Ciência e espiritualidade na saúde mental: complementares ou opostas?

O dualismo, embora seja um objeto humano de estudo da filosofia, sempre esteve presente inconscientemente no cotidiano. Em outras palavras, o dualismo ou dualidade, é a representação de forças opostas que parecem não encontrar fim uma na outra e, aqui, podemos destacar exemplos bem simples, como o “bem” e o “mal”, o preto e o branco, além de ciência e religião. No entanto, ainda são poucos, embora não sejam de hoje, a existência de estudos que unem essas duas forças e tentam mostrar que ciência e a espiritualidade podem trabalhar de forma cooperativa.

Sigmund Freud foi um neurologista e psiquiatra conhecido como criador da psicanálise e em suas obras abordou as experiências extra-sensoriais, ou seja, situações que fogem a realidade física, como neurose. Por outro lado, outros estudiosos como Carl Jung, Viktor Frankl e William James tenham demonstrado posições mais favoráveis com relação aos indivíduos que relatam ou creem em aspectos espirituais. Ainda que religiosidade e espiritualidade não representem a mesma ideia, ambas permanecem fora dos conceitos de pesquisa científica, especialmente na psiquiatria.

Os dados recentes acerca da prática espiritual no mundo são volumosos e começam a apontar para uma tendência de quebra da linha que separa a ciência da espiritualidade. Por exemplo, em nota publicada por Rosmarin e colegas em fevereiro deste ano (2020), cerca de 84% da população mundial tem ligação com alguma prática religiosa, enquanto daqueles que não estão nessa porcentagem (os 16% restantes) 68% não nega a existência de uma força superior. As questões a serem levantadas a partir dessas informações, que embora não sejam muito precisas devido ao baixo interesse envolvendo esses dados, são variadas e pesam, excessivamente, sobre quesitos vinculados a saúde mental.

Um estudo com 90 mil mulheres americanas demonstrou que o vínculo semanal a atividades religiosas reduziu em 5 vezes o número de suicídios, mesmo após o controle da depressão (aqui vale ressaltar que está doença muitas vezes não é corretamente diagnosticada e tratada, podendo estar mascarada em sintomas mais sutis). Ainda, assim como todo o excesso faz mal, é válido ressaltar que nem todos os aspectos religiosos são positivos, uma vez que a manifestação de sintomas psicóticos-obsessivos é um quesito passível de tratamento com profissional médico. Em outras palavras, a tendência contínua de transportar sentimentos cotidianos, como culpa e realizações, exclusivamente para o lado espiritual da balança pode ser a causa de um desequilíbrio psicológico que ameaça a integridade física e mental do paciente, pois gera excessivo êxtase ou sofrimento emocional.

É comum que aspectos espirituais surjam durante tratamentos clínicos e outros estudos já demonstraram que 40% dos pacientes que estavam em tratamento e cometeram suicídio tiveram como causa lutas espirituais (configuradas como o não entendimento das situações vividas e associadas ao divino). Por outro lado, recuperações relatadas pelas etapas de tratamento dos Alcoólicos Anônimos (AA) apontam para um índice de abandono de vício de mais de 54% quando a espiritualidade foi inserida como possibilidade de mudança de hábito. A construção da atenção plena empregada no budismo, por exemplo, tem alta procura para tratamento de condições relacionadas ao estresse, ansiedade e depressão, sejam elas decorrentes ou não de problemas viciais.  Embora os mecanismos de como os valores espirituais agem no organismo ainda sejam desconhecidos, profissionais da saúde já perceberam que a abordagem é válida. A Organização Mundial da Saúde (OMS), inclusive, reconheceu oficialmente e inseriu a espiritualidade em seu conceito de saúde Inegavelmente, a espiritualidade é um fenômeno social difundido em todo mundo e,  cerca de 80% dos portadores de distúrbios mentais recorrem ao auxílio espiritual como forma de tratamento ou complementar a este. Sendo as doenças mentais a maior preocupação atual e futura com relação a saúde e bem estar humano, o vínculo a espiritualidade parece ser uma oportunidade de melhora na qualidade de vida, uma vez que grande parte das pessoas busca esse método como alívio do sofrimento. Por fim, vale ressaltar que o conhecimento de ambos os lados (espiritual e científico) é um fator importante para uma análise imparcial, que pode ter como fonte de busca, por exemplo, estudos científicos e o próprio evangelho.

Fonte: Rosmarin, DH, Pargament, KI, Koenig, HG. Spirituality and mental health: challenges and opportunities. The Lancet Psychiatry 2020.
Disponível em: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30048-1

Kardec, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo; [coordenação] Ferreira Junior, DC. – 12ª edição, Porto Alegre: BesouroBox, 2019, pgn 42 “Aliança da Ciência com a Religião”.

Enviado por: MSc. Moisés Henrique Mastella. Biólogo, Doutorando em Farmacologia Universidade Federal de Santa Maria.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4345010332881664

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