Tratamentos de alergias alimentares podem revolucionar tratamentos anafiláticos

Nos anos recentes, estudos epidemiológicos têm apresentado um aumento na prevalência de casos envolvendo alergias alimentares (AAs), com a ascensão de novas síndromes alérgicas, provavelmente em parte advindas das novas condições ambientais e nutricionais às quais a humanidade vem se submetendo, incluindo a modificação genética dos alimentos e o ultraprocessamento.

Neste contexto, o conhecimento em relação a estas intolerâncias imunológicas vem se revolucionando, abrindo caminho para novos modelos preventivos e terapêuticos. Inicialmente, é importante comentar que alergias alimentícias tratam-se de reações que ocorrem no corpo humano em resposta a ingestão de um composto que, em situação normal, seria inofensivo (e por isso se diferem dos problemas causados por toxinas ou microorganismos nocivos que podem estar na comida). Além disso, deve-se citar que o mecanismo é dependente do sistema imunológico (diferente de intolerâncias, que independem do sistema imune), com destaque da ação do anticorpo conhecido como imunoglobulina E (IgE), capaz de induzir uma resposta às vezes indesejada.


Historicamente, as AAs foram consideradas doenças pediátricas, devido ao fato de que estas tendem a surgir durante a infância, mas desaparecer ao longo do desenvolvimento da criança ou adolescente. Contudo, ultimamente, a epidemiologia desta classe de doenças vem se alterando, apresentando um crescimento do número dos adultos afetados por esta
condição (provavelmente causado pelo envelhecimento da população geral no ocidente e pelas mudanças no ambiente e mesmo no estilo de vida destas pessoas).
Os principais alérgenos conhecidos são ovos, leite de vaca, frutos do mar, castanhas, trigo e soja. Cabe ressaltar que as alergias podem variar desde manifestações leves (vermelhidão ou coceira) até as mais graves (choque anafilático), além dos principais causadores das reações serem diferentes nas diferentes regiões do planeta. Normalmente, para o organismo realizar uma reação alérgica, deve-se inicialmente ocorrer um primeiro contato com o alérgeno (substância que provoca reação alérgica),
causando a sensibilização do corpo com produção de IgEs específicas.

Desta forma, em um segundo contato com o alérgeno/antígeno (elemento estranho ao corpo), as IgEs atuarão, induzindo a liberação de fatores alérgicos (potencialmente anafiláticos), como histamina, interleucinas e citocinas específicas. Atualmente, não se é mais aceita a teoria de que a tolerância aos alimentos seja um falta de resposta imunológica, mas sim um reconhecimento dos mesmos, criado a partir de exposição via oral e amamentação. Sendo assim, as AAs se enquadram em casos com uma
predisposição nas quais a formação da tolerância não são estabelecidos ou até mesmo interrompidos.


Além das células imunológicas, outro fator importante no desenvolvimento das AAs são as microbiotas (sistema de microrganismos) da pele e o intestino. Uma vez que a pele (quando danificada) e os tecidos intestinais são importantes centros de surgimento de hipersensibilização alérgica, as microbiotas locais se apresentam como peças chave, sendo capazes de modular o equilíbrio entre respostas celulares e sensibilização, dependendo do tipo de bactérias presentes (adquiridas pela alimentação e ao longo do convívio com diferentes pessoas e animais).
Vários fatores vêm sendo estudados para descobrir os principais fatores causadores da hipersensibilização, entre eles, foram listados a baixa ingesta de vitamina D, frutas e verduras, bem como a microbiota corporal e a exposição infantil a microrganismos e alérgenos. No passado, a recomendação era de manter a dieta de crianças livre dos principais
alimentos desencadeadores de alergia, no entanto, hoje a recomendação é o exato oposto.


Com a demonstração de que esta superproteção infantil culminou no aumento do número de indivíduos acometidos por AAs, as orientações mais recentes indicam a ingestão destes alimentos para que haja o desenvolvimento, idealmente, da tolerância aos mesmos.
Baseado nos novos descobrimentos acerca das AAs, as terapias têm sido modificadas substancialmente. Entre elas podemos citar a imunoterapia específica (buscando alcançar uma não responsividade permanente aos alérgenos alimentares). A imunoterapia especifica também é conhecida como “vacina para alergia”, e a imunoterapia tem como objetivo diminuir
a sensibilidade do paciente alérgico as substâncias.
A ingestão de alimentos de alergenicidade reduzida e a administração de adrenalina ao aparecimento dos primeiros sinais de anafilaxia. Assim, com o desenvolvimento da alergologia (especialidade da Medicina que visa o diagnóstico e o tratamento das doenças alérgicas), o futuro dos tratamentos caminham para formas cada vez mais personalizadas e efetivas.


Fonte: Martinis et. al. 2020. Publicado na revista International journal of molecular sciences.
Disponível em: https://www.mdpi.com/1422-0067/21/4/1474/htm

Enviado por: Augusto Y. Ueno, acadêmico de medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5505

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