Entenda como seu corpo é capaz de manter a temperatura durante o frio do inverno.

Através da evolução, diferentes características evolutivas foram surgindo, mantendo-se aquelas mais adaptadas ao meio em que a população habitava. Uma destas características é a capacidade de manter a homeotermia (capacidade de manter a temperatura corporal constante), primariamente presente em aves e mamíferos. Ao passo que o primeiro grupo é capaz de regular a temperatura literalmente “tremendo de frio”, o segundo grupo, pode a priori, fazer o mesmo, mas em períodos prolongados, utilizam-se de métodos NST (non-shivering thermogenesis ou termogênese sem tremor).

            Entre os NST, está o tecido adiposo marrom, trata-se de um tecido gorduroso com intuito de gerar calor através da queima de suas calorias. Ele é um tecido muito importante, em mamíferos pequenos ou hibernantes, mas também está presente no ser humano. Por muitos anos, se acreditava que na espécie humana, ele estaria apenas presente em recém-nascidos, para que estes pudessem se adaptar às temperaturas inconstantes do meio externo, no entanto, esta visão vem se alterando, ao demonstrar sua possível presença em indivíduos já adultos.

            Além do tecido marrom, seres humanos também possuem mais dois tipos de tecido adiposo. O tipo mais abundante é o tecido branco, relacionado “à gordura corporal” e obesidade. O outro tipo de tecido adiposo foi descoberto mais recentemente, conhecido como tecido “brite” (ou bege), sendo este uma forma alternativa do tecido adiposo branco, que adquire características parecidas ao tecido marrom, durante exposição prolongada ao frio, configurando uma NST.

            Diante de um estímulo primário, no caso, o frio, o corpo ativa, por diversas formas, as propriedades geradoras de calor dos tecidos bege e marrom (estudos indicam até mesmo possível melhora em casos de diabetes tipo 2 e obesidade), ocasionando queima de gordura corpórea e geração de calor.

            O primeiro caminho é através da norepinefrina (ou noradrenalina). Conhecida primariamente como uma molécula importante em funções musculares do corpo, este transmissor é capaz de ocasionar a liberação de ácidos graxos (grandes moléculas de gordura) e ativar os mecanismos de geração de calor no tecido adiposo. A via preferencial é pautada no tecido marrom, no entanto, a deficiência deste em indivíduos adultos pode causar conversão de tecidos brancos para beges e, então, realizar os efeitos de termogenia.

 Outro mecanismo importante é a chamada termogênese induzida por dieta (DIT). Ela ocorre pela liberação de hormônios intestinais capazes de acionar os mecanismos dos tecidos adiposos. Acredita-se que tal evento ocorra para que o aumento da temperatura diminua os estímulos de fome enviados pelo cérebro, para indicar saciedade. Outra forma de DIT é decorrente da microbiota intestinal (conjunto de microorganismos que habitam o intestino humano sem causar males, ao contrário são necessários). A microbiota pode acionar o aumento de temperatura corporal pela liberação da molécula butirato durante o frio, sendo este efeito passível de ser intensificado por meio da dieta.

O frio também pode causar a transformação do tecido branco em bege diretamente através de neurônios que “percebem” a temperatura baixa temperatura. Isso ocorre pela capacidade desta célula modular a expressão de certos receptores (chamados receptores transitórios de potencial vanilóide), que coordenam a conversão branco//bege. O efeito sobre estes receptores também pode ocorrer através da dieta, com a ingestão de alimentos ricos em capsaicina (como pimentas) ou óleos de peixe.

Durante a exposição à baixas temperaturas, muitos outros fatores ajudam a regular a expressão dos tecidos adiposos, configurando um equilíbrio entre os diferentes tipos. Além dos previamente discutidos, podemos citar os hormônios tireóides e paratireóides, peptídeos natriuréticos, proteínas morfogenéticas ósseas, fatores de crescimento vascular endotelial e até mesmo o sistema imune. A questão abordada visa o entendimento da capacidade corporal de manter a homeotermia e uma possível relação com perda de peso ao queimar gorduras corporais.

Fonte: Li et. al. 2019. Publicado na revista Elsevier.
Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0098299719300767

Enviado por: Augusto Y. Ueno, acadêmico de medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5505100996396257

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