Isolamento social tem impacto na qualidade do sono

Em um momento tão desafiador quanto o enfrentado atualmente, podemos observar o surgimento de novas descobertas e estabelecimento de novos conhecimentos. Nesse contexto, os efeitos benéficos do isolamento social no combate a pandemia de Covid-19 se tornaram consolidados no meio acadêmico. Porém, não podemos assumir que essa prática seja um remédio contra todos os males.

Pesquisadores da Universidade Vita-Salute San Raffaele (localizada em Milão-Itália) buscaram avaliar as alterações na qualidade de sono e bem-estar psicoemocional antes e durante a pandemia, com o intuito de determinar os possíveis impactos negativos gerados para a população que se viu sob a necessidade de adotar lockdown, o isolamento total. Essa pesquisa foi realizada através de formulários preenchidos virtualmente, sendo seus participantes estudantes e funcionários da administração da própria universidade, totalizando 400 voluntários. 

Os questionários envolvendo o sono foram versões em italiano do PSQI(Pittsburgh Sleep Quality Index), ISI(Insomnia Severity Index) e o MEQ(Insomnia Severity Index). As informações colhidas diziam respeito à quantidade de tempo passado na cama, tempo de sono, o horário em que rotineiramente os participantes vão para cama, o tempo decorrido entre deitar-se e o adormecer, a facilidade na manutenção do sono e o horário em que acordam. No que tange ao psicoemocional, foram aplicados versões em italiano do BAI(Beck Anxiety Inventory) e do BDI-II(Beck Depression Inventory-II ).

Após a coleta dos dados, constatou-se um aumento no horário de dormir, latência do sono e tempo de despertar entre antes e durante a emergência da Covid-19 e uma piora da qualidade do sono e dos sintomas de insônia. Em particular, durante o confinamento, o impacto do atraso no horário de dormir e no despertar foi mais pronunciado nos estudantes. Nos funcionários, observou-se uma prevalência na manutenção da insônia, 24% relataram apresentar tal problema antes da Covid-19, o que configura um aumento significativo se comparado aos 40% encontrados durante a crise, enquanto os trabalhadores com dificuldades no início do sono foram de apenas 15% que aumentaram para 42%. Na amostra coletada, 27,8% apresentaram sintomas depressivos, enquanto 34,3% apresentaram sintomas condizentes com ansiedade.

O estudo demonstrou que o lockdown teve um impacto mais significativo nos estudantes em detrimento dos funcionários administrativos, e maiores em mulheres do que em homens. Os resultados apontam que o maior problema encontrado pelos estudantes antes e durante a pandemia foi a iniciação do sono, sendo um problema para 55% dos participantes em questão, um acréscimo de 16% em relação ao período anterior a Covid-19

No entanto, este estudo tem várias limitações, sua natureza exploratória é uma das principais, em conjunto com seu possível viés de seleção e composição exclusivamente oriunda de questionários autorreferidos que não são aprofundados com exames clínicos e instrumentais. Futuros estudos longitudinais são necessários para avaliar os efeitos residuais do isolamento social após emergências de saúde.  Em suma, os resultados podem fornecer suporte para a implementação de algumas intervenções para o bem-estar em condição de pandemia. Havendo a necessidade de oferecer apoio psicológico nas categorias mais vulneráveis ​​(como mulheres e estudantes) e intervenções psicopedagógicas no sono e nos ritmos circadianos para manter um horário normal de sono e vigília e rotina diária durante os períodos de isolamento, amenizando assim os efeitos prejudiciais do isolamento social.

Fonte: Marelli, S., Castelnuovo, A., Somma, A. et al. Impact of COVID-19 lockdown on sleep quality in university students and administration staff. J Neurol (2020). https://doi.org/10.1007/s00415-020-10056-6
Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00415-020-10056-6

Enviado por: Wellington Claudino Ferreira, acadêmico do Curso de Medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9944318241574135

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