Perda de peso é apontada como a principal responsável para melhora do diabetes tipo 2 após cirurgia bariátrica

A obesidade é uma doença crônica, caracterizada pelo excesso de gordura corporal, com prejuízos à saúde. A Organização Mundial de Saúde aponta a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública no mundo, sendo, provavelmente, a maior epidemia não infecciosa do século 21. No Brasil, a porcentagem de pessoas obesas cresceu de 11,8%, em 2006, para 19,8%, em 2018, sendo mais prevalente entre adultos de 25 a 34 anos, segundo pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde.

Apesar da crescente incidência, faltam tratamentos eficazes e duráveis para a obesidade, principalmente porque as mudanças no estilo de vida frequentemente falham. A cirurgia bariátrica, procedimento que consiste, basicamente, na diminuição do estômago, com o objetivo de redução do peso corporal, tornou-se um tratamento estabelecido e eficaz para a obesidade. Uma das técnicas cirúrgicas utilizadas para a redução do estômago é o bypass gástrico em Y de Roux que, além de limitar a ingestão de alimentos, também restringe a quantidade de calorias que o organismo absorve.

Mais de 40 doenças crônicas estão associadas à obesidade, incluindo o diabetes tipo 2, que se caracteriza por níveis elevados de glicose no sangue (a glicose é um carboidrato (açúcar) e é a principal fonte de energia para os organismos vivos). O diabetes tipo 2 é causado porque o corpo cria resistência à insulina (hormônio responsável por regular a entrada de glicose nas células), ou seja, o corpo não responde corretamente à ação da insulina e, por isso, o açúcar não entra nas células e se acumula na corrente sanguínea. A doença também pode ser causada porque as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina, não estão produzindo-a em quantidade suficiente para manter os níveis normais de glicose no sangue.

Estudos com indivíduos obesos, que foram submetidos à cirurgia bariátrica pela técnica do bypass gástrico em Y de Roux, demonstraram a eficácia deste método para o tratamento do diabetes tipo 2. Um estudo recente mostrou remissão completa do diabetes, após este procedimento, em 50 a 80% dos casos, principalmente em pacientes mais jovens. Em adultos com diabetes tipo 2, a mortalidade geral e a incidência de eventos cardiovasculares adversos foram menores entre aqueles que se submeteram à cirurgia bariátrica do que entre aqueles que não o fizeram. Além disso, a durabilidade da perda de peso e a remissão da pressão arterial elevada e dos níveis altos de glicose e lipídios (gorduras) no sangue foram relatadas após o bypass gástrico em Y de Roux. No entanto, os mecanismos que levam ao aumento da sensibilidade à insulina e à remissão do diabetes após a cirurgia não são claros, devido a conflitos de resultados e dados limitados entre os estudos existentes.

Com base nestas informações, foi desenvolvido um estudo com a finalidade de investigar se o bypass gástrico confere efeitos metabólicos terapêuticos, independentes da perda de peso, em pessoas com obesidade e diabetes tipo 2. Para isso, os autores avaliaram os reguladores metabólicos do controle da glicose, antes e depois da perda de peso induzida por uma dieta de baixa caloria (grupo da dieta) ou pela cirurgia bariátrica por bypass gástrico em Y de Roux (grupo da cirurgia), em 22 pacientes obesos com diabetes tipo 2. O desfecho primário analisado foi a mudança na sensibilidade à insulina no fígado, e os desfechos secundários foram mudanças na sensibilidade à insulina no músculo e tecido adiposo; função das células beta; resposta metabólica à ingestão de refeições mistas; perfis plasmáticos de 24 horas de glicose, insulina e ácidos graxos livres; e composição corporal.

No geral, os resultados mostraram que a sensibilidade à insulina no fígado, músculo e tecido adiposo aumentou após a perda de peso em ambos os grupos (dieta e cirurgia), sem diferenças significativas entre eles. A perda de peso aumentou a função das células beta e também foi associada a melhorias consideráveis na composição corporal (massa gorda, volume de tecido adiposo intra-abdominal e conteúdo de triglicerídeos intra-hepáticos) e nos perfis plasmáticos de glicose, ácidos graxos livres e insulina, em ambos os grupos, sem diferenças significativas entre eles. Em resumo, os dados mostraram que a perda de peso causou melhora considerável na capacidade da insulina em suprimir a produção e estimular a eliminação da glicose, de maneira semelhante nos dois grupos analisados. Este estudo confirma a natureza patogênica da obesidade em impulsionar a resistência à insulina e o desenvolvimento de diabetes tipo 2. Os dados sugerem que os benefícios metabólicos da cirurgia de redução do estômago foram, principalmente, resultado da perda de peso, trazendo, assim, uma mensagem importante de que reduzir o volume do tecido adiposo, por qualquer meio, pode melhorar o controle da glicose no sangue de pessoas com diabetes tipo 2.

Fontes:

Rosen e Ingelfinger. Publicado na revista The New England Journal of Medicine, em agosto de 2020.

Disponível em: https://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMe2024212

Yoshino e colaboradores. Publicado na revista The New England Journal of Medicine, em agosto de 2020.

Disponível em: https://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMoa2003697

Enviado por: MSc. Cibele Ferreira Teixeira – Doutoranda em Farmacologia, Universidade Federal de Santa Maria.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9457577413344566

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