Todos estamos expostos aos riscos do avanço do movimento antivacina

Nos anos de 1900, no Rio de Janeiro, ocorreu a “Revolta da Vacina”, na qual a população manifestou-se contra a vacinação por conta da falta de informação quanto aos benefícios da imunização e os efeitos que a vacina causaria. Nos dias atuais, um novo movimento antivacina vem se organizando, induzido não pela falta de informação, mas sim pelo aumento da desinformação, isto é, de fake news disseminadas nas mídias sociais. Nesse cenário, mesmo que existam sites com informações confiáveis, de acesso livre e gratuito, incluindo o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde, grande parte da população não acessa ou prefere acreditar em teorias da conspiração disseminadas por notícias falsas, via redes sociais.

Assim, apesar da importância da vacinação para garantia de saúde e prevenção às pessoas, as vacinas estão muitas vezes relacionadas a questionamentos e críticas sobre efeitos adversos, fazendo com que a população acredite em notícias falsas e adere aos movimentos contra vacinação. Por conta disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o movimento antivacinação entre os dez maiores riscos à saúde global.

Grande maioria desses movimentos utiliza estratégias de “associação temporal”, sem bases científicas e distorce informações para captar mais pessoas a partir do questionamento da eficácia e segurança de diversas vacinas. Por exemplo, uma notícia foi divulgada mostrando a ocorrência de casos de paralisia após a imunização com a vacina contra o vírus papiloma humano (HPV) ou que a vacina tríplice viral (sarampo-caxumba-rubéola) aumentou a ocorrência de autismo em crianças. No entanto, não há nenhum relato de relação a partir de análises científicas, apenas casos de temporalidade e possível coincidência, principalmente pelo fato da doença ser diagnosticada depois da aplicação da vacina, sem necessariamente haver uma relação de causa.

A expansão do movimento antivacina é refletida na queda das taxas de cobertura vacinal no país. Também, percebe-se isso nos surtos de determinadas doenças que poderiam ser prevenidas e estão cada vez mais frequentes, devido a não vacinação por conta de decisões individuais ou viagens de um ambiente com alta cobertura vacinal para outro com baixa cobertura. Devido a esse fenômeno, algumas doenças previamente controladas por programas de vacinação ressurgiram em diferentes partes do mundo. Em 2015, por exemplo, milhões de pessoas foram vacinadas contra a febre amarela no continente africano, todavia um surto da doença atingiu alguns países, afetando na maioria homens, devido a alta quantidade de homens que não fizeram tal vacina e a alta densidade populacional desse gênero.

No Brasil, algumas doenças que não existiam mais ou estavam controladas devido à adesão às vacinas voltaram a preocupar, como a poliomielite, uma doença causada por vírus que pode infectar crianças e adultos e em casos graves pode acarretar paralisia nos membros inferiores, que agora corre perigo de reintrodução em algumas cidades brasileiras. Além disso, o sarampo também causado por vírus, que compromete nosso sistema de defesa e “abre” a porta para outras infecções grave, teve um surto em 2018 no Brasil, inclusive com mortes. Neste momento de pandemia por coronavírus, o Brasil já teve mais de 3.500 casos de sarampo até maio de 2020, refletindo que em 2019 nenhuma meta de imunização em crianças de até 1 ano de idade foi alcançada.  

Dessa forma, percebemos que as consequências não são apenas para o indivíduo que decide não se vacinar, mas sim para a população inteira, já que podem reduzir a imunidade populacional, resultando em surtos e colocando áreas em risco de infecção. Recentemente uma pesquisa DataFolha revelou que, mesmo ainda não existindo uma vacina para Covid-19 disponível, 9% da população brasileira já não pretende se vacinar. No mesmo sentido, outra pesquisa Ibope mostrou que 25% da população se recusa ou tem incertezas sobre a imunização ao novo coronavírus.

Cabe ressaltar que as vacinas são rigorosamente testadas e monitoradas pelos seus fabricantes e pelos sistemas de saúde dos países onde são aplicadas. Para uma vacina ter licenciamento e comercialização é preciso estar regulada por instituições específicas e haver diversos estudos clínicos cuidadosos, caros, demorados e com voluntários credenciados.

Mesmo que algumas vacinas possam estar associadas ao aparecimento de reações e eventos adversos, como reações inflamatórias locais e alergias, a frequência é muito baixa, sendo inexpressivos quando comparados aos riscos relacionados a não vacinação. Assim, compreende-se que, dentre qualquer risco relacionado a vacinas, o pior é o de não se vacinar. É preciso buscar informações de fontes confiáveis , quanto mais as informações científicas chegarem  amplamente à sociedade, sem distorções dos possíveis efeitos colaterais e da eficácia das vacinas, mais população esclarecida a população será, e a imunização se tornará um ato de cidadania e cuidado.

Aps e colaboradores, 2018. Publicado na Revista de Saúde Pública da USP. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/rsp/v52/pt_0034-8910-rsp-S1518-87872018052000384.pdf

Hoffman e colaboradores, 2019. Publicado na Revista Vaccine. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0264410X19303032?via%3Dihub

Datafolha, 2020. Publicado no Jornal Folha de São Paulo. Disponível em: media.folha.uol.com.br/datafolha/2020/08/19/ad59b30674e3c9bc59f969b49b679fb2vac.pdf Ibope, 2020. Publicado no Jornal Estadão. Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,um-em-cada-quatro-brasileiros-resiste-a-ideia-de-tomar-vacina-contra-a-covid-19,70003427273

Enviado por: Gabriel da Silva Puhl, acadêmico do Curso de Enfermagem-UFSM.

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

vinte − dezenove =