Da imunidade a influência genética na resposta ao coronavírus: Quais mistérios ainda precisam ser desvendados?

Seis meses depois, mais de 10 milhões de casos confirmados e mais de 500 mil pessoas mortas, a pandemia da Covid-19 tornou-se a pior crise de saúde pública em um século. Nesse contexto, também propiciou uma revolução na pesquisa, já que a comunidade científica trabalha incansavelmente para entender a Covid-19 e buscar maneiras de tratá-la. Neste cenário, Callaway e colaboradores analisaram questões acerca da doença e o vírus que a causa – o SARS-CoV-2 – e reuniram as respostas para tentar esclarecê-las à população. Para explicar porque algumas pessoas nunca desenvolvem sintomas, enquanto outras, aparentemente saudáveis, têm pneumonia grave ou até morrem em decorrência da Covid-19, uma equipe internacional, que analisou os genomas de cerca de quatro mil pessoas da Itália e da Espanha, demonstrou os primeiros indícios de fortes vínculos genéticos com a Covid-19. Eles relataram que as pessoas que desenvolveram insuficiência respiratória tiveram maior probabilidade de carregar uma das duas variantes genéticas específicas em comparação com as pessoas sem a doença. Uma dessas variantes está na região do genoma que determina o tipo sanguíneo ABO, outra está próxima de vários genes, incluindo um que codifica uma proteína que interage com o receptor que o vírus usa para entrar nas células humanas e outros dois que codificam moléculas ligadas à resposta imune contra patógenos, ou seja contra o vírus neste caso. Assim, estudiosos do mundo inteiro correm para pesquisar o genoma não só dos afetados pela doença grave, mas também dos que foram “resistentes”, a fim de descobrir novas ligações genéticas. Outra questão relevante é sobre a natureza da imunidade e quanto tempo isso pode durar. Estudos descobriram que os níveis de anticorpos neutralizantes, aqueles que se ligam ao vírus e impedem diretamente a infecção, (nossos soldados de defesa que reconhecem o inimigo) permanecem altos por algumas semanas após o contágio com o novo coronavírus, mas geralmente começam a diminuir. No entanto, esses anticorpos podem permanecer em altos níveis por mais tempo em pessoas que tiveram infecções particularmente graves, ou seja: quanto mais vírus, mais anticorpos (mais exército de defesa) e mais tempo esse mecanismo de defesa do organismo durará. Infelizmente, os pesquisadores ainda não sabem que nível de anticorpos neutralizantes é necessário para combater a reinfecção, ou pelo menos para reduzir os sintomas em uma segunda doença. Além da imunidade, as mutações (mudanças que ocorrem na informação genética do vírus e que podem alterar o modo como ele age) são outro ponto que preocupa os cientistas, já que todos os vírus sofrem alterações quando infectam pessoas, e o SARS-CoV-2 não é exceção. Nesse viés, a preocupação gira em torno do fato de que tais mutações têm o poder de diminuir a eficácias das vacinas, alterando a capacidade dos anticorpos e células T de reconhecer o vírus em uma nova infecção. Outro questionamento relevante é feito acerca das vacinas: quão bem elas funcionarão? Atualmente, existem cerca de 200 em desenvolvimento em todo o mundo. O que já foi descoberto é que as vacinas contra a Covid-19 levam nosso corpo a produzir anticorpos neutralizantes potentes que podem impedir o vírus de infectar as células. O que ainda não está claro é se os níveis desses anticorpos são altos o suficiente para interromper novas infecções ou por quanto tempo essas vacinas vão nos dar poderio de resistência ao vírus. Por fim, muito se discute acerca da origem do vírus: a maioria concorda que o SARS-CoV-2 se originou em morcegos, especificamente morcegos-ferradura. Esse grupo hospeda dois coronavírus intimamente relacionados ao que causa a Covid-19: o RATG13, que possui 96% do seu genoma idêntico ao do SARS-CoV-2, e o RmYN02, que compartilha 93%. Os pesquisadores sugerem que o vírus pode ter passado por um hospedeiro intermediário, tal como pangolins, antes de se espalhar para as pessoas. Estudos confirmam que esses animais podem hospedar coronavírus que compartilham um ancestral comum com o SARS-CoV-2, porém isso não prova que o vírus saltou de pangolins para as pessoas. Nesse sentido, para ter certeza sobre a jornada do vírus até humanos, é preciso encontrar um animal que hospede uma versão mais de 99% semelhante ao SARS-CoV-2, o que é complicado pelo fato de o vírus ter se espalhado tão amplamente entre as pessoas – e até entre outros animais, como gatos e cães. Como vemos apesar dos esforços dos cientistas de todo o mundo, muito ainda precisa ser esclarecido a cerca do Coronavírus, por hora as recomendações mais seguras seguem sendo, mantenha o distanciamento social, cuide da higiene e use máscara.

Fonte: Callaway e colaboradores. Publicado na revista Nature, 2020.
Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-020-01989-z

Enviado por: Tanize Louize Milbradt, acadêmica do Curso de Medicina e aluna de iniciação científica Laboratório Biogenômica-UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9501880936037755

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