Azitromicina não é eficaz para tratar pacientes graves com Covid-19

Desde que o novo Coronavírus surgiu, cientistas do mundo inteiro correm em busca de uma vacina ou tratamento para a doença. Nesse sentido, utilizar medicamentos já existentes no mercado farmacêutico como uma possível solução para indivíduos infectados também é uma realidade e a Azitromicina, inicialmente, foi vista como uma possível solução para a doença. Porém, no início do mês de setembro de 2020, cientistas brasileiros publicaram um estudo no qual após testagem em seres humanos, ou seja, aplicando a azitromicina em indivíduos infectados pelo SARS-CoV-2 e com sintomas graves da doença, provou a ineficácia desse fármaco para tratamento da Covid-19.

Primeiramente, devemos analisar os critérios usados pelos cientistas brasileiros para verificar o efeito da azitromicina para tratamento da Covid-19 em pacientes graves. Nessa perspectiva, foram testados pacientes maiores de 18 anos e que se encontravam em alguma das seguintes situações: suplementação de oxigênio, uso de cânula via nasal para melhorar a respiração, necessidade de ventilação mecânica não invasiva ou necessidade de ventilação invasiva. Todos pacientes tiveram resultado positivo para SARS-CoV-2 e foram divididos em dois grupos, um controle (sem azitromicina) e outro que fez uso da azitromicina. Além disso, outros critérios para participar do estudo era não ter ingerido cloroquina ou hidroxicloroquina nas últimas 48h antes do início dos sintomas, nem possuir arritmia cardíaca ou história de alergia conhecida a azitromicina.

Os pacientes que faziam parte do grupo teste receberam 500mg de azitromicina uma vez por dia por 10 dias. Além disso, o uso de outros corticoides, imunomoduladores, antibióticos e antivirais foi permitido apenas no grupo não controle, caso a equipe médica responsável pelo paciente considerasse necessário. O grupo controle não recebeu esses outros fármacos.

Ao analisar os resultados, verificou-se que a azitromicina não trouxe diferença entre pacientes que utilizaram-na por 10 dias e pacientes do grupo controle, bem como não diminuiu o tempo de internação e nem a mortalidade dos pacientes graves. Ademais, ao analisar os exames de sangue, desses grupos, notou-se que não houve alterações significativas. Também não houve relação entre o uso ou não com o desenvolvimento de outras doenças durante a internação. Já ao analisar o tempo de internação, os pacientes que utilizaram a azitromicina ficaram internados, em média, 26 dias, contra 18 dias dos pacientes do grupo controle.

Por fim, vale ressaltar que a azitromicina é um antibiótico usado para tratamento de infecções bacterianas em vias aéreas superiores, ou seja, nariz e garganta. Entretanto, existem alguns estudos (poucos) que investigam um possível efeito anti-inflamatório e que, por isso, poderia auxiliar contra Covid-19, que causa uma inflamação no sistema imune do organismo. Embora se tivesse esperança de que seu uso funcionaria, infelizmente não se comprovou eficácia e, portanto, a azitromicina não é um fármaco indicado para tratamento de pacientes graves infectados pelo novo Coronavírus. Além disso, vivemos um período de alta resistência bacteriana, então utilizar antibióticos sem necessidade é extremamente prejudicial e, a longo prazo, pode piorar o quadro do paciente.

 Mesmo assim, é necessário lembrar a importância de novos estudos para alcançar um tratamento eficaz para a Covid-19 e, mais uma vez, ressaltar a relevância desse estudo brasileiro para a comunidade científica internacional. Enquanto não obtivermos a vacina ou um tratamento, de fato, efetivo, manter o isolamento social, evitar aglomerações, utilizar álcool gel e fazer o uso de máscara é o melhor caminho para o bem individual e coletivo.

Fonte: Remo H M Furtado e colaboradores Azithromycin in addition to standard of care versus standard of care alone in the treatment of patients admitted to the hospital with severe COVID-19 in Brazil (COALITION II): a randomised clinical trial. Artigo publicado na Revista The Lancet em 4 de setembro de 2020.
Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31862-6/fulltext

Enviado por: Gean Scherer da Silva, acadêmico do curso de Medicina da UFSM e aluno de iniciação científica do Laboratório de Biogenômica.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7600572242471748

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