Transplante de fezes para reconstituir a microbiota intestinal: como funciona esse tratamento em pacientes sob uso de antibióticos?

Em pacientes submetidos ao transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas (allo-TCTH) – isto é, um transplante que usa células de um doador, as quais são obtidas através do sangue do cordão umbilical e da porção sanguínea da medula óssea -, os antibióticos figuram como um componente vital e necessário do tratamento. Isso se deve ao fato de que esses pacientes, ao se submeterem ao transplante que tem como finalidade tratar cânceres hematológicos e outras doenças relacionadas ao sangue, ficam suscetíveis a muitas infecções ao longo de todo o processo. Apesar de serem necessários para prevenção e tratamento, os antibióticos usados durante o alo-TCTH também danificam a microbiota intestinal, pois matam tanto bactérias comensais (aquelas que habitam nosso organismo causando benefício mútuo), quanto bactérias que inibem patógenos e promovem defesas imunológicas. Embora a perda da diversidade da microbiota intestinal durante o alo-TCTH esteja associada ao aumento da mortalidade, ainda não foram desenvolvidas abordagens para restabelecer as bactérias benéficas ao nosso organismo que, nessa situação, ficaram empobrecidas. Assim, no sentido de remediar os danos à microbiota intestinal causados pelo tratamento com antibióticos nesses pacientes, Taur e colegas conduziram um ensaio clínico randomizado, ou seja, aquele em que os participantes são colocados aleatoriamente em um dos grupos, com a finalidade de demonstrar a eficácia da coleta e congelamento de fezes antes do alo-TCTH, seguido por descongelamento fecal e transplante autólogo de microbiota fecal (auto-FMT, em que o termo autólogo remete ao uso das fezes do próprio indivíduo) após o enxerto de células-tronco. O estudo analisou perfis de microbiotas intestinais de 25 pacientes com alo-TCTH, os quais foram alocados aleatoriamente nos seguintes grupos: 14 no grupo de tratamento (receberam o transplante das fezes) e 11 no grupo controle (não receberam o transplante das fezes). Entre os achados no grupo controle, destaca-se que a diversidade da microbiota intestinal caiu acentuadamente à medida que os pacientes progrediram através do tratamento com os antibióticos e que, raramente, as amostras fecais coletadas até o dia +100 após o início do alo-TCTH mostravam recuperação da diversidade encontrada na amostra colhida pré-alo-TCTH. Já os pacientes que receberam o auto-FMT (administrado retalmente 49 dias após a infusão das células) tiveram sua microbiota intestinal restaurada àquela anterior ao transplante em termos de diversidade e de porcentagem de similaridade com a microbiota fecal inicial. Além da recuperação da microbiota, o grupo que recebeu o auto-FMT também teve correção nas perdas de bactérias benéficas existentes na microbiota intestinal. Observou-se uma restauração bem-sucedida de bactérias de alguns grupos que, em estudos anteriores, se correlacionaram com o benefício do hospedeiro e que são membros importantes de uma microbiota intestinal saudável. Ademais, a análise do estudo revelou que, nos pacientes sob tratamento com transplante de células-tronco hematopoiéticas, várias famílias de genes microbianos estavam escassas, o que sugeriu alterações prejudiciais ao microbioma de pacientes controle, enquanto que, nos pacientes tratados, essa perda foi resolvida.  Dessa forma, o auto-FMT pareceu ter corrigido alterações no conteúdo funcional do microbioma intestinal no cenário do tratamento com alo-TCTH. Apesar da existência de algumas limitações no estudo, tal como o fato de ter sido feito em uma só instituição, o que limita a extrapolação dos resultados para pacientes sob tratamento de alo-TCTH em condições diferentes em outras instituições, os resultados ainda assim parecem ser promissores. Por enquanto, podemos concluir que o procedimento de auto-FMT foi bem tolerado e restabeleceu efetivamente populações bacterianas comensais no estágio crítico de reconstituição imune precoce após o alo-TCTH. Ainda, foi demonstrado o potencial do auto-FMT como uma intervenção clínica para restaurar a diversidade da microbiota intestinal a níveis considerados seguros em pacientes, revertendo assim os efeitos perturbadores do tratamento com antibióticos de amplo espectro em pacientes submetidos a transplante de alo-TCTH. Dessa forma, esses resultados confirmam o grande potencial do banco de amostras fecais no papel de reconstituir a microbiota intestinal afetada após tratamentos com antibióticos, como é o caso do transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas.

Fonte: Taur e colaboradores. Publicado na revista Science, 2018.
Disponível em: https://stm.sciencemag.org/content/scitransmed/10/460/eaap9489.full.pdf

Enviado por: Tanize Louize Milbradt, acadêmica do Curso de Medicina e aluna de iniciação científica Laboratório Biogenômica-UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9501880936037755

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