A saúde mental das avós pode afetar a saúde mental e o comportamento dos netos

Já foi comprovado por estudos científicos que a depressão materna está fortemente associada a distúrbios emocionais e comportamentais nas crianças. No entanto, ainda faltam estudos que evidenciem a mesma relação entre a criança e outros membros da família, que em muitos contextos também exercem o papel de cuidadores. 

Alguns estudos sugerem a importância da saúde mental dos avós para o desenvolvimento infantil, no entanto, os achados são inconsistentes, e os efeitos podem variar dependendo do contexto cultural.

Nas culturas latino-americanas, muitas vezes as avós desempenham papeis de conselheiras acerca da educação infantil e, muitas vezes, de cuidadoras ativas. Além disso, com o aumento do número de mães inseridas no mercado de trabalho, muitas vezes sem a possibilidade de pagar pelos cuidados a seus filhos as avós assumem, cada vez mais, esses papeis. Nesse contexto, a saúde mental das avós pode impactar a saúde mental dos netos diretamente, pelo papel de cuidadora e indiretamente, através da influência dos pais.

Além disso, a depressão em pessoas de diferentes gerações da mesma família poderia ser explicada pela herança genética, mesmo em casos em que a avó não tenha contato direto com seus filhos ou netos, ainda que se saiba que a maioria dos casos de depressão não sejam hereditários. Características ambientais compartilhadas entre distintas gerações, podem ter uma influência mais significativa. Assim, há várias razões para acreditar que a saúde mental das avós que têm contato direto com seus netos é determinante a saúde mental deles.

Para estudar a influência da saúde mental dos avós sobre a saúde metal e o comportamento dos netos, pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas, Pelotas-RS, realizaram um estudo recolhendo dados em duas coortes de nascimento com 22 anos de intervalo (1982 e 2004) na própria cidade de Pelotas. Em 1982, a amostra inicial da Coorte foi de 5.914 mães (avós no estudo aqui relatado), que foram acompanhadas em várias ocasiões. Já em 2004, incluiu-se na análise de mulheres com filhos nascidos neste ano, e que elas próprias tinham sido filhas em 1982, ou seja, eram os bebês da análise de 1982. Todos os bebês nascidos em 2004 foram acompanhados pelo menos até 2008 pela equipe de pesquisa. A saúde mental dos pais e das avós foi avaliada por meio de um questionário que mensurou principalmente, ansiedade e depressão, e os netos foram avaliados através da Lista de Verificação de Comportamento Infantil.

Os resultados do estudo mostraram que há evidências de que os sintomas emocionais das avós estão associados a problemas emocionais e comportamentais em seus netos, e o tamanho dessas associações foi comparável às associações entre sintomas maternos e problemas emocionais e comportamentais em crianças.

A correlação foi mais evidente em avós maternas em vez de paternas e pode ser explicada pelo maior papel desempenhado pelas avós maternas na educação dos filhos, sem descartar completamente mecanismos genéticos como o DNA mitocondrial, por exemplo, mesmo que, atualmente, não existam comprovações que esse mecanismo possa influenciar em aspectos emocionais e comportamentais. Além disso, a relação entre avós maternas e netos foi maior que a relação entre pais e filhos e esse aspecto demonstra que as avós desempenham um papel maior na assistência infantil dos primeiros anos do que os próprios pais. As avós ocupam o lugar de orientadoras sobre práticas de educação infantil, bem como cuidadoras ativas, representando a figura de “autoridade” nas famílias e refletindo a hierarquia cultural e o respeito pela idade e experiência.

Por fim, fica evidente que, em alguns contextos, a saúde mental das avós pode ser tão importante quanto a saúde mental materna para o desenvolvimento emocional e comportamental do neto. Por esse motivo, intervenções para melhorar a saúde mental das avós, bem como dos pais, podem ser importantes para a saúde mental da criança. As estratégias de intervenção atuais destinadas a melhorar o desenvolvimento emocional e comportamental do bebê costumam se concentrar na díade mãe-bebê e, cada vez mais, no papel do pai. No entanto, o papel de outros membros da família recebe pouca atenção, e a influência fundamental dos avós nas crianças raramente tem sido utilizada em intervenções de saúde pública.

Fonte: Pearson RM, Culpin I, Loret de Mola C, et al. Grandmothers’ mental health is associated with grandchildren’s emotional and behavioral development: a three-generation prospective study in Brazil.  Psiquiatria BMC. 2019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31208381/

Enviado por: Júlia Diettrich Traesel – Acadêmica do Curso de Medicina-Universidade Federal de Santa Maria e Profª Draª Fernanda Barbisan- UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1428674947616182

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