença de Kawasaki, incluindo dor abdominal, sintomas gastrointestinais, febre persistente, meningismo (inflamação das membranas que revestem o cérebro e a medula espinhal, geralmente causada pela presença de infecção), linfadenoplastia (inchaço das glândulas do sistema imunológico – gânglios – em resposta a uma infecção) e inflamação sistêmica com erupções cutâneas e altos níveis de biomarcadores inflamatórios. Tal fato coloca em dúvida se a SIM é realmente uma nova doença, ou se é apenas uma manifestação da doença de Kawasaki mediada pela infecção por SARS-CoV-2.
A insuficiência cardíaca em crianças com quadros de SIM foi relatada por pesquisadores franceses e suíços. O estudo envolveu 35 crianças, com idade entre 2 e 16 anos, sendo a maioria entre 11 e 16 anos. Destas, 31 testaram positivo para infecção por SARS-CoV-2. Deste grupo, 28,5% possuíam comorbidades, entre elas asma (8,5%), excesso de peso (17%) e lúpus (3%). As manifestações apresentadas por este grupo incluíam sintomas gastrointestinais (83%), perda ou diminuição da força física (100%), febre (100%), dificuldade respiratória (65%), aumento dos linfonodos (60%), erupções cutâneas (57%), rinorréia (corrimento excessivo de muco nasal) (43%) e meningismo (31%).
Além disso, também se observou quadros de estado inflamatório grave, representado pelo alto índice nos marcadores inflamatórios e ativação de macrófagos (células de defesa do organismo), bem como disfunção no ventrículo esquerdo (parte do coração responsável por bombear o sangue) ou choque cardiogênico (insuficiência de irrigação sanguínea). Dentro deste grupo, 80% precisou de suporte inotrópico, para aumentar a força de contração do coração. Vinte e cinco crianças (71%) foram tratadas com imunoglobina intravenosa e apresentaram resposta positiva à terapia, entretanto outras formas de tratamento também foram empregadas, entre elas a administração da Heparina (medicamente anticoagulante) (65%). Não foram constatados óbitos.
Embora algumas características clínicas sejam comuns da doença de Kawasaki, já atribuída à infecção por SARS-CoV-2, cabe aos médicos atenção para que possíveis casos emergentes sejam diagnosticados, a fim de prestar rapidamente o atendimento correto às crianças e adolescentes. Para os pais fica a mensagem de que, embora a SIM apresente quadros clínicos graves, ela é considerada uma síndrome rara, com um número pouco expressivo de casos. Por este motivo, os pais não devem entrar em pânico, sendo recomendada a procura de atendimento médico, no caso da presença de alguma manifestação suspeita.

Fontes: Mahase. Publicado em The British Medical Journal em 28 de abril e 15 de maio de 2020. Disponível em: https://www.bmj.com/content/369/bmj.m1710.full

Belhadjer e colaboradores. Publicado no Journal of the American Heart Association em 17 de maio de 2020. Disponível em: https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIRCULATIONAHA.120.048360

Enviado por: Nathália Cardoso de Afonso Bonotto – Esteticista Pesquisadora – Laboratório Biogenômica – UFSM
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4055216682279933

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