Depressão e obesidade durante a gravidez podem levar a trágicas consequências na vida do bebê

A depressão e a obesidade são duas doenças muito comuns na atualidade, que afligem grande parte da população mundial. Apesar de menos divulgada a associação destas doenças com complicações na gravidez é comum, podendo trazer sérios riscos para a mãe e o bebê. Por este ser um momento tão crítico no desenvolvimento do novo ser humano que está se formando, é importante que se conheça os efeitos dessas doenças e saiba como reconhecê-las para que se lide com elas da maneira apropriada o mais rápido possível, evitando maiores consequências.

Já há uma série de evidências cientificas demonstrando, entre mulheres grávidas aquelas que apresentam sintomas depressivos têm maior tendência a desenvolver obesidade do que as não depressivas. Ainda, mulheres gravidas obesas são mais vulneráveis a desenvolverem sintomas depressivos durante a gravidez e no período pós-parto do que grávidas sem obesidade.

Ainda, sugerem que depressão e obesidade materna podem aumentar o risco de parto prematuro e de desenvolvimento cognitivo, físico e emocional abaixo do nível esperado.

Uma vez que vários estudos apontam o efeito do ambiente intrauterino no desenvolvimento fetal e na saúde da criança depois do nascimento, já que durante esse período o cérebro está particularmente sensível a mudanças que podem ter implicações a longo prazo.

O papel do estresse e da depressão

O cérebro é o órgão mais sensível ao estresse materno no período pré-natal. Diversas linhas de evidência de modelos pré-clínicos, ou seja, modelos laboratoriais de experimento (situações artificiais ou em animais de experimentação) indicam a presença de consequências duradouras da exposição ao estresse pré-natal, podendo ser em nível comportamental e molecular e podendo prejudicar a aprendizagem espacial e a memória, com efeito que pode ser observado até a adolescência, e mesmo na vida adulta. Diversos estudos epidemiológicos trazem dados que corroboram esses estudos pré-clínicos, relacionando o estresse materno durante a gravidez, como exposição a terrorismo, desastres naturais, luto, problemas de relacionamento e graves dificuldades financeiras, com aumento na incidência de temperamento difícil e problemas de comportamento na criança na infância.

Dentre as regiões do cérebro que são alvo de estudos para se perceber os possíveis efeitos do estresse durante a gravidez, a amigdala e o hipocampo são as que recebem mais atenção, pois acredita-se que são as regiões mais suscetíveis a níveis elevados de glicocorticoides, os hormônios do estresse, como, por exemplo, o cortisol. Além disso, embora não se saiba exatamente os mecanismos subjacentes dos efeitos da depressão e da obesidade durante a gravidez no ambiente intrauterino e no feto, várias evidências suportam a presença de alterações no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, que levaria, também, a uma liberação alterada desses hormônios.

Há de se lembrar que a depressão afeta anualmente aproximadamente 6% da população adulta no mundo, sendo que acomete duas vezes mais mulheres do que homens, estimando-se que uma a cada quatro mulheres terá depressão em algum momento da vida. A depressão materna durante a gravidez ou a depressão pós-parto é uma das complicações perinatais mais comuns, acometendo cerca de 10 a 15% das mães e podendo inclusive impactar a habilidade da mãe de criar uma ligação com seu bebê recém-nascido, levando à falta de capacidade de resposta das mães aos sinais do filho. Muitas vezes a depressão não é diagnosticada devidamente durante a gravidez, podendo ser confundida inclusive com desbalanço hormonal, e em um estudo de revisão sobre sua consequência para mãe e bebê ela foi associada com mau funcionamento cognitivo das crianças, inibição comportamental, desajuste emocional, distúrbios externalizantes e doenças psiquiátricas ou físicas futuras. A depressão durante a gravidez causa alterações em diversos sistemas biológicos. Um exemplo disso é a associação com níveis mais altos de cortisol, que podem passar para o feto via placenta.

O estado da depressão durante a gravidez também está associado a um estado pró-inflamatório que pode afetar o desenvolvimento do feto, levando a efeitos negativos no comportamento e no desenvolvimento de funções cognitivas. Existe ainda a associação da depressão materna durante a gravidez com a predição de depressão no filho na adolescência e que maus tratos na infância também são um fator de risco para esse distúrbio.  Há ainda sugestões de que os efeitos negativos da depressão materna durante a gravidez no desenvolvimento cognitivo e emocional do bebê são cumulativos, indicando a importância do acompanhamento desde cedo de qualquer sintoma e, também, que a intervenção ocorra o quanto antes.

Em um estudo na Holanda do Sul foi relacionada angústia geral materna, depressão e ansiedade durante a gravidez com riscos cardiometabólicos nas crianças aos 10 anos e a diferença entre os sexos, encontrando relação entre o sofrimento psicológico materno com maior frequência cardíaca na infância nos meninos e entre depressão e ansiedade materna com triglicerídeos infantis elevados em meninas.

O papel da nutrição e da obesidade

Durante a gravidez, a ingestão adequada de nutrientes é necessária para o desenvolvimento do bebê, tornando muito importante o cuidado com a dieta da mãe. Estudos apontam problemas tanto em dietas deficientes quanto em dietas com números elevados de certos grupos alimentares, como consumo muito alto de sal e gordura, podem alterar o desenvolvimento fetal e predispô-lo a doenças metabólicas na vida futura. A dieta de pacientes obesos e depressivos têm tendência a não ser adequada, sendo que eles têm inclinação a escolher comidas que podem inclusive levar ou piorar a obesidade, ao mesmo tempo em que podem ficar com deficiências nutricionais.

Segundo T.S Rao e colaboradores, as deficiências nutricionais mais encontradas em pacientes com algum distúrbio mental são ômega-3, vitaminas B e aminoácidos que são precursores de neurotransmissores.

A obesidade tendo sido considerada pela Organização Mundial da Saúde como uma “sobrecarga epidemiológica global”. A obesidade materna durante a gravidez  pode afetar o desenvolvimento do cérebro do feto, aumentando o risco de apresentar Déficit de Atenção e Hiperatividade, Distúrbios do Espectro Autista ou até mesmo Esquizofrenia.

 Um estudo finlandês com bebês de 23 a 69 meses (1,9 a 5,75 anos) cujas mães tiveram obesidade durante a gravidez e relacionaram a mesma – e também excesso de peso – à maior chance da criança não atingir as metas de desenvolvimento de habilidades típicas para a idade, principalmente atraso na comunicação, motricidade fina e grossa, resolução de problemas e habilidades pessoais-sociais.

Ainda pode ser relacionar a obesidade materna durante a gravidez ou o ganho de peso excessivo nesse período e um índice de Massa Corporal elevado no início da vida da criança, ainda um peso elevado da mãe antes de engravidar e um ganho de peso excessivo durante esse período, com fatores de risco cardiovascular nas crianças entre 6 a 10 anos de idade, como pressão arterial alta, perfil lipídico alterado, resistência a insulina e aumento de marcadores inflamatórios.

Estresse e nutrição, depressão e obesidade

O estresse pode induzir uma dieta com maior quantidade de gordura e açúcar, aumentando o risco de desenvolvimento de disfunções metabólicas., a interação entre o estresse e o consumo de uma dieta rica em gorduras pode ser capaz de induzir uma resposta pró-inflamatória, que na gravidez pode causar alterações na estrutura e na conectividade neuronal do bebê pela exposição do cérebro em desenvolvimento à níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias, causando um desbalanço, como já mencionado acima.

Embora a obesidade e a depressão já tenham sido relacionadas a mecanismos similares quando causando efeitos adversos nos bebês durante a gravidez, e sendo que essas duas doenças podem ocorrer concomitantemente em muitas mulheres, poucas pesquisas estudam o efeitos de ambas ocorrendo ao mesmo tempo nesse período. Um estudo recente por S. D. McDonald e colaboradores, que contou com mais de 70 mil mulheres, percebeu um risco maior de situações neonatais adversas quando a grávida tinha obesidade e depressão do que quando ela possuía apenas uma das condições, chegando a 24%.

Um estudo finlandês publicado em 2018 encontrou uma relação entre excesso de peso e obesidade no começo da gravidez com níveis mais altos de sintomas depressivos durante a gestação e um estudo dos Estados Unidos, também publicado em 2018, encontrou uma relação entre adolescentes com ganho de peso excessivo durante a gravidez e sintomas de depressão pós-parto. Esses estudos ajudam a confirmar a relação entre a depressão e a obesidade durante a gravidez; porém, são necessários novos estudos para melhor entendimento dos efeitos a longo prazo no bebê, da concomitância de obesidade e depressão na gestante.

É possível perceber que a depressão e a obesidade estão presentes entre as complicações da gravidez e podem causar sérias consequências. Seu diagnóstico precoce, principalmente no caso da depressão, que pode muitas vezes ser descartada como nada ou como algo irrelevante, é muito importante, e lidar com essas condições para que seus efeitos sejam diminuídos é de suma importância. É fácil negligenciar esses casos e pensar que apenas complicações cujos efeitos chamam mais atenção imediata, como pré-eclâmpsia, eclâmpsia, hemorragias ou infecções, por exemplo, ter de ser resolvidas com prontidão, mas fechar os olhos para as complicações que trazem efeitos a longo prazo, não é a melhor atitude.

É preciso cada vez mais, a consciência dos profissionais da saúde e pacientes, para que o combate a obesidade e a depressão, duas pandemias mundiais silenciosas ocorra. Até quando, vamos negar as consequências destas doenças?

Fonte: Nadia Cattane e colaboradores 2020. Artigo publicado na Molecular Psychiatry – Nature Reseach Journal

Disponível em https://www.nature.com/articles/s41380-020-0813-6#:~:text=Increased%20risk%20for%20cognitive%20and,health%20and%20brain%20neurodevelopmental%20trajectories

Enviado por: Beatriz Sadigursky Nunes Cunha – Acadêmica de Medicina e Aluna de Iniciação Científica Laboratório Biogenômica – UFSM – Bolsista
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1422099879910898

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