Por que a Covid-19 é mais grave em pacientes diabéticos?

Através de avaliações clínicas tem se observado que as consequências da infecção por coronavírus (SARS-CoV2) são mais graves em pacientes com doenças de base como, diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares. Nesse contexto, muitos estudos tentam esclarecer o motivo pelo qual a Covid-19 é mais agressiva nesses pacientes, principalmente em diabéticos.
Inicialmente, a Diabetes Mellitus se caracteriza por uma doença crônica onde ocorre o aumento da quantidade de glicose (“açúcar”) no sangue, sendo que o pâncreas é  responsável por produzir a insulina e o glucagon, que são hormônios responsáveis pela manutenção dos níveis de glicose no sangue, visto que a glicose ao ser metabolizada na mitocôndria (usina de energia do organismo) leva a produção de energia, a insulina (produzida pelas células beta pancreáticas) é liberada com a função de diminuir os níveis de açúcar do sangue, ou seja, aumentar a captação do açúcar que está no sangue pelas células, ou seja o açúcar entra nas células e os níveis sanguíneos diminuem, já o glucagon é liberado quando se tem baixos níveis de açúcar no sangue, a fim de promover a liberação da glicose pelas células que a armazenaram anteriormente. O equilíbrio, chamado normoglicemia é importante, uma vez que  baixos níveis de glicose refletem em “falta de energia” para o organismo, afetando cérebro, coração, rins, fígado e demais órgãos vitais não conseguem desempenhar bem suas funções. Por outro lado, o excesso de açúcar no sangue, por longos períodos, podem ocasionar danos em olhos, rins, coração e vasos sanguíneos.
A diabetes, no geral envolve principalmente o funcionamento da insulina, podendo ser classificada em tipo 1 ou 2, sendo que o tipo 1 caracteriza-se por pouca ou nenhuma liberação de insulina, devido a um ataque imunológico nas células produtoras e o tipo 2  é quando o organismo não consegue usar adequadamente a insulina que produz.  Independente do tipo de diabetes o nível de glicose no sangue encontra-se aumentado (hiperglicemia), indivíduos que procuram ajuda médica, fazem acompanhamento e utilizam medicamentos têm boa qualidade vida, no entanto a gravidade está em diabéticos descontrolados, ou seja, aqueles que não fazem o uso de medicamentos ou não o fazem corretamente ou ainda não tem acompanhamento médico.
Pesquisadores do Instituto de Biologia de Campinas-São Paulo buscaram desvendar o mecanismo que torna a Covid-19  mais grave em pacientes diabéticos descontrolados, através de bioinformática foram avaliadas células pulmonares de pacientes diabéticos com gravidada média e alta de Covid-19, nesses quadros foi visto uma superexpressão de genes (sequência de DNA  que é utilizada para produzir algum produto dentro da célula, por exemplo proteínas) envolvidos na via de sinalização Interferon alfa e beta que está envolvida na resposta viral. Além disso, também foi observado que em pulmões de pacientes mais graves havia um aumento de monócitos e macrófagos, que são células de defesa do organismo, que então envolvidas na resposta ao vírus. Dessa forma, os pesquisadores conduziram uma série de estudos, in vitro, com monócitos infectados por coronavírus e cultivados em diferentes concentrações de glicose. Sendo que quanto maior a concentração de glicose, maior era a replicação do vírus (mais cópias virais eram produzidas) e os monócitos produziam mais citocinas (sinalizadores celulares) pró-inflamatórias, como interleucina 1 e 6 e fator de necrose tumoral alfa, que atualmente são descritos como envolvidos no fenômeno chamado de “tempestade de citocinas”, que é uma resposta imunológica disfuncional, levando a uma hiperinflamação não só no pulmão mas no organismo como um todo.
A partir desse conhecimento, os pesquisadores testaram alguns medicamentos, como a 2-DG (2-Deoxi-d-glucose- um inibidor do fluxo de glicose) e antioxidantes na cultura de monócitos e foi observada a redução da replicação viral e também da produção de citocinas, as vias pelas quais o processo ocorre ainda são pouco conhecidas. Todavia,  a partir disso é possível estabelecer o mecanismo pelo qual o efeito da Covid-19 é mais grave em pacientes diabéticos descontrolados pois parece que,  o excesso de glicose é captado pelos monócitos, assim, essa glicose serve como fonte extra de energia para essas células, que promovem replicação viral acelerada do coronavírus se comparada a um organismo em normoglicemia.  Essas descobertas também podem auxiliar na busca por terapias auxiliares no tratamento da Covid-19.

Fontes: Bornstein S. R. e colaboradores. Publicado na revista  Lancet Diabetes Endocrinol, em 23 de abril de 2020.
Disponível em: https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S2213-8587%2820%2930152-2

 Cado, A. C. e colaboradores. Submetido e em revisão na revista Cell Metabolism, em 21 de maio de 2020.
Disponível em: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3606770

Sociedade Brasileira de Diabetes.
Disponível em: https://www.diabetes.org.br/publico/diabetes/tipos-de-diabetes

Enviado por: Danieli Monteiro Pillar, Aluna do curso de Farmácia-UFSM, Aluna de Iniciação Científica no Laboratório de Biogenômica e Bolsista FAPERGS.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2981912754714259

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