Sequenciamento Genômico como aliado para evitar Novas Ondas de Contaminação do SARS-CoV-2

Desde que a disseminação do SARS-CoV-2 começou a aumentar mundialmente, uma das principais preocupações dos líderes de saúde pública é encontrar uma medida capaz de diminuir o contágio do vírus, sua morbimortalidade e seus impactos nos sistemas de saúde. A forma mais eficaz, e que ainda vem sendo adotada, é o isolamento social. Em regiões que ainda não conseguiram diminuir as taxas de infecção ele é aplicado de forma mais restrita.
Nesse sentido, países que já passaram pelo pior momento da crise e que estão com os números de infectados diminuindo, procuram estratégias para iniciar o processo de reabertura e relaxamento do isolamento social de forma responsável, ou seja, diminuindo as chances de haver uma nova onda de contaminação pelo vírus. Assim, o uso de dados genômicos (aqueles que se referem a informações genéticas do vírus), segundo pesquisas realizadas na Nova Zelândia, Reino Unido e outros países, tem se mostrado uma ferramenta bastante promissora para evitar novos cenários de contágios em massa.
A primeira sequência genômica do SARS-CoV-2 foi publicada mundialmente no dia 11 de janeiro e, desde então, pesquisadores de diversos países se empenharam em conseguir identificar novas sequências. Com isso, hoje (02 de junho de 2020) há mais de 37 mil sequências identificadas e publicadas. Essas sequências se encontram na plataforma GISAID, criada com o intuito de permitir o rápido compartilhamento de informações sobre os vírus Influenza e atualmente vendo sendo utilizada para o compartilhamento de informações sobre a SARS-CoV-2, por cientistas de todo o mundo.
Esses dados já têm sido bastantes eficazes no cenário atual da pandemia, ajudando profissionais da saúde a identificar a origem dos surtos e quando ocorreu a primeira transmissão na comunidade. O seu uso foi capaz de encontrar conexões entre casos que não teriam sido percebidas pela análise tradicional do rastreamento de contato, como foi o caso de um funcionário de um hospital na Austrália, que contraiu Covid-19. Pelos dados genômicos, foi possível detectar que o contágio veio de um evento social do funcionário e não de um paciente do hospital.
Essa ferramenta tem sido muito utilizada pelos sistemas de Saúde de diversos países, como a Austrália, que investiu no sequenciamento desde o início dos casos no país, e com isso conseguiu planejar suas ações de forma mais eficiente e manter um quadro de disseminação mais controlado.
No Brasil, uma equipe de cientistas da Universidade de São Paulo, do Instituto Adolfo Lutz e da Universidade de Oxford conseguiu realizar o sequenciamento do genoma apenas 48 horas após a primeira infecção pelo SARS-CoV-2 ter sido confirmada, publicando no site virological.org no dia 28 de fevereiro. A rapidez da equipe ganhou notoriedade na época, uma vez que o tempo médio para concluir o sequenciamento em outros países era de duas semanas. A partir dos dados genômicos obtidos desde então, os pesquisadores conseguiram perceber que as sequências das amostras de pacientes brasileiros se diferenciavam das de outros países, constatando assim que já estava ocorrendo transmissão comunitária, ou seja entre os residentes no Brasil.   
Os países que conseguiram controlar os índices da infecção e estão entrando em uma nova fase da pandemia da Covid-19 poderão utilizar o sequenciamento genômico para identificar rapidamente novos surtos e, assim, tomar medidas de forma mais eficaz do que era possível no início da pandemia, diminuindo as chances de um novo aumento considerável de casos. Com o alto número de sequências conhecidas atualmente será possível fazer uma comparação para descobrir a origem de uma nova contaminação. Na perspectiva de retorno das viagens regionais e internacionais isso será essencial para descobrir se um novo contágio se originou dentro ou fora das fronteiras e, assim, tomar as medidas necessárias e pertinentes.
Essa abordagem não é uma realidade nova e já foi empregada em outros surtos, como de HIV, Ebola e Cólera. Ela foi muito importante para delimitar a transmissão e a disseminação de tais surtos virais e ajudar no controle.
No entanto, é importante atentar que o uso de dados genômicos possui suas limitações. Como a Covid-19 é uma doença que possui uma transmissibilidade muito alta, com grande parte dos infectados apresentando um quadro assintomático da infecção e, portanto, normalmente não são testados, muitos sequenciamentos podem ser perdidos nesses casos, formando “vazios” de informações. Assim, o uso da vigilância genômica é mais eficaz quando aliado à ampla testagem da população e amplo sequenciamento, mesmo entre os assintomáticos. Ainda, essa ferramenta é uma realidade quase restrita para países desenvolvidos, sendo improvável sua larga utilização em países com recursos limitados.
Vale ressaltar, também, que apesar de parecer uma ferramenta bastante promissora, ainda é de extrema importância que se mantenha as instruções de isolamento social, constante higienização e uso de máscaras quando sair de casa for essencial.

Fontes: Watson, C. Nature. 2020.
Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-020-01573-5#ref-CR2

Stevens, L. Frontiers in Microbiology. 2017.
Disponível em: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fmicb.2017.00808/full

Carbinatto, B. Super Interessante. 2020.
Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia/por-que-sequenciar-o-genoma-do-novo-coronavirus-e-importante/

Enviado por: Daniel Augusto de Oliveira Nerys, acadêmico do Curso de Medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6856876692474909

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezessete + 2 =