Estudo aponta que o número de mortos pela pandemia será maior onde as medidas de isolamento forem mais brandas

A pandemia da COVID-19 implicou não só em adoecimento, mas também em prejuízos sociais e econômicos aos indivíduos. Essa gama de consequências tem efeitos a longo prazo ainda desconhecidos na mortalidade geral da população. Estima-se que 80% das pessoas serão afetadas, direta ou indiretamente, pela pandemia da Covid-19. Frente a isso, é essencial estimar e monitorar a mortalidade causada exclusivamente pela pandemia, isto é, comparar o número de mortes esperadas no cenário pré-Covid com o acréscimo de mortes no panorama da pandemia. Em outras palavras, o excesso de mortalidade diz respeito a quantas mortes ocorreram exclusivamente do surto do coronavírus. A mortalidade pela Covid-19 pode surgir tanto nas pessoas infectadas (efeitos diretos), quanto nos afetados pela mudança nos serviços de saúde, mudanças econômicas, repercussões psicológicas e sociais do isolamento social (efeitos indiretos). Esperam-se mortes não só devido ao quadro agudo infeccioso do SARS-CoV-2, mas também por diversos fatores indiretos, como descompensação de doenças crônicas, vulnerabilidade acentuada pela quarentena, aumento da violência e piora da saúde mental.
Em abril, o Escritório de Estatísticas Nacionais da Inglaterra relatou 6 mil mortes em excesso registradas em apenas 1 semana, das quais 2.500 não apontaram Covid-19 no atestado de óbito, fornecendo a primeira indicação dos efeitos indiretos da pandemia na mortalidade da população. Banerjee e sua equipe, em outro estudo realizado na Inglaterra, estimou o excesso da mortalidade em um ano em diferentes cenários de incidência de Covid-19 com base em graus variáveis ​​de isolamento social. O período de 1 ano foi escolhido por causa de preocupações sobre segundas ondas de infecção, tempo necessário para os serviços de saúde reestabelecerem-se e para o número de casos retornar a um novo estado estacionário. A pesquisa foi realizada com mais de 3 milhões de indivíduos do Reino Unido e utilizou dados  de prevalência de condições subjacentes – como idade, sexo, região demográfica, comorbidades e uso de medicamentos – registradas em prontuários de 1997 a 2017 para estimar a mortalidade anual frente a essas condições.  
Associaram essas estimativas a diversos cenários da Covid-19 e fizeram esse recálculo da mortalidade a fim de identificar o quanto ela excederia a taxa basal de mortes estimada antes da pandemia. Os cenários de isolamento considerados foram: mitigação, supressão total, supressão parcial e sem nenhuma medida restritiva. A mitigação é um modelo mais permissivo, no qual a ideia é diminuir o avanço da pandemia, sem necessariamente detê-la, identificando e colocando em quarentena os já infectados, os que tiveram contato com estes e as pessoas de alto risco para a doença, como idosos e imunossuprimidos. A supressão, por sua vez, é um modelo restrito, rigoroso e radical, que tem como objetivo manter a incidência de casos num nível constantemente baixo, envolvendo o distanciamento de quase ou toda população, incluindo o fechamento de escolas e universidades.
Mais de 20% da população do estudo está na categoria de alto risco, a qual possui ao menos uma condição subjacente. Nessa categoria, sem levar em conta a pandemia, a mortalidade anual foi estimada em 4,46%. Em um cenário de supressão total, foram estimadas 2 mortes em excesso em relação às mortes basais calculadas pré-pandemia. Na supressão parcial, 1.837 mortes foram estimadas.  Com a adoção da mitigação, foram calculadas 18.374 mortes em excesso. Em um cenário sem isolamento, estimaram-se 146.996 mortes causadas exclusivamente pela pandemia, não estando inclusos os fatores de risco que os indivíduos já possuíam. Fica evidente que uma supressão total, mesmo que impacte por seu rígido isolamento social, minimiza muito mais efetivamente a mortalidade. O impacto da Covid-19 provavelmente será (e já está sendo) muito maior se houver pouca adesão ao isolamento e baixa capacidade do sistema de saúde. Vale ressaltar que, em países menos desenvolvidos, como o Brasil, estas tendências devem ser piores ainda. Esses dados alertam para a necessidade de medidas de supressão rigorosas e de acompanhamento da população a longo prazo, a fim de atenuar os grandes danos que a Covid-19 já deixou na população e para que estes não se tornem sequelas tão duradouras na vida dos indivíduos.

Fonte: Armitava Banerjee e colaboradores. Publicado em maio de 2020, na revista The Lancet. 
Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)30854-0/fulltext

Enviado por: Luiza Elizabete Braun – Acadêmica do curso de Medicina da UFSM e aluna de iniciação científica do Laboratório de Biogenômica.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8218583647133629

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