Os riscos “invisíveis” das mudanças climáticas à saúde humana

As mudanças climáticas constituem uma série de desafios à humanidade e representam uma inquietante implicação: a ameaça à saúde e ao bem-estar das pessoas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cinco milhões de mortes adicionais são previstas entre 2030 e 2050 por conta de alterações no clima, sendo que as desigualdades e vulnerabilidades sociais amplificam os riscos à saúde decorrentes disso.

Um estudo publicado na revista “Social Science & Medicine”, realizado por Parry e colaboradores, por meio da análise de outras pesquisas anteriores, mostra que por trás dos impactos das alterações no clima na saúde humana, há uma série de “invisibilidades” que faz com que a temática não seja reconhecida ou vista como importante.

Os autores discutiram as ligações entre clima e saúde e os riscos da mudança climática para as populações mais vulneráveis, considerando aspectos como as desigualdades geográficas e socioeconômicas.

Exemplo disso é a marginalização de populações, isto é, colocar determinados grupos na “beira” da sociedade, tanto no sentido de habitação, como também na impossibilidade de ocupar o centro de decisões políticas e ações governamentais. Isso é evidenciado quando alguns grupos habitam locais expostos a eventos climáticos extremos, como morros ou áreas longe do centro de uma cidade, e estão sujeitos a inundações, deslizamentos de terra, falta de saneamento, água potável e eletricidade e carecem de redes necessárias para proteger a saúde.

Assim, em tempos de mudança climática, colocar pessoas à margem da sociedade não só produz doenças, mas torna os riscos à saúde “invisíveis”. Em regiões tropicais, como no Norte e no Nordeste do Brasil, pessoas que são marginalizadas têm dependência nutricional oriunda de agriculturas que requerem trabalho ao ar livre e exposição ao calor extremo, que é altamente danoso à saúde.

Pobreza, acesso limitado à saúde e habitação podem também influenciar a reprodução de vetores de doenças e desencadear surtos, como no caso da dengue, e comprometem a prevenção, diagnóstico e tratamento. Além disso, inundações por conta do aquecimento global podem gerar distúrbios mentais, infecções respiratórias e leptospirose.

Outro ponto de atenção decorrente das mudanças climáticas, segundo o estudo, são as doenças negligenciadas. A diarreia, por exemplo, pelo fato de estar fortemente associada à falta de saneamento básico, faz com que ela seja sensível ao clima e predispõe as populações a riscos fatais. Em comunidades ribeirinhas da Amazônia, onde praticamente não existe saneamento básico, a exposição a enchentes aumentou ainda mais os riscos de doenças diarreicas.

As evidências sugerem que os choques climáticos também aumentam a prevalência de transtornos mentais. O estudo aborda uma pesquisa norte-americana que descobriu que a exposição a temperaturas mais altas, chuvas e ciclones afetam a saúde mental negativamente. Além disso, climas extremos podem acarretas desastres, como tsunamis, que tem potencial de ocasionar traumas e aumentar as taxas de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. Também, é evidenciado um trabalho realizado na Austrália que mostrou que a exposição à seca aumentou o risco de suicídio entre os homens rurais. Por fim, percebe-se que é preciso quantificar os impactos das mudanças climáticas nas populações e criar estratégias para reduzir esses efeitos, promovendo a responsabilidade social e o empoderamento desses grupos para garantir não só saúde, mas também cidadania.

Fontes: Parry e colaboradores, 2019. Publicado na revista Social Science & Medicine.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31481245/

Organização Mundial da Saúde, 2014.
Disponível em: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/134014/9789241507691_eng.pdf

Enviado por: Gabriel da Silva Puhl, acadêmico do Curso de Enfermagem-UFSM, bolsista de iniciação científica PIBIC/CNPq.
Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/8909396531134153

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