Qual a diferença? Como são feitos? Quando devem ser feitos? Entenda os diferentes testes para Covid-19

Frente ao contexto da pandemia de coronavírus (SARS-CoV-2) muito se fala sobre os testes laboratoriais que estão sendo feitos para confirmar ou descartar a hipótese de contaminação, diante disso é importante compreender como os testes identificam e como os mesmos funcionam. Ainda na fase inicial das infecções por coronavírus, o primeiro passo a se fazer em relação ao agente infeccioso era identificá-lo e conhecer sua genética era um passo fundamental.  Com a utilização da tecnologia de sequenciamento genético, pode-se conhecer o vírus. E o Brasil  foi o país que fez este sequenciamento em menos tempo,  pesquisadores de Universidades públicas conseguiram fazer tal sequenciamento em 48 horas, enquanto em outros países o tempo foi em média de 15 dias, após se ter o sequenciamento do vírus e algumas informações básicas sobre ele, foi então possível o desenvolvimento de exames de detecção para o mesmo. Até o presente momento utiliza-se o teste de RT-PCR (Reação em Cadeia da Polimerase via Transcriptase Reversa) ou comumente chamado PCR, e os chamados testes rápidos ou sorológicos (pesquisa de anticorpos ou antígenos).

Vamos desvendar estes testes…

O primeiro teste desenvolvido foi a RT-PCR que é o teste que envolve o sequenciamento genético do vírus. A PCR é um teste utilizado para análises genéticas, desenvolvido em 1983, atualmente muito utilizado também para investigações de câncer e avaliação a carga viral, ou seja, quanto da cópia de um vírus a pessoa tem no organismo. Serve então para acompanhamento de pacientes com HIV e Herpes, por exemplo. No caso de um paciente com HIV que está tomando o coquetel, se faz o teste comparando os resultados do paciente com resultados de amostras com carga viral conhecida, ou seja, o pesquisador colocou em outros tubos quantidade de vírus como 1000 cópias, 100 mil, 1 milhão, e comparando os gráficos gerados pelo aparelho, se tem uma ideia da carga viral do paciente, se está baixa o tratamento está adequado, se começar a subir a quantidade de vírus significa que algo está errado, pois o vírus está se “reproduzindo”.  A mesma lógica pode se usar para o coronavírus, pós detecção para o acompanhamento dos pacientes. 

Mas como é feita essa tal PCR? O teste da PCR é feito com DNA (um tipo de material genético) , e o vírus só tem RNA (outro tipo de material genético, como se fosse um primo do DNA), assim através de uma enzima específica em laboratório converte-se a informação genética do vírus RNA em DNA, assim, a PCR é capaz de “ler” a informação genética do vírus (é como se tivéssemos que traduzir um texto do inglês para o português, neste caso se traduz a informação do RNA para DNA). Depois desta transformação, é colocada na amostra de DNA do vírus, o que se chama de primer. Estes primers são capazes de se ligar ao DNA num local específico da sequência genética, o primer é uma sequência de “letrinhas” específica que só vai se ligar onde houver aquele código de identidade para o coronavírus, que depois é “copiado” milhões de vezes, e assim é possível detectar o vírus. Se a pessoa tiver o vírus, vão aparecer essas cópias e o resultado será positivo, porque teve de onde copiar. Se a pessoa não tiver o coronavírus não tem como ter essas cópias, porque não tinha de onde copiar inicialmente, então, o teste é negativo.   Por ser altamente especifica, raramente a PCR da resultado falso-negativo, isso só ocorre quando se tem baixíssima carga viral (geralmente no início da infecção). Assim o procedimento básico da PCR é:

  1. Coletar o Sangue/saliva/urina do paciente (amostra biológica desejada);
  2. Converter o RNA do vírus em DNA;
  3. Colocar os primers com a informação genética do coronavírus para se ligar a informação do DNA do coronavírus se estiver na amostra do paciente;
  4. Observar se nos gráficos gerados pelo equipamento há sinal do vírus, se houver teste positivo para coronavírus. Se não houver, negativo.

A maior confiabilidade e sensibilidade da PCR têm seu preço, e ele é alto economicamente falando, além de apresentar um maior custo dos materiais, há necessidade de maior infraestrutura para sua realização, profissionais qualificados e devidamente treinados, além de necessitar de um significativo intervalo de tempo entre a coleta e a disponibilização dos resultados (no mínimo 6 horas).

Diante da necessidade de mais testes em menor intervalo de tempo e a um custo menor, surgiram os denominados “testes rápidos”, que permitem uma tomada de decisão mais rápida e ágil por parte dos clínicos, no entanto, estes testes são sorológicos, ou seja, refletem a resposta imune do organismo, através da detecção de anticorpos (são moléculas produzidas pelo organismo como resposta de defesa a uma substância estranha. Ex: a pessoa que já teve Sarampo, tem o anticorpo, quem não teve não tem como ter), os quais também são chamados de imunoglobulinas (Ig). Em respostas virais (caso do SARS-CoV-2 e dos testes sorológicos) as Ig mais importantes são IgM e IgG, a IgM é a primeira imunoglobulina a ser produzida, ela está presente no sangue do paciente em maior quantidade na primeira infecção e/ou na fase aguda da doença, já a IgG é produzida mais tardiamente, enquanto os níveis de produção de IgM caem os de IgG sobem, IgG também é considerada um anticorpo de memória, ou seja, no caso de uma reinfecção sua produção aumenta. O que nos dá proteção, no caso de vacinas como a do Sarampo, é a produção de IgG que a vacina induz, então em caso de ataque do vírus do Sarampo, o organismo sabe com que armas deve se defender, porque no primeiro contato ele se sensibilizou, ou seja, aprendeu.  É importante lembrar que, a resposta imune varia de indivíduo para indivíduo e no geral os anticorpos levam um certo intervalo de tempo para serem produzidos frente a um agente infeccioso, esse intervalo de tempo é denominado janela imunológica, no caso do coronavírus estudos apontam em média 7 dias após os primeiros sintomas.

Dessa forma, por exemplo, quando o organismo entra em contato com um agente infeccioso, no caso SARS-CoV-2, ocorre uma resposta de defesa que leva a produção de anticorpos (imunoglobulinas-Ig), inicialmente se produz IgM (defesa “imediata”, recruta outras células para a eliminação do agente) e após IgG (defesa de “memória”, no caso de um novo contato), no entanto essa produção de anticorpos leva cerca de mais ou menos 7 dias após o paciente demonstrar os sintomas. Nesse meio tempo, é realizado um teste rápido (bem no início dos sintomas) e o resultado dá negativo, ou seja, uma falso-negativo para coronavírus, isso ocorreu porque nesse momento ainda não se tem a resposta imune do organismo mas se tem o agente infeccioso, no entanto esse não é detectado pelo teste. Muitas vezes devido a testagem no momento errado, os testes rápidos acabam dando tantos falsos-negativos, porque são realizados no período errado, nesse contexto, estudos têm demonstrado que esses testes têm boa sensibilidade e especificidade nas fases mais tardias da infecção, entre o 10º ao 14º dia após o paciente ter os primeiros sintomas.

O teste considerado padrão para o diagnóstico de Covid-19 é a RT-PCR, no entanto, dadas as limitações financeiras e de materiais os testes rápidos são bons aliados se realizados no tempo certo, que de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) é de pelo menos 8 dias após os sintomas e alguns estudos apontam sensibilidade melhor do teste a partir do 10º dia, além disso é importante interpretar corretamente os resultados, conciliar dados laboratoriais, clínicos (sintomas) e a epidemiologia. Basicamente, de acordo com a ANVISA, os testes rápidos não têm muito valor diagnóstico e sim servem mais para indicar se o paciente teve ou não contato com o vírus, diante disso a testagem em massa os utilizando, poderá ser útil em estudos para avaliar a extensão da contaminação, evolução da doença e respostas imunes de diferentes populações frente ao coronavírus. Resumidamente a tabela abaixo demonstra o significado clínico dos resultados para PCR e testes rápidos:

Qual a diferença? Como são feitos? Quando devem ser feitos? Entenda os diferentes testes para Covid-19 2

Assim, pode-se afirmar que se tem então, o teste de RT-PCR e os testes rápidos que são os sorológicos, os quais podem pesquisar anticorpos (IgM e IgG) que são mais comumente usados e por fim, testes rápido que pesquisam o Antígeno, ou seja, pesquisam o coronavírus em amostras de pacientes, são testes semelhantes ao RT-PCR porém adaptados para serem feitos de forma sorológica e rápida, no entanto têm baixa sensibilidade e são pouco utilizados atualmente.

Além disso, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, com base no artigo de Chen e colaboradores (2010) e Hsueh e colaboradores (2020), montaram a imagem (modificada e adaptada pelo portal), que mostra um panorama geral tanto do RT-PCR quanto dos testes rápidos comentados acima.

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Fontes: Pachito D. V. e colaboradores. Publicado em Oxford Brazil EBM Allience, em 26 de março de 2020.
Disponível em: https://oxfordbrazilebm.com/index.php/2020/05/08/testes-diagnosticos-covid-19/

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).
Disponível em:   http://portal.anvisa.gov.br/

Enviado por: Danieli Monteiro Pillar, Aluna do curso de Farmácia-UFSM, Aluna de Iniciação Científica no Laboratório de Biogenômica e Bolsista FAPERGS.
Currículo Lattes:  http://lattes.cnpq.br/2981912754714259

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2 comentários em “Qual a diferença? Como são feitos? Quando devem ser feitos? Entenda os diferentes testes para Covid-19

  • julho 4, 2020 em 12:57 am
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    Olá. Gostei muito do artigo e, gostaria de saber se posso repostar no meu blog (com os devidos créditos a fonte original). Desde já, agradeço!

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    • julho 6, 2020 em 12:20 pm
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      Olá Ada Queiroz! Com certeza podes replicar estas informações!
      Grande abraço

      Resposta

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