Metabolismo tumoral impede o reparo do DNA

Para alguns, como estudiosos, qualquer referência a palavra “tumoral” pode ser uma abertura a um novo assunto ou possibilidade de aprendizado, no entanto, para aqueles que não se encaixam nesse quesito, o peso da palavra pode ser bastante difícil de suportar. É muito conhecido na literatura, tanto popular, quanto científica, os danos causados em processos de formação de tumores no corpo. Embora seja caracterizado por uma série de desordem nas funções celulares, que muitas vezes levam a proliferação excessiva e aumento do tecido, nem todo tumor assumirá um caráter maligno.
Cânceres ou tumores são sempre vinculados a perda de responsividade celular, em outras palavras, a unidade fundamental do corpo (que é a célula) modifica seu funcionamento para além da normalidade metabólica. Falando em metabolismo, que é a execução das funções celulares, esse processo gera uma série de substâncias e moléculas (muitas vezes em excesso) que são danosas a célula e, consequentemente, ao tecido. Cientistas tem, então, tentado elucidar o papel de certos metabólitos (produtos do metabolismo) produzidos pela célula que seriam capazes de impedir o reparo do DNA. Essa investigação se torna importante uma vez que o DNA contém toda a informação genética do nosso corpo, assim, na necessidade de produzir proteínas, enzimas e na própria multiplicação celular, é o DNA quem será acessado para realizar esses processos. Uma vez danificado erros podem ser passados adiante através da replicação celular ou, ainda, levar a morte (apoptose) dessa célula.
Alguns oncometabólitos (moléculas provenientes do metabolismo de células tumorais) surgem devido a mutações (modificações na cadeia do DNA) que, por exemplo, geram a informação para a produção de uma enzima. Entre essas moléculas destacam-se o 2-Hidroxiglutarato (2-HG), o fumarato e o succinato. Essas 3 moléculas (2-HG, fumarato e succinato) são estruturalmente similares a uma outra molécula (α-cetoglutarato ou α-KG) importante em reações de oxidação do material genético (DNA e RNA). Assim, por terem uma forma semelhante, todas as 4 moléculas podem se ligar a uma mesma enzima, causando uma competição pelo sítio de ligação. Uma dessas enzimas é responsável pela modificação da cromatina (complexo de DNA e proteínas dentro do núcleo) e é conhecida como KDM (lisina histona desmetilase).
A ativação das enzimas KDM está vinculada ao processo de reparo de DNA, em outras palavras, quando existe uma quebra na estrutura do DNA (que está na forma de hélice dupla fita), a ativação dessas enzimas é um importante gatilho de reparo para que a célula siga na replicação sem passar o erro adiante ou gere outras moléculas danosas ou não funcionais. Uma vez não reparada, a quebra na hélice gera instabilidade cromossômica, que pode levar ao crescimento tumoral ou a apoptose celular.
Existem diversos tipos de danos que podem ocorrer na fita de DNA e o processo de reparo é extremamente complexo envolvendo diversas etapas com a sinalização de muitas outras moléculas, proteínas e enzimas. De fato, em estudo realizado por Sulkowski e colegas, sugere-se que células que acumulam maior expressão de oncometabólitos tem maior dificuldade no recrutamento da maquinaria que irá realizar o reparo celular, tornando a célula mais propensa a erros, morte e danificação tecidual.
Essas descobertas e estudos são importantes na expansão do conhecimento acerca dos oncometabólitos e no seu papel em processos tumorais. Um possível tratamento, nesse caso, pode vir através de um produto farmacológico que inibiria a molécula mutante. Ainda assim, a teoria se mostra mais fácil que a prática e muitos estudos precisam ser realizados para maiores elucidações. Por outro lado, Sulkowski e colaboradores foram capazes de mostrar uma vulnerabilidade em células cancerosas gerando uma excelente oportunidade na busca de novas terapias.

Fonte: Chen, L. & Xiong, Y. Tumour metabolites hinder DNA repair. Nature – News & views, 2020.
Disponível em: https://media.nature.com/original/magazine-assets/d41586-020-01569-1/d41586-020-01569-1.pdf

Enviado por: Enviado por: MSc. Moisés Henrique Mastella. Biólogo, Doutorando em Farmacologia Universidade Federal de Santa Maria
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4345010332881664

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quinze + 11 =