Covid-19 põe em risco a segurança alimentar global

A doença do coronavírus de 2019, chamada de COVID-19, ainda segue intrigando cientistas e profissionais da saúde de todo o mundo, mesmo após meses do início dos primeiros casos. Inúmeros estudos vêm sendo desenvolvidos para tentar entender melhor a doença e várias vacinas candidatas vêm sendo testadas e oferecem esperança para interromper a infecção pelo vírus causador da doença, denominado de SARS-CoV-2. Contudo, a pandemia ainda avança a níveis preocupantes e, além das perdas de vidas humanas, graves crises em diversos setores da economia têm se instalado globalmente.

Os setores relacionados com a produção e comercialização de alimentos também vêm sentindo os efeitos causados pelo avanço da pandemia de Covid-19. Há grande preocupação para, além de conter a transmissão do vírus, impedir uma crise à segurança alimentar, que poderia afetar especialmente os países mais pobres e necessitados. Apesar da ocorrência de escassez de alimentos em maior escala ainda não ter sido identificada, mercados de alimentos e setores agrícolas estão sofrendo interrupções devido a carência de mão de obra em função de restrições ao movimento de pessoas e mudanças na demanda de alimentos pelo fechamento de escolas e restaurantes e perdas na arrecadação dos países. Algumas restrições impostas por alguns países à exportação de produtos interromperam o comércio de alguns gêneros alimentícios básicos, como arroz e trigo. Nesse sentido, a pandemia vem afetando todos os pilares da segurança alimentar, incluindo o acesso (as pessoas conseguem obter o alimento de que precisam?), a disponibilidade (o fornecimento de alimentos é adequado?), a utilização (as pessoas ingerem a quantidade necessária de nutrientes?), e estabilidade (as pessoas têm acesso aos alimentos em qualquer período?). Questões como estas colocadas anteriormente são preocupantes e esforços globais precisam ser postos em prática para minimizar os possíveis problemas decorrentes da falta de segurança alimentar.

A pandemia parece impactar em maior escala o acesso aos alimentos, apesar de os impactos também estarem sendo percebidos através da interrupção da disponibilidade da oferta de alimentos, das mudanças do perfil dos consumidores por alimentos mais baratos e menos saudáveis, afetando os preços dos alimentos. Em relação ao acesso aos alimentos, a pandemia de Covid-19 é ameaçadora especialmente devido a redução das rendas e salários que prejudicam a compra de alimentos. Estima-se que cerca de 70% da renda das famílias mais pobres é utilizada para a compra de alimentos, assim qualquer queda na renda é prejudicial ao sustento mínimo.  

Crises na segurança alimentar geralmente levam à uma diminuição da produção de alimentos, mas os impactos na produção agrícola podem ser sentidos de maneiras diferentes em cada país ou região. Em países desenvolvidos, nos quais a produção de alimentos como soja, trigo e milho geralmente é altamente mecanizada, há um distanciamento mais inerente dos trabalhadores durante o preparo da terra, plantio e colheita. Outras atividades, como o cultivo de frutas e hortaliças, geralmente necessitam de maior mão de obra humana e com a adoção de práticas de distanciamento é uma complicação na produção. Entretanto, em países mais pobres, a produção agrícola geralmente é realizada com maior emprego de mão de obra, inclusive para o plantio e colheita. Apesar de os agricultores em países mais pobres serem geralmente mais jovens, os sistemas de saúde na maioria das vezes são mais precários e a ocorrência de outras doenças pré-existentes pode aumentar a vulnerabilidade da população à Covid-19.

A escassez de alimentos e a baixa renda podem afetar também as escolhas de quais alimentos serão adquiridos para o consumo. A diminuição da renda das famílias pode sugerir um cenário em que alimentos mais nutritivos, como frutas e hortaliças, sejam substituídos por alimentos com poder nutricional menor. Essa redução da diversidade de alimentos e do estado nutricional também pode contribuir para o risco de efeitos adversos à saúde. Além disso, a Covid-19 tem demonstrado a importância da detecção precoce de novas doenças infecciosas, 70% das quais têm origem em animais. Dessa forma, melhorar os sistemas de vigilância e controle paras possíveis doenças oriundas de animais usados para alimentação humana é de grande relevância para evitar futuras catástrofes.

É essencial que as atividades relacionadas com a produção, processamento e distribuição de alimentos tenham normas mais flexibilizadas e dinâmicas para que os alimentos possam seguir um fluxo adequado da produção até os consumidores finais. Além disso, protocolos que possam dar maior suporte e segurança e que prezem pela saúde dos trabalhadores envolvidos tanto na produção, transporte e comercialização dos produtos alimentícios são de grande relevância. Ainda, governos precisam se engajar na flexibilização da produção e comercialização dos produtos alimentícios em caráter local e global evitando, assim, maiores crises no contexto da pandemia.

Fontes: (1) David Laborde e colaboradores (2020), “COVID-19 risks to global food security”. Artigo publicado na revista Science.
Disponível em: https://science.sciencemag.org/content/369/6503/500.

(2) INTERNATIONAL MONETARY FUND (IMF) (2020). World Economic Outlook Update: A Crisis Like No Other, An Uncertain Recovery (IMF, June 2020).
Disponível em: https://www.imf.org/en/Publications/WEO/Issues/2020/06/24/WEOUpdateJune2020

Enviado por: Charles Elias Assmann, graduado em Ciências Biológicas e aluno de Doutorado em Bioquímica Toxicológica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). 
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5754493402648045.

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