Guaraná: Muito além de um refrigerante

A biodiversidade existente na Amazônia constitui um potencial de extrema relevância, tanto para as comunidades locais quanto para o país. Dentre essa vasta biodiversidade, podemos citar o guaraná. De nome científico Paullinia cupana, é um fruto obtido do guaranazeiro, uma planta nativa da Amazônia.

Por um longo tempo o guaraná foi utilizado somente na medicina tradicional como estimulante, principalmente pela população indígena da Amazônia. Hoje, a sua utilização é difundida mundialmente, sendo um dos compostos mais promissores da flora brasileira devido as suas inúmeras propriedades terapêuticas. Além de representar uma economia sustentável, sendo parte fundamental na agricultura, principalmente para a comunidade indígena de Maués e de outros ribeirinhos espalhados pelas margens do rio Amazonas e afluentes.

Na indústria farmacêutica, o guaraná é um composto bastante utilizado estando disponível no mercado em diversas formas, como em chás preparados de plantas frescas ou secas, elixires, gotas, comprimidos e cápsulas. Ainda é utilizado em vários produtos cosméticos, como produtos para o tratamento da lipodistrofia ginoide (celulite), em cremes rejuvenescedores, produtos para pele e cabelo, como loções de limpeza, hidratantes, sabonetes, xampus e condicionadores.

Na literatura, inúmeros estudos comprovam o papel-chave do guaraná na prevenção e tratamento de doenças. Neste sentido, o grupo de pesquisa de Biogênomica da Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, coordenado pela professora Dra. Ivana Beatrice Mânica da Cruz, em colaboração com o grupo de pesquisa da Universidade Aberta da Terceira Idade e Universidade do Estado do Amazonas, Manaus, AM, coordenado pelo professor Dr. Euler Esteves Ribeiro, começaram a investigar as propriedades terapêuticas do guaraná.

Dentre os diversos estudos já realizados pelos pesquisadores brasileiros, pode-se destacar o de Costa Krewer e colaboradores, 2011. Através de uma pesquisa com idosos ribeirinhos da Amazônia, que habitualmente ingeriam guaraná (> 3 vezes por semana), foi evidenciada uma menor prevalência de obesidade e de outros indicadores de síndrome metabólica em comparação com os idosos que não ingeriram guaraná.

Da mesma forma, Bittencourt e colaboradores, 2013, verificaram que o guaraná demonstrou efeito antioxidante modulando os níveis de óxido nítrico em fibroblastos expostos ao nitroprussiato sódico. No mesmo ano, Portella e colaboradores, verificaram que o guaraná auxilia na diminuição dos níveis de oxidação do colesterol ruim (LDL).

 Costa Kreber e colaboradores, 2014 e Barbisan e colaboradores, 2017, observaram que o guaraná apresenta ação anti-inflamatória.

Machado, 2015 e Arantes, 2018 e seus colaboradores, evidenciaram a potencialidade terapêutica do guaraná no combate às doenças relacionadas à idade, auxiliando no aumento da qualidade de vida.

Suleiman e colaboradores (2016) realizaram um ensaio clínico na cidade de Rosário do Sul, RS, com mulheres que realizaram a suplementação de uma dose diária de (90 mg) de guaraná. Após o tratamento, os pesquisadores observaram redução nos níveis de triglicerídeos, ácido úrico, marcadores do estresse oxidativo e aumento nos níveis da albumina total, além de apresentarem tendência na diminuição do peso.

Kober e colaboradores (2016), Arantes e colaboradores (2016) e Bonadiman e colaboradores (2017), verificaram que o guaraná apresenta efeito protetor das células hepáticas e proteção contra danos ao DNA. Da mesma forma, Velozo e Zamberlan e colaboradores (2018) que ele apresenta ação protetora ao sistema nervoso.

Werner e colaboradores (2017) verificaram efeito protetor do guaraná na viabilidade de espermatozoides humanos congelados.

Também em 2017, Cadoná e colaboradores realizaram um estudo in vitro utilizando linhagens celulares de câncer colorretal e de mama, as quais foram expostas a diferentes concentrações de guaraná (0,1, 1, 10 e 100 µg/mL). A partir deste estudo, os pesquisadores acreditam que o guaraná pode ser um agente importante nas terapias farmacológicas antitumorais.

No mesmo ano, Flores e colaboradores, demostraram que o guaraná possui efeito citotóxico contra células cancerígenas na bexiga.

Além destes trabalhos, outros grupos também evidenciaram efeitos benéficos com o uso do guaraná. Nesta linha de pesquisa, Kennedy (2004 e 2008), Sholey (2013), Veasey (2015) e Ruchel (2017) juntamente com seus colaboradores, verificaram que o guaraná melhora a memória e na função cognitiva.

Campos e colaboradores (2003) e Fukumasu e colaboradores (2006) apresenta ação protetora contra diferentes tipos de agentes tóxicos.

Bérubé-Parent (2005), Harrold (2013), Lima (2017 e 2018) e seus grupos de pesquisa, demostraram que o guaraná aumentar o metabolismo energético, auxiliar na oxidação de gorduras e diminuição do apetite.

Da mesma forma, que outros estudos citados anteriormente, Ruchel e colaboradores (2016), evidenciaram que o guaraná apresenta ação anti-inflamatória e Boasquívis e colaboradores (2018) potencialidade terapêutica no combate às doenças relacionadas à idade, auxiliando no aumento da qualidade de vida. Devido as suas propriedades biológicas e a capacidade de atuar em diferentes etapas celulares, bem como sua rica composição química, este produto, pode ser considerado um grande aliado na dieta, principalmente com ações sobre a qualidade de vida, via associação com doenças crônicas não-transmissíveis como a obesidade e as síndromes metabólicas. Porém, ressaltamos que apesar de benéfico, precisa de consumo controlado, uma vez que, é em pequenas quantidades (em torno de 90 mg diária) que ele tem efeitos promissores sobre a saúde.

Fontes: SILVA, W.G.; ROVELLINI, P.; FUSARI, P.; VENTURINI, S. Guaraná – Paullinia cupana, (H.B.K): Estudo da oxidação das formas em pó e em bastões defumados Guaraná. Revista de Ciências Agroveterinárias. (edição on-line) Lages, v.14(2), p.235-241, 2015.

SCHIMPL, F.C.; DA SILVA, J.F.; GONÇALVES, J.F.C.; MAZZAFERA, P. Guarana: Revisiting a higtly caffeinated plant from the Amazon. Journal of Ethmopharmacology, v.150, p.14-31, 2013.

COSTA KREWER, C.; RIBEIRO, E.E.; RIBEIRO, E.A.; MORESCO, R.N.; UGALDE, M.I.M.Da R.; SANTOS, G.F.M.; MACHADO, M.M.; VIEGAS, K.; BRITO, E.; CRUZ, I.B. Habitual Intake of Guaraná and Metabolic Morbidities: An Epidemiological Study of an Elderly Amazonian Population. Phytotherapy Research, v.25(9), p.1367- 1374, 2011.

Enviado por: Isabel Roggia, graduada em Farmácia pela Universidade Franciscana (UFN) e Pós-doutoranda em Gerontologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). 
Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/4020469474371818

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