Diferenças na taxa de sobrevivência de bebês brancos e negros são afetadas pela etnia do médico?

2020 protagonizou diversas discussões sociais relevantes, e a pandemia jogou luz em questões a muito debatidas e que não ganhavam a devida relevância midiática. Uma dessas questões é a disparidade na qualidade de vida das diferentes etnias e estratos sociais. Possuindo menos acesso a saúde de qualidade e educação, os pobres, negros e pardos, são os que mais sofrem em um momento de crise.

Contudo, esse sofrimento se estende para além da atual conjuntura da pandemia, permeando os diversos aspectos da vida cotidiana dessa parcela da população. Recentemente esse impacto começou a ser mensurado, e estudos tentam descrever em números o grau de desigualdade encontrado na sociedade.

Um dos aspectos analisados no que diz respeito ao desenvolvimento humano, é a taxa de mortalidade infantil de uma população. Nos Estados Unidos, os recém-nascidos negros enfrentam resultados clínicos inquestionavelmente piores, e apresentam uma mortalidade três vezes maior se comparados aos recém-nascidos brancos.  E isso é um sinal de alerta para a investigação das possíveis causas dessa desproporção

As razões podem variar de aumento das taxas de eclâmpsia e pré-eclâmpsia(Uma complicação da gravidez potencialmente perigosa caracterizada por pressão alta) durante a gravidez, a partos prematuros, a determinantes sociais como desigualdade socioeconômica e preconceito racial. Porém, um novo fator está sendo cogitado. A falta de representatividade na comunidade médica.

Novas evidências sugerem que os recém-nascidos negros podem ter necessidades diferentes e serem mais difíceis de tratar, devido a fatores de riscos sociais, desvantagens raciais e socioeconômicas cumulativas das mulheres negras grávidas. Somando-se a isso, constata-se uma propensão dos médicos a estarem mais inteirados dos desafios e problemas que surgem ao tratar do grupo social ao qual estão inseridos, criando assim um ambiente desfavorável para os cuidados dos recém nascidos de diferentes etnias.

Dados coletados da Agencia Estadual de Administração de Saúde da Flórida, dos nascimentos entre 1992 a 2015, indicam que sob os cuidados de médicos brancos, a taxa de mortalidade de recém-nascidos brancos é de 290 por 100.000 nascimentos. Enquanto que, a mortalidade de recém-nascidos negros sob os mesmos cuidados, é estimada em 894 por 100.000 nascimentos, uma diferença de 604 mortos comparado ao outro grupo. Os médicos negros aparentemente não sofrem com o efeito da disparidade de etnia do paciente, apresentando taxas muito similares ao de médicos brancos ao cuidarem de recém-nascidos brancos. Em contraste, sob os cuidados de médicos negros, a taxa de mortalidade para recém-nascidos negros é de apenas 173 mortes por 100.000 nascimentos acima dos recém-nascidos brancos, uma redução de 58% na diferença de mortalidade racial.

Análises apontam que a redução da diferença de mortalidade ocorre principalmente nos casos mais graves, e está mais relacionada com à mortalidade neonatal do que à mortalidade materna. Em vista dessas conclusões, é compreensível para famílias que estão dando à luz a um bebê negro, o desejo de minimizar o risco e buscar atendimento de um médico negro. No entanto, a força de trabalho médica desproporcionalmente branca torna isso insustentável, tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos. Além disso, essa “solução” evita a preocupação fundamental de resolver as disparidades no atendimento oferecido por médicos brancos. Por fim, é importante ressaltar que o desempenho do médico varia amplamente, independentemente da etnia, sugerindo que selecionar um médico exclusivamente baseado nesse fator não é uma solução eficaz para questões de mortalidade

Fonte: Brad N. Greenwood, Rachel R. Hardeman, Laura Huang, Aaron Sojourner. Proceedings of the National Academy of Sciences Aug 2020
Disponível em: https://www.pnas.org/content/early/2020/08/12/1913405117

Enviado por: Wellington Claudino Ferreira, acadêmico do Curso de Medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9944318241574135

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