Entenda o que é o distúrbio bipolar

Qualquer pessoa pode sofrer alterações psicológicas quando passa por situações estressantes ou desagradáveis do dia a dia; no entanto, as mudanças severas e persistentes de humor, que resultam em estresse psicológico e comprometimento do desempenho individual, podem ser sintomas de um transtorno afetivo. O distúrbio bipolar vem sendo tradicionalmente classificado como um desses transtornos afetivos, ou transtornos de humor, que é o conjunto dos transtornos psiquiátricos que afetam o estado basal do ânimo das pessoas, levando a uma alteração no humor ou no afeto do indivíduo. Pode ser classificado, também, dentro do espectro das psicoses. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, quinta edição (DSM-5) incluiu uma categoria “Transtorno Bipolar e Transtornos Relacionados”, que engloba o transtorno bipolar tipo I, transtorno bipolar tipo II, transtorno ciclotímico e transtornos relacionados. Esse livro foi elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria e é uma referência mundial na área. Para a Classificação Internacional de Doenças, décima edição (CID-10), o distúrbio bipolar é classificado como parte dos distúrbios de humor.

A principal característica do distúrbio bipolar, e que o separa de outros distúrbios afetivos, é a presença de episódios recorrentes de mania ou hipomania alternados com episódios depressivos. Episódios de mania são caracterizados por humor persistentemente elevado, expansivo ou irritável, com aumento anormal e recorrente da energia e duração mínima de uma semana. Quando está passando por essas crises, normalmente a pessoa sente excesso de confiança, grandiosidade, desinibição extrema, diminuição da necessidade de sono, humor altamente elevado, necessidade de continuar falando, se envolve em atividade com potencial para consequências negativas (gastar muito dinheiro, indiscrições sexuais), entre outros. Sintomas psicóticos como delírios e alucinações ocorrem em até 75% dos episódios maníacos e, esses episódios, independentemente da severidade, podem comprometer a funcionalidade psicossocial do indivíduo ao ponto de que seja necessária a hospitalização. Episódios de hipomania são semelhantes à mania, mas com menor intensidade e menor duração, sendo classificados com duração mínima de quatro dias consecutivos, não são graves a ponto de necessitar hospitalização, não incluem sintomas psicóticos (delírios e alucinações). Os episódios de hipomania envolvem epsodios depressivos, que incluem humor deprimido e/ou acentuada diminuição de interesse ou prazer nas atividades diárias por, pelo menos, duas semanas, com alteração de peso, alterações no sono, fadiga, sentimento de culpa, indecisão, concentração diminuída, pensamento recorrente de morte.

O distúrbio bipolar do tipo I se caracteriza pela presença de episódios de mania, enquanto o distúrbio bipolar do tipo II se caracteriza principalmente por episódios depressivos, mas alternando com episódios de hipomania, podendo ser classificado como bipolar tipo II mesmo com apenas um episódio hipomaníaco. Outra classificação é a do transtorno ciclotímico, onde a pessoa tem estados recorrentes depressivos e hipomaníacos, por pelo menos 2 anos, mas sem chegar ao limiar do diagnóstico de um episódio efetivo depressivo ou hipomaníaco. O início do distúrbio, normalmente acontece por volta dos 20 anos de idade. Um início mais jovem normalmente está associado a um pior prognóstico, dificuldades no tratamento, episódios depressivos mais severos e maior prevalência de ansiedade associada. O primeiro episódio a se apresentar é o depressivo e para a maioria das pessoas, independe de qual distúrbio bipolar ela tenha, os episódios depressivos têm duração muito maior do que nos maníacos ao longo da doença. Por esse motivo, também, que pacientes bipolares são muitas vezes diagnosticados como tendo transtorno depressivo maior.

Distúrbio bipolar atinge mais de 1% da população mundial e é a 17ª causa de incapacitação dentre todas as doenças no mundo e cerca de 6 a 7% das pessoas com distúrbio bipolar cometem suicídio. L. Plan e colaboradores dizem em seu estudo que existem evidências de que a taxa de suicídio em pessoas com distúrbio bipolar chega ser 20 a 30 vezes maior do que na população em geral e A. Scaffer e colaboradores em outro estudo disseram que aproximadamente um terço à metade dos pacientes bipolares vão tentar se suicidar pelo menos uma vez e aproximadamente 15 a 20% dessas tentativas serão letais. Pacientes bipolares também têm altas taxas de presença de outras condições psiquiátricas como ansiedade (aproximadamente 71%), uso de substância (56% – álcool, cigarro, drogas ilícitas), transtorno de personalidade (36%), transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (10-20%), além de outras condições médicas crônicas como síndromes metabólicas (37% dos paciente bipolares), enxaqueca (35%), obesidade (21%) e diabetes tipo II (14%). O Distúrbio Bipolar tipo I tem prevalência similar em ambos os sexos, mas o tipo II é mais comum em mulheres

Vários fatores vão influenciar na escolha do tratamento, incluindo a preferência do paciente, presença de outras condições médicas, psiquiátricas ou não, e da resposta do paciente a outros tratamentos prévios, incluindo efeitos colaterais a medicamentos. Devido a natureza crônica e recorrente do distúrbio bipolar, o tratamento de manutenção se torna importante, visando impedir o surgimento de episódios muito sérios e com sintomas muito acentuados. Esse tratamento normalmente envolve intervenções farmacológicas, psicológicas e de estilo de vida como a inserção de atividade física, e, idealmente, deve ser iniciado logo que a o distúrbio for diagnosticado. Esses tratamentos em conjunto diminuem o risco de recidivas, aumentam a chance de aderência ao tratamento a longo prazo e reduzem o número e a duração de hospitalizações, se necessárias. O tratamento farmacológico é feito com estabilizadores de humor, antipsicóticos e antidepressivos, enquanto o tratamento não farmacológico normalmente é feito por meio de psicoeducação, terapia cognitivo-comportamental e terapia familiar.

Andre F. Carvalho e colaboradores 2020. Artigo publicado na New England Journal of Medicine
Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMra1906193

Eduard Vieta e colaboradores 2018. Artigo publicado na Nature Reviews – Nature Reseach Journal
Disponível em: https://www.nature.com/articles/nrdp20188#Abs1

Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, quinta edição – Associacão Americana de Psiquiatria, 2013

Enviado por: Beatriz Sadigursky Nunes Cunha – Acadêmica de Medicina e Aluna de Iniciação Científica Laboratório Biogenômica – UFSM – Bolsista
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1422099879910898

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