Luz azul: como lidar com esta faca de dois gumes moderna?

Ao longo das últimas décadas, a luz azul (onda luminosa de 400nm a 500nm de comprimento) vem se tornando um fator cotidiano na vida de todas as pessoas, através do uso de computadores, celulares e diversos outros aparelhos eletrônicos. Somado ao seu valor cotidiano, a luz azul também é presente em terapias médicas, por exemplo, em casos de icterícia (tonalidade de pele amarelada devido ao excesso de bilirrubina sanguínea) neonatal ou no tratamento de insônia.

            Entretanto, assim como os grandes avanços trazidos por ela, a luz azul também causa importantes pontos negativos (principalmente as de menor comprimento de onda, chamada luz azul-violeta), tais como desregulação do ciclo circadiano (sono-vigília) e danos fotoquímicos à retina. Ainda assim, não há evidências que o uso sob condições normais (uso cotidiano de telas por períodos curtos) de luz azul seja capazes causar lesões de retina fotoquímicas, mesmo quando consideramos a exposição constante através de vários anos. É importante ressaltar que não apenas as luzes artificiais são capazes de lesionar os olhos, um exemplo de fonte de luz natural perigosa à retina é a luz solar (independentemente do horário do dia) , caso olhada diretamente por mais de 0.5 segundos.

            Acredita-se que o mecanismo de lesão da superexposição à luz azul seja capaz de aumentar a produção de EROS (espécies reativas de oxigênio), que causam reações inflamatórias (que, quando muito intensa,  podem causar destruição da barreira hemato retiniana),  danos no DNA, perda de receptores (importantes para percepção dos estímulos) e danos à mitocôndrias (danificando seu funcionamento normal e causando diminuição na produção de energia e aumento na produção de EROs) , danos aos lisossomos ativando rotas que levam a apoptose (morte celular) não apenas na retina, mas também no cristalino (lente natural do olho), alterando sua transparência, fazendo-o absorver cada vez mais energia luminosa.

            Ainda assim, nem todas as pessoas respondem da mesma forma à exposição em frente a luz azul, sendo o fator genético, de importante em diferentes momentos. Um deles é sua participação frente aos estímulos apoptóticos, pela presença de proteínas como a Bax e a Bcl-2, muito importantes na via da apoptose ou como a p53, conhecida como a guardiã do genoma (capaz de induzir reparação em células com danos leves e apoptose no caso de dano mais intenso ao material genético). Além disso, a luz azul possui capacidade de induzir a expressão ou supressão de certos genes, de morte celular.

            Mesmo com todas essas possíveis complicações, a luz azul se faz uma ferramenta importante no dia a dia da contemporaneidade e, desta forma, muitas são as medidas preventivas sendo estudadas. A primeira são os antioxidantes (compostos capazes de converter as EROS em compostos não agressivos ao meio celular, combatendo o estresse oxidativo), eles podem ser endógenos (produzidos pelo próprio corpo, como a enzima SOD- Superóxido Dismutase) ou exógenos (ingeridos na alimentação, como a vitamina E ou a curcuma (alçafrão-da-terra).

 Outras medidas são drogas anti-inflamatórias, que também se mostram eficientes ao impedir respostas celulares que causem destruição local e até mesmo liberação de mais EROS. Terapia gênica, com injeção de CNTF (fator neurotrófico ciliar), aumentando a capacidade antioxidante local (com aumento de enzimas), postergando significativamente a degeneração e a necrose celular local. O uso de uma saponina (tipo de composto químico) advindos da planta Panax notoginseng, uma espécie de ginsengem especial, mostrou-se capaz de impedir a perda de fotorreceptores. Por fim, o uso de lentes com filtro de luz azul também é uma medida efetiva em pacientes que usem óculos e sendo particularmente importante em idosos acometidos por catarata, em que o tratamento é a retirada do cristalino opaco e inserção de uma nova lente, artificial.

Em suma, ainda que a luz azul seja um grande avanço na qualidade de vida humana, ela é capaz de causar diversos problemas à saúde e, por isso, medidas preventivas são importantes, uma vez que, ainda que incapazes de curar as doenças, podem diminuir a incidência das mesmas. Desta forma, o desenvolvimento e descobrimento de tais medidas deve continuar sendo buscado, para que possamos mudar as perspectivas em relação à futura incidência de problemas oftalmológicos.

Fonte: Ouyang et al. 2020. Publicado na revista Biomedicine and Pharmacotherapy.
Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0753332220307708?via%3Dihub

Enviado por: Augusto Y. Ueno, acadêmico de medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM.
Currículo Lattes:  http://lattes.cnpq.br/5505100996396257

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