Vai um cafezinho? Cafeína interfere no risco de desenvolvimento e progressão da doença de Parkinson

A doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa muito comum, cujos principais sintomas são tremor, rigidez muscular, lentidão ou ausência de movimentos e deficiência de equilíbrio e coordenação. Os fatores de risco para a doença incluem idade avançada (na maioria dos casos, os sintomas tornam-se visíveis aos 60 anos ou mais), sexo (os homens parecem ter uma chance 50% maior de desenvolver a doença do que as mulheres), mutações genéticas (mudanças que ocorrem no DNA dos organismos vivos), contato com toxinas ambientais (como metais pesados, pesticidas e herbicidas) e estilo de vida (alimentação rica em gorduras e açúcar, inatividade física, tabagismo, etc).

O consumo de café, chá ou alimentos com cafeína é sugerido por estar associado à redução do risco da Doença de Parkinson.  A cafeína é uma molécula presente no café, nos chás preto e verde, na erva-mate, no chocolate, no refrigerante à base de cola, entre outros produtos alimentares. Possui potenciais efeitos neuroprotetores, que já foram demonstrados experimentalmente em vários modelos in vivo (experimentos realizados dentro de um organismo vivo, que podem utilizar animais ou seres humanos) de Doença de Parkinson. No entanto, ainda não está claro se a cafeína pode reduzir o risco e interromper a progressão desta doença.

A partir destas informações, foi realizado um estudo, que investigou a associação entre a cafeína e o risco ou progressão da Doença de Parkinson, a fim de averiguar o potencial desta molécula em modificar o curso da doença. O estudo foi uma meta-análise (análise estatística de resultados de diferentes estudos individuais, com o objetivo de integrá-los, combinando e resumindo seus resultados), que examinou os dados de artigos relevantes, publicados entre 1 de janeiro de 1990 e 31 de dezembro de 2019. No total, 13 estudos foram incluídos na análise, os quais foram divididos em duas categorias: a coorte (ou grupo) saudável, incluindo 9 estudos que recrutaram indivíduos sem diagnóstico prévio de Doença de Parkinson, em que o diagnóstico foi realizado durante a avaliação de acompanhamento; e a coorte de Doença de Parkinson, incluindo 4 estudos em indivíduos com o diagnóstico da doença, já apresentando sintomas motores, em que a progressão da doença foi monitorada. O consumo diário de cafeína foi avaliado nos estudos por meio de questionários detalhados e abrangentes ou perguntas simples sobre os hábitos alimentares de produtos contendo cafeína.

Na coorte saudável, foram extraídos e analisados, no total, 43 resultados dos 9 estudos incluídos. O consumo de cafeína foi significativamente associado a um menor risco de desenvolver sintomas notáveis ​​para o diagnóstico de Doença de Parkinson durante o período de acompanhamento.

Nos 4 estudos incluídos na coorte com a Doença de Parkinson, os pacientes estavam no estágio inicial da doença (quando apresentam sintomas leves que, geralmente, não interferem nas atividades diárias). No total, 10 resultados foram extraídos desses estudos e analisados. A composição da cafeína entre os pacientes com a Doença de Parkinson desacelerou significativamente a progressão da doença.

Uma das limitações dos estudos incluídos na análise é que eles consideraram a ingestão diária de bebidas e produtos alimentares com cafeína, o que requer uma fórmula de transformação para estimar o consumo diário de cafeína. No entanto, a composição desta molécula pode variar nos produtos, dependendo do tipo, da marca ou do país. Nenhum dos estudos se concentrou no efeito de comprimidos de cafeína pura, o que demonstraria diretamente os efeitos desta molécula, em vez dos efeitos mistos dos produtos alimentares com cafeína. Além disso, vários fatores genéticos e ambientais podem influenciar nos efeitos da cafeína, e não houve informações claras sobre esses possíveis fatores de confusão nos estudos incluídos.

Entretanto, os resultados analisados nesta meta-análise indicam que o consumo de cafeína foi significativamente associado a um baixo risco de desenvolver a Doença de Parkinson, em indivíduos saudáveis, ​​e à desaceleração da progressão dos sintomas em pacientes com a doença. Estudos adicionais são necessários para investigar não apenas a dosagem diária ideal e a fonte alimentar de cafeína, mas também os possíveis mecanismos subjacentes aos seus efeitos protetores na Doença de Parkinson. O estudo salienta que, entre os indivíduos com a doença, na ausência de efeitos adversos, a ingestão de cafeína deve ser incentivada.

Fonte: Hong e colaboradores. Publicado na revista Nutrients, em junho de 2020.
Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7353179/pdf/nutrients-12-01860.pdf

Enviado por: MSc. Cibele Ferreira Teixeira – Doutoranda em Farmacologia, Universidade Federal de Santa Maria.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9457577413344566

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