Modificações em medicamentos antigos e em desuso podem ajudar no combate a super bactérias.

Desde o descobrimento da penicilina (primeiro antibiótico descoberto e amplamente utilizado), a medicina mudou drasticamente. Doenças bacterianas que antes, não possuíam uma forma eficiente de tratamento, agora podiam ser rapidamente medicadas e, consequentemente, curadas. Posteriormente, outras moléculas de ação antimicrobiana foram sendo descobertas, com diferentes particularidades que conferiam ação a diferentes tipos de bactérias, e então, o uso de antibióticos atingiu escala global.

                Infelizmente, o uso desenfreado dos diferentes agentes antimicrobianos culminou em uma grande ameaça à humanidade, o surgimento de bactérias multirresistentes. Estas surgem através da seleção natural (descrita por Darwin), em que àquelas que possuírem mecanismos de proteção contra o fármaco são capazes de sobreviver e passar a características através das gerações. Embora raras, mutações com efeito positivo sobre a bactéria são facilitadas, devido à rápida forma de reprodução e a utilização desenfreada e inadequada de antibióticos, que configuram um ambiente propício à seleção dos microrganismos mais fortes. Desta forma, com o passar do tempo, estes grupos de bactérias adquirem genes que fornecem defesa à maioria dos fármacos atualmente conhecidos.

                Estima-se que o impacto destas bactérias resistentes a antibióticos seja equivalente à soma do impacto causado pela influenza, HIV e tuberculose. Sendo que, embora atualmente existam mais de vinte classes diferentes de agentes antimicrobianos (teoricamente capazes de interromper seu crescimento), bactérias ainda somam cerca de setecentas mil mortes ao ano. Em decorrência disso, novas medidas terapêuticas são constantemente pesquisadas, porém, hoje o foco tem sido desviado do descobrimento e produção de novos antibióticos para a alteração estrutural de moléculas já conhecidas para que tenha sua ação restaurada. Este é o caso da vancomicina, um fármaco que no passado era conhecido como o “último recurso” e, no momento, cai em desuso devido à multirresistência bacteriana.

                A molécula de vancomicina, hoje, não tem eficiência sobre cerca de 22% das bactérias que eram, antigamente, suscetíveis a ela. Ela age ligando-se a proteínas recém formadas pela bactéria e que iriam compor a parede celular da mesma. Desta forma bactérias gram positivas (possuem parede celular forte e espessa) recém formadas, tornam-se frágeis a alterações no meio. A resistências das cepas resistentes se deve à mudança na região carboxi-terminal (região final do peptídeo, com presença de um grupamento carboxila, COO-) da proteína, que impede a ligação da vancomicina. É importante lembrar que este medicamento não possui efeito sobre bactérias gram negativas (possuem uma estrutura distinta, com duas membranas plasmáticas e pequena parede celular).

                Uma vez que o medicamento perde sua eficiência, o mais óbvio seria a busca por uma nova molécula, capaz de servir como um novo “último recurso” para substituir a vancomicina. Contudo, uma vez que este trabalho é árduo, demorado e o número de moléculas totalmente novas, finito, o que se tem buscado é a mudança da fórmula atual do fármaco.  Uma estratégia que tem se mostrado eficaz é fornecer à vancomicina a capacidade de interagir com a parede celular bacteriana, pela adição de grupamentos químicos específicos (como amônias quaternárias ou sulfônico) combinados a elementos lipofílicos (que se atraem por lipídeos, gorduras).

                Cabe ressaltar também a pesquisa extensiva de outras terapias alternativas ao uso dos antibióticos, como o uso de bacteriófagos (vírus que parasitam bactérias sem ação patogênica no homem), nanopartículas metálicas e poliméricas (pequenas partículas, que podem possuir diferentes ações, como liberação de fármacos ou atuação direta sobre a célula) , anticorpos monoclonais (anticorpos muito eficientes produzidos por uma célula única, clonada e imortalizada) e peptídeos antimicrobianos (pequenas estruturas proteicas capazes de agir sobre células bacterianas). Entretanto, embora existam indícios de potencial promissor, ainda não existem estratégias que tenham encontrado uma possível ampla aplicação clínica.

Fonte: Mühlberg et al. 2020. Publicado na revista Canadian Journal of Microbiology.
Disponível em: https://nrc-prod.literatumonline.com/doi/10.1139/cjm-2019-0309?url_ver=Z39.88-2003&rfr_id=ori%3Arid%3Acrossref.org&rfr_dat=cr_pub++0www.ncbi.nlm.nih.gov&#.XxXquihKjIV

Enviado por: Augusto Y. Ueno, acadêmico de medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5505100996396257

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