Tratamento da Covid-19: Velhos medicamentos avançam

A emergência da Covid-19 expos ao mundo que, ao contrário do que poderíamos pensar, não temos tecnologias farmacológicas e não farmacológicas que sejam universais, e que livrem a espécie humana do contágio e infecção por novos patógenos. Muitos podem ficar incrédulos com esta situação, talvez porque, com o aumento de idosos na população tenhamos relegado nossa atenção aos microorganismos acreditando que poderíamos facilmente controlá-los. Infelizmente esta não é a realidade e precisamos aprender lições desta Pandemia. Uma das principais lições é tomada de consciência pelas pessoas que são leigas na área das pesquisas biomédicas de que, o desenvolvimento de um fármaco ou de uma vacina leva bastante tempo e envolve muitas etapas. Nestas etapas precisamos garantir que uma molécula que tenha potencial ação antiviral seja efetiva e segura para a extensa maioria dos pacientes! Assim é pela responsabilidade ética e social que cientistas não abrem mão de identificar e avaliar que tipo de tratamento ou tratamentos seriam os mais efetivos e que poderiam ser “amplamente difundidos e utilizados em nível de saúde pública”. Neste contexto, a pergunta é: Como andam os estudos relacionados com o tratamento farmacológico da Covid-19?

Segundo a visão panorâmica do Dr. Francis Collins que é o Diretor do National Institute of Health (NIH) dos Estados Unidos. Para quem não conhece, o NIH é o responsável pela biblioteca PUBMED, que indexa revistas científicas do mundo todo.  Vejamos o que diz o Dr Francis sobre o tema (tradução livre):

Geralmente, leva mais de uma década para desenvolver uma terapia antiviral segura e eficaz. Mas, quando se trata da doença de coronavírus 2019 (COVID-19), não temos esse tipo de tempo. Uma maneira de acelerar o processo pode ser colocar alguns remédios antigos contra essa nova ameaça de doença. Isso geralmente é chamado de “redirecionamento de medicamentos”.

Em um estudo recente financiado pelo NIH na revista Nature , os pesquisadores examinaram uma “biblioteca” química que continha quase 12.000 compostos de drogas existentes por sua atividade potencial contra o SARS-CoV-2, o novo coronavírus que causa o COVID-19.

 Os resultados? Em testes em primatas não humanos e de células humanas cultivadas em condições de laboratório, 21 desses medicamentos existentes mostraram potencial de redirecionamento para impedir o novo coronavírus – 13 deles em doses que provavelmente poderiam ser dadas com segurança às pessoas. A maioria desses medicamentos foi testada em ensaios clínicos para uso em HIV, doenças autoimunes, osteoporose e outras condições.

Os pesquisadores americanos em  colaboração com a equipe de Yuen Kwok-Yung da Universidade de Hong Kong, desenvolveram um método de alto rendimento que lhes permitiu rastrear rapidamente cada um dos 11.987 compostos de drogas da biblioteca ReFRAME (uma plataforma online montada com cerca de 12.000 moléculas combinando três bancos de dados (Clarivate Integrity, GVK Excelra GoStar e Citeline Pharmaprojects) para facilitar o redirecionamento de medicamentos quanto ao seu potencial de bloquear o SARS-CoV-2 em células cultivadas em laboratório. A primeira rodada de testes reduziu a lista de possíveis medicamentos para a Covid-19 para cerca de 300. Em seguida, usando concentrações mais baixas de medicamentos em células expostas a uma segunda cepa de SARS-CoV-2, eles reduziram ainda mais a lista a 100 compostos que poderiam limitar de forma confiável o crescimento do coronavírus em pelo menos 40%.

De um modo geral, espera-se que um medicamento antiviral eficaz mostre maior atividade à medida que sua concentração é aumentada. Então, a equipe de Chanda testou esses 100 medicamentos em busca de evidências dessa relação dose-resposta. Vinte e um deles passaram neste teste. Este grupo incluiu o remdesivir, um medicamento originalmente desenvolvido para a doença causado pelo vírus Ebola e recentemente autorizado pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos para uso emergencial no tratamento do Covid-19. O remdesivir agora pode ser considerado um controle positivo.

Esses achados levantaram outra pergunta intrigante: algum dos outros medicamentos com uma relação dose-resposta funcionaria bem em combinação com o remdesivir para bloquear a infecção por SARS-CoV-2? De fato, os pesquisadores descobriram que quatro deles poderiam.

Estudos posteriores mostraram que alguns dos medicamentos mais promissores da lista reduziram o número de células infectadas por SARS-CoV-2 em 65 a 85%. O mais potente deles foi o Apilimod, um medicamento que foi avaliado em ensaios clínicos para o tratamento da doença de Crohn, artrite reumatóide e outras condições autoimunes. O Apilimod está agora sendo avaliado na clínica por sua capacidade de impedir a progressão da Covid-19. Outro potencial antiviral a surgir do estudo é a clofazimina, um medicamento aprovado pela FDA com 70 anos de idade que consta da lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial da Saúde para o tratamento da hanseníase.

No geral, os resultados sugerem que podem haver diversos fármacos existentes e / ou experimentais que potencialmente podem ser redirecionados para o tratamento da Covid-19. Além disso, alguns deles também podem funcionar em combinação com o remdesivir, ou talvez com outros medicamentos.Ou seja, existe a possibilidade de que se desenvolvam  “coquetéis” de tratamento, como aqueles usados ​​para tratar com sucesso o HIV, a hepatite C ou mesmo na quimioterapia. 

Ainda o  Dr Francis comentou que: “esse é apenas um dos vários esforços de triagem de medicamentos que estão em andamento, usando bibliotecas e ensaios diferentes para detectar atividade contra o SARS-CoV-2. O Centro Nacional de Promoção da Ciência Translacional do NIH estabeleceu um portal de dados abertos (https://opendata.ncats.nih.gov/covid19/) para coletar todos esses dados o mais rápido e abertamente possível. Como o NIH continua seus esforços para usar o poder da ciência para encerrar a pandemia da COVID-19, é extremamente importante que exploremos o maior número possível de vias para o desenvolvimento de diagnósticos, tratamentos e vacinas. Estas informações nos remetem a uma certeza: a ciência está fazendo o seu papel, ainda que isto implique em grande sacrifício por parte dos pesquisadores e muita desconfiança por parte das pessoas. Só lembro que, estas mesmas pessoas entram tranquilamente em uma farmácia e compram toda a sorte de fármacos, pomadas, xaropes, cremes que só estão lá disponíveis, porque foram testadas e criteriosamente licenciadas pelas agências regulatórias como é o caso da ANVISA, no Brasil. Confiar na ciência é o único caminho seguro.

Fontes: Discovery of SARS-CoV-2 antiviral drugs through large-scale compound repurposing. Riva L, Yuan S, Yin X, et al. Nature. Julho 2020
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32707573/

Enviado por: Profª Drª Ivana Beatrice Mânica da Cruz- Universidade Federal de Santa Maria. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3426369324110716

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

3 × cinco =