Henrietta Lacks, falecida há 69 anos, tem suas células vivas em todo o mundo

O centenário de nascimento de Henrieta Lacks relembra que os pesquisadores devem sempre prezar pela ética na retirada de células dos corpos dos seus pacientes para a pesquisa. Vamos compreender está afirmação.

O século XX foi cenário de abusos cometidos no campo da pesquisa científica mundial. A utilização de cobaias humanas foi uma prática comum tanto nos campos de concentração do regime nazista tanto fora deles como é o caso dos Estados Unidos.  Em geral os participantes destes estudos, tinham alguma vulnerabilidade social, ou alguma característica física como a cor da pele. Nos Estados Unidos por exemplo, havia hospitais que atendiam somente brancos, bem como hospitais voltados apenas a negros, e as pessoas negras costumavam ser inseridas em estudos científicos independentemente de consentimento ou das consequências das pesquisas. Não se pode negar que estes estudos nada éticos, sem nenhum compromisso com os direitos humanos foram fundamentais para o avanço da ciência, e também não se pode negar que a maioria absoluta das pessoas exploradas no passado ou seus familiares jamais foram recompensados.

Uma dessas pessoas foi Henrietta Lacks, cujo seu nome de batismo era Loretta Pleasant, e ninguém sabe como se tornou Henrietta, uma mulher norte-americana, negra, pobre, que faleceu na enfermaria pública para negros do Hospital Johns Hopkins, em decorrência do estágio avançado de um câncer no colo do útero que tinha comprometido outros órgãos, doadora involuntária de células cancerosas, uma vez que suas células foram retiradas sem nenhum consentimento para uso para fins de pesquisa ( ainda que o consentimento não fosse exigido naquela época) e mantidas em cultura pelo cientista médico George Otto Gey para criar a primeira linhagem celular imortal da história, as células HeLa (abreviação de Henrietta Lacks). Depois da descoberta da cultura das células e de sua incrível multiplicação, por terem a capacidade de se dividir um número ilimitado de vezes, Dr. Gey começou a compartilhar essas células com qualquer cientista que tivesse interesse.

Desde então as células HeLa tem sido muito utilizada em pesquisas médicas com contribuições no desenvolvimento de tecnologias, vacinas e medicamentos, inclusive estão sendo utilizadas na pesquisa de vacinas contra COVID-19 . Estima-se que as células já foram replicadas o suficiente para que se colocássemos uma ao lado da outra conseguiríamos ir e voltar de Marte.

A família de Henrieta só ficou sabendo das células de Henrietta 20 anos após sua morte, em uma aula biologia do colégio onde Erika Johnson, bisneta de Henrieta estudava. A professora comentou sobre a origem das células e então Erika se deu conta que estava segurando “parte de sua bisavó’, as suspeitas se confirmaram via um artigo publicado em tributo ao cientista George Gey, aquele que tinha retirado as células sem autorização. Como não houve nenhum esclarecimento, a família acabou construindo suas próprias teorias quanto à imortalidade das células HeLa, aterrorizando a memória da matriarca.  

A grande questão levantada sobre esse fato são as questões éticas na pesquisa. Primeiro, as células de Henrieta foram coletadas e usadas para pesquisas sem o seu consentimento e de seus familiares. Segundo, as questões raciais, uma vez que, Henrieta era uma mulher americana negra. Terceiro, questões financeiras, uma vez que, as pesquisas desenvolvidas geraram muito lucro e nenhuma das empresas envolvidas com essa ciência repassaram algum dinheiro para sua família, ainda há a questão de crença envolvida.

A partir dessas informações, e da obra A vida imortal de Henrietta Lacks da autora Rebecca Skloot, trouxeram à tona a verdadeira História das famosas e tão utilizadas células HeLa.

Com os fatos extraordinários que vem ocorrendo em 2020 – o movimento #BlackLivesMatter pela justiça racial, e ainda a epidemia de  COVID-19 que faz seu maior número de vítimas principalmente nas comunidades de cor – estão levando os cientistas a reconhecer as injustiças do passado, e esta reflexão está levando alguns grupos, a pedirem a redução no uso de células HeLa em pesquisas, ou mesmo o fim total de seu uso. Por outro lado, sua família, deseja o reconhecimento científico de Henrietta Lacks bem como o reconhecimento de que as células HeLa vieram de uma mulher afro-americana de “carne e osso”, que tinha uma família e uma história.  A partir disso, criou-se o #HELA100, que pedem que as pessoas celebrem sua vida e legado.

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A partir destas questões éticas, na última década, os cientistas juntamente com a família de Henrietta estão na busca da criação de regras mais rígidas sobre o uso de células humanas. O primeiro ponto levantado neste sentido são ações com base no consentimento que deve ser obtido de qualquer pessoa de quem as amostras biológicas são coletadas antes que as amostras sejam usadas na pesquisa. Um segundo ponto abordado, é o recolhimento da questão racial, levando-se em consideração as diferenças que estão introduzidas na pesquisa básica, uma vez que, o racismo que existia quando as células de Henrietta foram retiradas ainda existe até hoje.

Henrietta não foi a única pessoa que passou por essa situação. Nos Estados Unidos, em centros biomédicos de pesquisas, as pessoas negras eram frequentemente utilizadas como cobaias humanas em estudos com sérios prejuízos à integridade física, como a pesquisa sobre sífilis que levou à morte vários negros privados de assistência médica. Atualmente, documentos internacionais, como a Declaração de Helsinque (conjunto de princípios éticos que regem a pesquisa com seres humanos que foi redigida pela Associação Médica Mundial em 1964), ou nacionais, como a Resolução 196/96 (que trata de diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos e é baseada nos principais documentos internacionais que apresentaram critérios de pesquisas semelhantes), indicam não só o direito das pessoas de serem consultadas quanto ao interesse em participar voluntariamente das pesquisas quanto o direito a conhecer e usufruir de possíveis benefícios resultantes dos estudos.

Fonte: Henrietta Lanks: science must right a historical wrong. Nature, 2020. https://www.nature.com/articles/d41586-020-02494-z.


Uma mulher negra, suas células e alguns desafios da ética em pesquisa. v.20, supl., p.1413-1416, 2013, http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702013000400019.


Rebecca Skloot. A vida imortal de Henrietta Lacks. 2011. Livro.

Enviado por: Isabel Roggia, graduada em Farmácia pela Universidade Franciscana (UFN) e Pós-doutoranda em Gerontologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/4020469474371818

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