“Bebês talidomida” evidenciam a necessidade de ensaios clínicos antes da liberação de medicamentos

No presente cenário de pandemia, uma das maiores preocupações mundiais é a elaboração de um tratamento e de uma vacina eficazes no combate da Covid-19. No entanto, o processo de aprovação de medicamentos não é tão simples e passa por diversas etapas. Para que um remédio novo ou uma vacina sejam aprovados para distribuição à população, eles devem ser submetidos a estudos pré-clínicos e clínicos que comprovem sua eficácia e segurança.
Na fase pré-clínica, são realizados testes in vitro (experimentos feitos em um ambiente isolado e controlado em laboratórios, fora de organismos vivos) e testes em animais. Já na fase clínica, são realizados testes em humanos, subdivididos em três fases: na fase I é utilizado um grupo pequeno de pessoas (10 a 30 indivíduos), para definir a segurança do medicamento; na fase II se utiliza um grupo maior (70 a 100 indivíduos), para definir seu funcionamento; já na fase III utiliza-se um grupo de pessoas grande (100 a 1000 indivíduos), para definir a eficácia. Só então, um medicamento pode ser comercializado, o que demanda tempo e recursos.
No entanto, essa sequência de etapas nem sempre foi seguida e muitos medicamentos foram liberados ao público sem o completo conhecimento de seus efeitos no organismo e riscos de sua administração, como ocorreu com a talidomida nas décadas de 1950 e 1960.
A talidomida é um medicamento desenvolvido na Alemanha em 1954, que possuía propriedades sedativas. Em 1957, esse remédio já era amplamente vendido no território alemão sem a necessidade de receita médica e, em 1960, já era comercializado em toda a Europa como um tranquilizante e antiemético para enjoos matinais sendo recomendado para grávidas no controle das náuseas, com a afirmação de ser seguro.
Nos Estados Unidos (EUA), esse remédio não conseguiu ampla circulação, uma vez que o FDA (Food and Drug Administration, órgão responsável pela regulação de drogas e alimentos nos EUA, semelhante à Anvisa no Brasil) não concedeu sua aprovação. Mesmo assim, muitos médicos norte-americanos utilizaram a talidomida em pacientes, realizando “ensaios clínicos” informais, sem o consentimento deles.
Com a droga sendo amplamente utilizada, começaram a surgir diversos relatos, principalmente na Europa e na África, de crianças nascendo com graves malformações. Assim, em 1961 foi descoberto que a talidomida possui efeitos teratogênicos, ou seja, era capaz de causar danos ao embrião ou feto durante a gravidez. Os filhos de mulheres grávidas, que tivessem utilizados mesmo que apenas uma dose de talidomida durante o primeiro trimestre da gestação, estavam nascendo com malformações, principalmente focomelia (encurtamento dos membros do recém-nascido, dando a ele aspecto semelhante a uma foca).
Assim, em 1961, essa droga foi retirada de circulação em quase todos os países, iniciando o processo de indenização das famílias com crianças afetadas. No Brasil, a droga só foi retirada de circulação 4 anos depois e, mesmo assim, ainda continuou sendo utilizada indiscriminadamente por algum tempo, gerando ainda muitos casos de crianças com focomelia.
O grande problema de saúde pública gerado pela administração de talidomida demostrou a necessidade de mudanças no processo de desenvolvimento de medicamentos, já que até então estudos em animais eram o suficiente para liberar a comercialização. Assim, em 1962 os estudos científicos para liberação de medicamentos passaram a ter necessidade de ensaios clínicos com grande número de pessoas, uma vez que um efeito colateral grave pode surgir apenas em determinada população conforme suas características genéticas e de idade por exemplo. Também, foram definidos novos padrões éticos, como a obrigatoriedade de consentimento informado dos pacientes.
Posteriormente, a talidomida foi submetida a novos testes e ensaios clínicos e, com isso, foi descoberto outras propriedades e aplicações clínicas, como o tratamento de hanseníase, lúpus, doenças crônico-degenerativas e câncer, tendo voltado a ser comercializada, porém com ressalvas. Mulheres em idade reprodutiva, mesmo em uso de anticoncepcional, não devem utilizar o medicamento, salvo em casos muito específicos, com deliberação médica e assinatura de termos legais de ciência e consentimento.
Com isso, fica evidente a necessidade de que todas as etapas sejam respeitadas no desenvolvimento de remédios e a importância e relevância dos ensaios clínicos. Apesar da necessidade de maior tempo, a realização de todo o processo de forma correta garante uma maior segurança e maiores chances de que, quando comercializado, a droga ou a vacina terá o efeito desejado.
Um exemplo disso é a vacina candidata contra a Covid-19 de Oxford, que até na sua fase II do estudo clínico não foi encontrado nenhum efeito adverso grave. No entanto, durante a fase III (a qual se encontra atualmente) um paciente no Reino Unido apresentou mielite transversa, uma síndrome inflamatória que atinge a medula espinhal e pode ser ocasionada por diversos fatores. Dessa forma, os testes do estudo foram interrompidos para investigar se a causa da reação no paciente tinha a ver ou não com a vacina e, assim, garantir a segurança do procedimento.
“Esta parada é uma ação rotineira que deve acontecer sempre que for identificada uma potencial reação adversa inesperada em um dos ensaios clínicos, enquanto ela é investigada, garantindo a manutenção da integridade dos estudos.”, foi o que comunicou a empresa farmacêutica responsável pelo estudo AstraZeneca.
A ciência nos dará todas as respostas entretanto, há a necessidade de se respeitar os tempos necessários para que a cura ou a prevenção da Covid sejam seguras.

Fontes: Franks, M. et al. The Lancet. 2004.
Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(04)16308-3/fulltext


Tripathi, N. et al. Compreendendo a Pesquisa Clínica. 2015. Editora AMGH.
Desconhecido. Associação Brasileira dos Portadores da Síndrome da Talidomida. 2007.
Disponível em: http://www.talidomida.org.br/oque.asp


Desconhecido. Sindicato Médico do Rio Grande do Sul. 2016.
Disponível em: http://www.simers.org.br/noticia/quais-os-criterios-para-aprovacao-de-um-novo-medicamento#:~:text=Para%20serem%20aprovados%2C%20os%20medicamentos,em%20pelo%20menos%20tr%C3%AAs%20etapas.

Desconhecido. G1. 2020.
Disponível em: https://g1.globo.com/bemestar/vacina/noticia/2020/09/08/estudo-com-a-vacina-de-oxford-e-suspenso-no-reino-unido-apos-efeito-adverso-grave-em-paciente-diz-site.ghtml

Enviado por: Daniel Augusto de Oliveira Nerys, acadêmico do Curso de Medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6856876692474909

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