Diabetes tipo 2 e disfunções cognitivas: quais as implicações para o sistema nervoso?

Evidências de estudos clínicos, neuropatológicos e epidemiológicos sugerem que pessoas com diabetes do tipo 2 podem apresentar um risco mais elevado para o desenvolvimento de prejuízos cognitivos e demência (incluindo a Doença de Alzheimer), bem como formas mais brandas de disfunções cognitivas, além de depressão e derrame cerebral. As
orientações atuais para a diabetes recomendam a triagem para danos cognitivos nos grupos de maior risco e o fornecimento de orientações para o manejo em pacientes com diabetes e prejuízos cognitivos. Contudo, ainda não há opções de tratamento que sejam modificadoras da
doença e diversas questões permanecem sem respostas quanto aos mecanismos relacionados aos danos cognitivos associados com a diabetes. Estes mecanismos são, provavelmente, multifatoriais e podem ser diferentes para as formas mais sutis e mais graves de disfunções
cognitivas associadas com a diabetes. Nos últimos anos, pesquisas desenvolvidas com foco na demência, envelhecimento do cérebro, diabetes e doenças vasculares têm identificado novos marcadores associados com essas doenças. Estes marcadores podem esclarecer alguns mecanismos relacionados com as disfunções cognitivas associadas a diabetes, ter aplicações na pesquisa atual e no diagnóstico clínico e poderão, futuramente, auxiliar na busca de melhores estratégias de tratamento.
Os marcadores associados com as possíveis alterações cognitivas em pessoas com diabetes podem ser classificados em três grupos: a primeira classe inclui marcadores que refletem patologias consideradas por definir causas maiores de demência, particularmente a Doença de Alzheimer, e doenças vasculares. A segunda classe inclui marcadores de injúria do
parênquima cerebral (de forma geral, definem-se órgãos parenquimatosos como aqueles formados por tecidos considerados compactos e que são pouco acessíveis a exame endoscópico). A terceira classe inclui marcadores de fluxo sanguíneo cerebral e do metabolismo.
Anormalidades nesses processos podem contribuir para injúria cerebral e, apesar das diferentes classes propostas para os marcadores, pode haver uma inter-relação entre eles. Com relação a alguns marcadores associados com a etiologia de disfunções cognitivas, particularmente a Doença de Alzheimer, como a formação de placas da proteína beta(β)-
amiloide e de emaranhados neurofibrilares da proteína Tau, os resultados de estudos ainda são preliminares e conflitantes e não demonstram, até o momento, um consenso de que a diabetes do tipo 2 possa afetar esses marcadores. Com relação a doenças vasculares, parece haver uma
relação já que alguns estudos demonstraram que a diabetes tipo 2 pode influenciar a etiologia da aterosclerose, por exemplo. A diabetes tipo 2 parece afetar de forma mais considerável alguns marcadores de injúria do parênquima cerebral e levando, por exemplo, a atrofia cerebral global, com perda de volume cerebral e infartos maiores, ocasionados mais comumente devido ao tromboembolismo (de forma simplificada, formação de coágulos que levam a obstrução de vasos sanguíneos) de vasos sanguíneos do coração, por exemplo. Com relação aos marcadores do metabolismo e do fluxo sanguíneo cerebral, vários deles são influenciados pela diabetes tipo
2 e também são afetados nas disfunções cognitivas. Alguns exemplos são o metabolismo da glicose e de marcadores plasmáticos de resistência à insulina, marcadores inflamatórios e de
perda da integridade da barreira hematoencefálica (estrutura que protege o Sistema Nervoso Central de substâncias potencialmente neurotóxicas).
Dessa forma, vários dos fatores mencionados anteriormente também são encontrados na etiologia da demência, dando suporte a relação entre a diabetes e as disfunções cognitivas.
No caso do tratamento, a possível ocorrência de disfunções cognitivas durante o curso da diabetes deve ser considerada na clínica de cada paciente. Além da avaliação clínica e cognitiva, outras práticas devem ser possivelmente adotadas. Estas incluem a utilização de métodos de
diagnóstico por imagem para uma melhor avaliação visual de potenciais atrofias e identificação de locais com injúria vascular e de outros marcadores que contribuem para as disfunções cognitivas e que são relevantes para a diabetes tipo 2, uma vez que estas patologias podem ser
encontradas em combinação. Contudo, com relação ao tratamento do declínio cognitivo em pacientes com diabetes, ainda não há evidência que a intensificação do controle da glicemia e o uso de agentes antidiabéticos possa, de alguma forma, frear o declínio cognitivo. Estudos futuros envolvendo fatores como a modulação da inflamação, alterações microvasculares e neurodegeneração, além dos aspectos já comentados, poderão fornecer potenciais alvos de tratamento. Além disso, pesquisas futuras poderão auxiliar na identificação dos fatores causadores de disfunções cognitivas nos pacientes com diabetes.

Fontes: Geert Jan Biessels e colaboradores (2020), “Understanding multifactorial brain changes in type 2 diabetes: a biomarker perspective”. Artigo publicado na revista The Lancet Neurology.
Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/laneur/article/PIIS1474-4422(20)30139-3/fulltext.
(2) Velandai Srikanth e colaboradores (2020), “Type 2 diabetes and cognitive dysfunction -towards effective management of both comorbidities”. Artigo publicado na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology.
Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/landia/article/PIIS2213-8587(20)30118-2/fulltext.
(3) Lenore J. Launer (2020), “Interrelationships among central insulin signalling, diabetes, and cognitive impairment”. Artigo publicado na revista The Lancet Neurology.
Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/laneur/article/PIIS1474-4422(20)30172-1/fulltext.
(4) Ralph A. DeFronzo e colaboradores (2015), “Type 2 diabetes mellitus”. Artigo publicado na revista Nature Reviews Disease Primers.
Disponível em: https://www.nature.com/articles/nrdp201519

Enviado por: Charles Elias Assmann, graduado em Ciências Biológicas e aluno de Doutorado em Bioquímica
Toxicológica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5754493402648045.

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