Vulnerabilidade dos idosos na pandemia

É evidente que a pandemia de Covid-19 gerou inúmeras repercussões que perpassam a esfera de saúde pública e permeiam inúmeras outras dimensões da vida humana. Neste contexto, cabe destacar que certos segmentos populacionais possuem maior risco de sofrerem efeitos intensificados deste fenômeno excepcional, dentre eles podemos citar os idosos, sendo importante discutir alguns aspectos inerentes a este grupo.
A faixa etária geriátrica pode ser descrita em termos de características físicas, psicossociais e ambientais únicas que determinam maior vulnerabilidade aos atributos fisiológicos e psicossociais associados à idade. Somado a isso, em populações geriátricas são encontrados índices mais elevados de síndrome da disfunção de múltiplos órgãos (acometimento progressivo de dois ou mais órgãos) e septicemia (caracterizada por um estado infeccioso generalizado devido à presença de microrganismos patogênicos e suas toxinas na corrente sanguínea). Estes elementos corroboram para explicar como a idade atua como fator isolado na predição de mortalidade por Covid-19, além de correlacionar-se com estudos comparativos por idade que demonstraram que pacientes acima de 55 anos infectados por SARS-CoV-2 possuíam três vezes mais chances de ir a óbito, maiores taxas de hospitalização, recuperação clínica retardada, aumento do envolvimento pulmonar e progressão mais rápida da doença. 
A pandemia, além de afetar fatores inerentes a saúde física, tem profundos impactos na saúde mental dos idosos. Sabe-se que a quarentena pode aumentar a sensação de solidão, que por si só eleva o risco de ansiedade, depressão, disfunção cognitiva, doença cardíaca e mortalidade em pessoas idosas. Acrescido a isso estão a incerteza e o medo da pandemia, que podem ter um efeito psicológico amplificado na população idosa, pois os mesmos estão cientes de sua vulnerabilidade. Até agora, pesquisas preliminares com idosos mostraram aumento da incidência de distúrbios depressivos, estresse pós-traumático complexo, reações de ajuste e aumento da ideação suicida e de tentativas decorrentes do estresse vivenciado. Cabe ainda ressaltar que qualquer forma de estresse está associada à diminuição da imunidade, que pode agravar os sistemas de defesa fisiológicos já enfraquecidos neste grupo. 
Outros fatores como déficits sensoriais, cognitivos e dificuldades com uso de tecnologias podem gerar dificuldade de acesso a informações, desinformação, adoção de medidas de precaução inadequadas e maior propensão ao distanciamento emocional na ausência de contato digital com as famílias. Deve-se considerar ainda que, como os sistemas de saúde se organizaram em torno do atendimento a Covid-19, essas pessoas também podem enfrentar grandes barreiras de acesso aos serviços de saúde para tratamento de doenças de saúde mental, doenças cardiovasculares, tumores, doenças neurodegenerativas e outros distúrbios relacionados à idade à qual este grupo é naturalmente mais suscetível.  Assim, torna-se imprescindível a atenção internacional e nacional para adultos idosos durante o surto de Covid-19, sendo crucial o planejamento e a implementação de uma intervenção específica centrada na pessoa idosa em todas as fases da pandemia, incluindo uma perspectiva de longo prazo que inclua o período após essa emergência. Medidas imediatas que podem ser adotadas para fornecer suporte a população idosa incluem explicação em termos simples e relevantes acerca das medidas preventivas adequadas sugeridas pela OMS (distanciamento social, higiene das mãos e respiratória), promoção de suporte emocional para os que vivem sozinhos, garantia das necessidades básicas, segurança e dignidade a fim de ajudar no alívio do estresse e combate da solidão, além disso o uso de telemedicina para consultas pode diminuir os riscos à saúde física e reduzir o medo. Em suma, a pandemia atual trouxe à tona alguns pontos que devem ser avaliados cuidadosamente para que o idoso tenha suas necessidades atendidas mesmo diante da atual situação, sendo impreterível resguardar o direito de envelhecer com qualidade, autonomia e, sobretudo, dignidade.

Fonte: Banerjee. Publicado na revista Asian Journal of Psychiatry em 05 de maio de 2020.
Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7198430/

Brooke e Jackson. Publicado na revista Journal of Clinical Nursing em 02 de abril de 2020.
Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/jocn.15274

Petretto e Pili. Publicado na revista Geriatrics em 26 de abril de 2020.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32357582/

Enviado por: Joana Rosa Rodrigues – acadêmica de Medicina e aluna de iniciação científica Laboratório Biogenômica – UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1465826570691475

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