Efeitos nocivos do consumo de Cannabis: Perspectiva cerebrovascular e neurológica

A Cannabis  (Cannabis  sativa), também denominada de maconha, erva daninha ou marijuana, é considerada a droga recreativa ilícita mais usada em todo o mundo, ficando atrás  somente dos licitos, que são o álcool  e o cigarros.

A maconha é obtida através da extração natural da Cannabis sativa, e contem em sua composiçaõ mais de 400 substâncias onde 60 são canabinóides. O principal constituinte psicoativo da Cannabis é o D9-tetrahidrocanabinol (D9-THC), isolado pela primeira vez na  década  de  60, possui atuação diretamente no  cérebro, sendo as alterações dose-dependente, entre os componentes da Cannabis o D9-THC parece ser o responsável pela indução de sintomas psicóticos em sujeitos vulneráveis.

 No seu uso medicinal com doses calculadas, o principal composto extraido é o canabidiol, que atua como antioxidante, anticonvulsivante, anti-inflamatório e neuroprotetor, entretanto no uso recreativo da Cannabis, em que não há controle de qualidade do produto, e os elementos psicoativos não são extraidos,tão pouco há controle das quantidades utilizadas os efeitos negativos da mesma não podem ser negados.

O uso agudo e crônico de Cannabis está associado a diferentes efeitos nocivos no sistema nervoso central e no sistema nervoso periférico, incluindo síndrome de hiperemese ( vômitos e náuseas repetidos e graves), coordenação e desempenho prejudicados, ansiedade, tendências suicidas, sintomas psicóticos e transtornos de humor, exacerbação de distúrbios psicóticos, comprometimento neurocognitivos, doenças: cardiovasculares, neurológicas, respiratórias, cerebrovasculares, vasculares periféricas. Ainda,  pneumomediastino ou enfisema mediastinal, doença pulmonar bolhosa, aumento do risco de doença pulmonar obstrutiva crônica, doença intersticial descamada, enfim a lista de complicações é longa e variada.

Ainda, vários distúrbios neurológicos, como disfunção cognitiva, problemas comportamentais, memória, deficiência de atenção, alterações estruturais e funcionais no cérebro foram observados em diferentes estudos relacionados à exposição à Cannabis .

O aumento do uso de Cannabis  ou canabinóides está associado a várias complicações relacionadas a diferentes órgãos, incluindo o sistema neurológico e cerebrovascular no corpo humano. Os mecanismos relacionados ao aumento no risco de doença cerebrovascular, ocorre principalmente devido a Cannabis  atuar como um possivel “gatilho” para vasoconstrição (diminuição do calibre do vaso sanguineo) intracraniana reversível que, juntamente com o fluxo sanguíneo cerebral severamente reduzido, pode levar a morte neural.

Além de hipotensão ortostática(pressão arterial baixa que ocorre ao levantar-se da posição sentada ou deitada) com comprometimento secundário da autoregulação cerebral, função vasomotora cerebral alterada, hipertensão em supina(de barriga para cima) e flutuações da pressão arterial, cardioembolismo com fibrilação atrial, vasculopatia e vasoespasmo, estenose luminal da artéria  cerebral e angiopatia.

 Estudos  in vitro (aqueles que ocorrem fora de organismo, no caso em células)  realizado em células de camundongos mostrou que o THC (Tetra-hidrocanabinol) inibiu algumas fases do metabolismo das mitocôndrias, importantes reguladoras da respiração celular, o que levou ao aumento na quantidade de produção de peróxido de hidrogênio, que é responsavel pelo estresse oxidativo, e aumento da inflamação dos neurônios, podendo estar relacionados a outras doenças neurais como doenças neurodegenerativas.

Adolescentes que usam Cannabis de forma crônica, podem apresentar deficiência persistente em diferentes funções cognitivas, incluindo atenção, memória e velocidade de processamento neural. Conforme Estudo de Jouroukhin et al. (2019), a exposição de adolescentes a canabinóides leva a grave comprometimento da memória em comparação com o adulto demosntrando o efeito da idade sob o comprometimento neural em formação.

Além dos efeitos em adolescentes, o uso de Cannabis por gestantes , interfere na formação dos fetos, podendo ter o desenvolvimento cerebral afetado, que resultam  em visão e coordenação prejudicadas, além de distúrbios na atenção e problemas comportamentais em já em  fases adultas.

Além disso, diferentes doenças psiquiátricas, em que estão incluinda a esquizofrenia, transtorno bipolar, ansiedade social e pensamento suicida, são mais prevalentes em usuários de maconha do que em não usuários . Estes efeitos  são  observados em usuarios com maior tempo de exposição, e também diferenciam-se devido a variabilidade genética e a idade do individuo.

Desta forma, é evidente que o estudo dos efeitos da Cannabis e da exposição particularmente crônica a ela, deve ser considerado um dos principais alvos de estudos futuros, principalmente devido a aumento do consumo por adolescentes e também da maior prevalências de doenças neurológicas e psiquiátricas observadas nestas populações.

Fonte: Archie & Cucullo. Artigo publicado no Front. Pharmacol., disponível em: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fphar.2019.01481/full

Enviado por: MSc. Thamara Graziela Flores. Fisioterapeuta, Doutoranda em Farmacologia Universidade Federal de Santa Maria

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1885218080678884

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