As Forças Armadas Brasileiras na luta contra um inimigo invisível: SARS-COV-2

O SARS-CoV-2 é a nova forma de coronavirus, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus-2, responsável pela enfermidade Covid-19, declarada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como pandemia em 11 de março de 2020. As características que apresenta até o presente momento é de um vírus altamente infeccioso, patogênico, sem tratamento confirmado, nem vacina. Seus sintomas são semelhantes ao de uma gripe. Um pequeno percentual evolui para complicações respiratórias e cardíacas. A transmissão se dá principalmente por gotículas respiratórias durante tosse ou espirro de pessoas contaminadas.

No Brasil o aumento no número de contágios e mortes também vem acompanhado do aumento de número de casos recuperados. Isto se deve ao trabalho conjunto dos Órgãos de saúde, Segurança pública e das Forças armadas bem como da população no combate ao vírus.

Na publicação da Portaria nº 1232/GM-MD de 18 de março de 2020, aprovou  a Diretriz Ministerial de Planejamento nº 6/GM/MD regulamentando o “emprego das Forças armadas em todo território nacional para apoio as medidas deliberadas pelo Governo Federal voltadas para mitigação das consequências da pandemia Covid-19” declarada Emergência em Saúde Pública. Entre as ações solicitadas está a utilização dos meios de Defesa Nuclear, Biológica, Química e Radiológica (DefNBQR) para descontaminação de material, pessoas e ambientes. Com este acionamento do Ministério da Defesa às Forças armadas (Marinha, Exército, Aeronáutica e Comandos Conjuntos) ativaram o Centro de Operações Conjuntas (COC) em Brasília para coordenar as ações a nível nacional e outros 10 comandos conjuntos. A partir de então através da Diretriz Ministerial de Execução nº7/2020 se pôs em marcha à nível nacional a chamada Operação Covid-19.

Para entender o trabalho desenvolvido pelos militares nesta Operação vale salientar como se deu o surgimento do Sistema de Defesa Nuclear, Biológico, Químico, Radiológico (SisDefNBQR) no Brasil.

Em 1972 ocorreu a Convenção para proibição de armas biológicas e tóxicas (CPAB) proibindo o desenvolvimento, produção, estocagem, transferência, aquisição e o uso dessas armas e determinando sua destruição. A origem da DefNBQR na Marinha do Brasil (MB) inicia com pesquisas feitas pelo almirante Álvaro Alberto sobre energia nuclear e com o desenvolvimento do Programa Nuclear da Marinha. Essa atividade da DefNBQR  passou a ser requisito em 1970 a construção de ambientes onde se trabalhavam com alguns desses agentes, cidadelas pressurizadas, estação de descontaminação, etc. A criação do Serviço de Medicina Nuclear do Hospital Naval Marcilio Dias atendeu vítimas por exemplo, do acidente com Césio 137 em Goiânia, no ano 1987, e é referência em América Latina para radio acidentados.

Criou-se em 2010 a Companhia de Defesa Química, Biológica e Nuclear de ARAMAR  e diante de grandes eventos públicos que o Brasil sediaria se propôs a criação do SisDefNBQR da MB. Este encontra-se composto por organizações com atividade operacional, logística, de inteligência, capacitação de pessoal no combate a essas emergências. Encontra-se divido em 5 níveis:

1º: composto por um ou mais militar especializado em DefNBQR para comandar as medidas de ação concernentes a emergências. Desenvolvido em cada Organização Militar (OM). Trabalham para prevenção com atividades de capacitação, palestras, planejamento, e assessoramento ao comandante da OM em resposta a emergência;

2º: é a Equipe de Resposta, responsável pela “identificação dos agentes, delimitação de área afetada, predição do deslocamento da nuvem de contaminantes e descontaminação da própria equipe” (Xerém; Gonçalves; Neves; Alegramandi, 2019, p.16). Desenvolvida em cada Distrito Naval, cada equipe apresenta um oficial, três sargentos, 12 cabos/soldados. São qualificados, e atuam com Equipamentos de proteção Individual (EPIs), detectores e equipamentos para descontaminação.

3º: consubstanciado por Companhia de Defesa NBQR (CiaDefNBQR) atuam como apoio aos Grupamentos Operativos de Fuzileiros Navais em todo Brasil, em condições logísticas para evacuação de vítimas.

4º: se destina ao Centro Industrial Nuclear ARAMAR. Em 2015 foi formado nesse nível o Centro de Defesa NBQR (CDefNBQR) para coordenação sistemática, além da condução de testes, pesquisas cientificas relacionadas a temática, permitindo à MB seguir liderando este setor no Ministério da Defesa do país. Este CDefNBQR conta também com uma equipe multidisciplinar composta por militares e servidores civis de OM colaboradoras.

Com o surgimento do SARS-Cov-2, estes sistemas tem voltado suas ações contra o vírus, agrupando-o em agentes biológicos. Estes são microorganismos (bactérias, fungos, protozoários, toxinas, vírus, entre outros) incluindo os geneticamente modificados, e os vírus ainda que alguns pesquisadores não o considerem organismos vivos também entram neste grupo. Os mesmos seriam utilizados para matar ou adoecer uma população, como exemplo temos o Antraz, a Peste bubônica, Ebola. Atualmente se põe em discussão, que o tempo e novas pesquisas responderão, se o SARS-Cov-2 teria sido utilizado com estes fins ou se tratou de uma mutação natural.

Relatos históricos de guerra biológica, como a Guerra do Vietnã (1959-1975), quando se usou estaca de madeira ou bambu contaminado com fezes no caminho de tropas inimigas, em outubro de 2001 quando 5 pessoas morreram após receberem cartas contaminadas com Antraz nos Estados Unidos. Estes e outros atos atrozes levaram à construção do Protocolo de Genebra e a Convenção para proibição de Armas Bacteriológicas, mas o problema é que não se realizaram inspeções nem controle do desarmamento nos países membros, seguindo novos casos.

Os meios de disseminação de agentes biológicos pode ocorrer através de: aerossol, ao tossir, espirrar, falar; vetores artrópodes, como mosquitos, pulgas, piolhos, carrapatos entre outros ou sabotagem, com aplicação direta sobre o alvo. Esse agente apresenta características que facilitam sua ação, que é a capacidade de cobrir grandes áreas, são difíceis de detectar, alta capacidade de disseminação, difícil eliminação e são afetados por condições meteorológicas. Daí também a importância do treinamento dos guerreiros da selva, dado pelo major Cristiano e o sargento Francivaldo, que se deslocam em missões de resgate e salvamento em ambientes inóspitos e de difícil acesso em matas e florestas.

Tendo em vista estas características do vírus e o que se foi delegado pelo Ministério da Defesa às Forças Armadas, iniciou-se as ações do SisDefNBQR no Amazonas, sobre o comando do 9º Distrito Naval, desempenhando função através do Batalhão de Operações Ribeirinhas, com treinamento de profissionais para execução da Operação Covid-19. Com uma equipe de instrução composta por integrantes da Marinha do Brasil, suboficial Aguiar, Alencar, Macedo, Nunes, bem como os sargentos Callegario, Silva, Queiroz, Poncio, Araújo, Santos e Oliveira. O coronel Bianor participou de publicações recentes de normas e protocolos de segurança em DefNBQR e Covid19 nos Boletins Gerais. O curso realizado, contou com o preparo teórico-prático da equipe em treinamento, professionais do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM).

Treinamento dos profissionais

As Forças Armadas Brasileiras na luta contra um inimigo invisível: SARS-COV-2 2

Descontaminação

O combatente NBQR é o único profissional que pode executar a descontaminação. No caso para a Operação Covid-19 os mesmos foram capacitados diante desse novo inimigo. Além de todo aporte teórico o curso contou com um estágio NBQR tendo como um de seus objetivos o de: “localizar áreas e equipamentos contaminados e realizar marcação, delimitação e sinalização da área, impedindo que outras pessoas se contaminem”.

O objetivo da descontaminação é a redução ou eliminação dos efeitos de agentes NBQR sobre a equipe, equipamentos ou áreas, tornando a área inofensiva para pessoas desprotegidas, removendo, absorvendo ou destruindo o agente contaminante.

É uma atividade exclusiva de pessoal habilitado da DefNBQR onde existem casos confirmados. Nisso se diferencia quanto a Desinfecção, que é rotineiro e de suma importância para a prevenção, e realizado por pessoal de bordo, com “uso de produtos químicos para matar germes em superfícies”, segundo o Protocolo para a desinfecção de organizações militares contra a covid-19 (2020).

A Anvisa dispões de recomendações sobre desinfecção em locais públicos durante a pandemia. Devido a propagação do vírus por contato com superfície ou objeto contaminado, se recomenda somente limpeza seguida de desinfecção de objetos e superfícies como forma de prevenção, a desinfecção de ambientes externos é recomendado só em pontos da cidade de maior circulação, sendo necessário a proteção dos trabalhadores e treinamento da equipe responsável de realizar os procedimentos (Nota técnica nº22/2020/SEI/COSAN/GHCOS/DIRE3/ANVISA). A desinfecção deve ser efetuada em áreas, superfícies, equipamentos eletrônicos, aparelhos de ar condicionado, entre outros onde o vírus se pode depositar.

Em caso da necessidade de Descontaminação, deve ser feita “tão logo quanto possível”; “tão afastado quanto possível”, a instalação do Posto de Descontaminação NBQR (PdesconNBQR) deve estar afastado da tropa mas não muito distante de uma Área de Apoio Logístico (AApL); e realizado conforme “prioridade” atendendo primeiro o que foi determinado em principio como missão e se surgem outras necessidades se deve discutir tempo, pessoal e material.

Os descontaminantes utilizados são desde os naturais até os químicos. Como descontaminantes naturais temos a “luz e o calor”, que desidratam agentes biológicos; “umidade relativa e precipitação; agua; enterramento; queima”, todos estes dão resultados parciais ou totais na eliminação de agentes biológicos. Como descontaminantes químicos são usados os em forma de vapor ou aerossóis, como BPL(Beta-propili-lactona)  um descontaminante biológico padrão para descontaminação de interiores, Formaldeído ou Formalin para descontaminação de exteriores; os líquidos e secos, são Solução DANC, que destrói maioria dos agentes biológicos, hipoclorito de sódio (agua sanitária), para descontaminação de utensílios e tecidos de algodão, Iodo, agua e sabão (na descontaminação de pele, roupas e material individual), entre outros.

A operação encontra-se organizada em escalões: o 1º escalão é o individual, com descontaminação sobre si mesmo e seus equipamentos; 2ºescalão é em viaturas, equipamentos, aeronaves, armamentos; 3º escalão em Bases Navais (em caso de navios por exemplo), e é realizado pelo Posto de Descontaminação (leve, de viaturas ou de navios).

Para isolamento a área de contaminação se divide em 3 zonas: quente- local onde ocorrem as operações de descontaminação, em perigo de contaminação; morna- é a zona intermediaria; fria- sem risco de contaminação, onde se monta o Posto de Descontaminação total. Após detecção do perigo a equipe é responsável pela sinalização no local como advertência do perigo, obtenção de informação sobre a extensão da área contaminada e sua restrição.

Uso de Equipamento de proteção individual e respiratório (EPI/EPR)

Esses equipamentos de uso obrigatório durante as operações são responsáveis pela proteção da equipe tanto contra o agente contagiante como contra substancias químicas utilizadas contra ele. Conhecer a forma correta de utilizar esses equipamentos bem como sua função contribui para bons resultados durante a ação. Agrega-se ao caso do SARS-Cov-2 também a importância dos equipamentos respiratórios, devido a sobrevida do vírus no ar. Como exemplo temos a máscara contra gases, com filtro (N95, 99, R95), as cirúrgicas. Ademais a necessidade de óculos de proteção, luvas de procedimento, de proteção, macacão de proteção com ou sem bota acoplada, capuz, bota em PVC entre outros. Prezando que “La seguridad es el pilar fundamental del ejercicio profesional durante las urgencias y emergências” (Barcala-Furelo et al, 2020).

Desafios na pratica

O cabo Fabricio Ramos, um dos que participaram do estágio, voltado aos profissionais do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) questionado sobre os principais desafios que encontrou durante o Curso NBQR e na pratica, ao ter que aplicar os conhecimentos adquiridos, relata que “esse estágio realizado pela Marinha do Brasil é voltado para uma guerra biológica, considerado um curso de produtos perigosos, nós tivemos que adaptar o que aprendemos durante o curso agora voltado à pandemia do Covid-19. Esse foi o maior desafio que tive que encarar na necessidade de adequarmos novos materiais. Conseguimos junto com nossos parceiros, a Anvisa, adquirir estes materiais (EPIs), como o soprador, bombas costais. Tivemos que adequá-los devido à escassez de EPIs no país e no mundo, por exemplo na falta de mascaras para produtos perigosos, utilizamos a máscara Face Shield, N95; a roupa encapsulada que deveríamos utilizar a nível máximo de proteção, tivemos que utilizar o macacão Tyvek. O curso foi de grande valia, nos ensinou muitas coisas, porém o mais interessante foi termos que aguçar a mente para adaptar o que aprendemos, novos métodos, a serem aplicados no nosso dia a dia.” Um dos instrutores do curso, oficial Aguiar, sobre sua visão e desafios como instrutor da DefNBQR no preparo da equipe diante do cenário de saúde atual, afirma “é um prazer ministrar este curso com ênfase em Covid-19 para alunos de outras instituições militares a fim de prepara-los para o enfrentamento ao Covid-19”.

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

ANVISA. NOTA TÉCNICA Nº 22/2020/SEI/COSAN/GHCOS/DIRE3/ANVISA. Recomendações e alertas sobre procedimentos de desinfecção em locais públicos realizados durante a pandemia da COVID-19.

BARCALA-FURELOS, Roberto et al. Recomendaciones de salud laboral para socorristas ante emergencias acuáticas en la era covid-19: prevención, rescate y reanimación. Rev. Esp. Salud Pública. 2020, vol.94, pp.1-17.

MARINHA DO BRASIL, CDefNBQR. Protocolo para a desinfecção de organizações militares contra a covid-19. 2020.

MINISTERIO DA DEFESA. PORTARIA N° 1.272/GM-MD. Diário oficial da união, 20 de março de 2020.

MINISTERIO DA DEFESA. PORTARIA Nº 1.232/GM-MD. Diário oficial da união, 18 de março de 2020.

XERÉM, Marcio; GONÇALVES, Alexandro; NEVES, Laura; ALEGRAMANDI, Victor. Laboratório fixo de análises químicas da Marinha do Brasil: sua importância para o Brasil. Rev. do Corpo de Fuzileiros Navais. 2019, vol.37, pp.12.

Enviado por:

Danízio Valente Gonçalves Neto

CEL QOBM (Comandante Geral do CBMAM) Manaus- AM

Elenildo Rodrigues Farias

CEL QOBM (Subcomandante Geral do CBMAM) Manaus- AM

Jair Ruas Braga

CEL QOBM (Chefe do Estado Maior Geral do CBMAM) Manaus- AM

Bianor da Silva Corrêa 

CEL QOBM (Ajudante Geral do CBMAM) Manaus- AM

Erick de Melo Barbosa  

TC QOBM (Comandante do BBE – Batalhão de bombeiros Especiais) Manaus- AM

José Guilherme de Almeida Sampaio

MAJ QOBM (Gerente de Ensino do Campus IV-IESP)

José Ricardo Cristie Carmo da Rocha

MAJ QOBM (Chefe do BM1/BM2) Manaus- AM

Cristiano Braz Ferreira

MAJ QOBM

Milca Telles dos Santos

2° Tenente QCOBM – Quadro Complementar de Oficiais de Bombeiros Militar

Raquel de Souza Praia

2° Tenente QOBM (Gabinete do Subcomandante Geral- Comissão Covid19) Manaus- AM

Nélio Gomes de Oliveira

2ºSGT QPBM

Francivaldo Santos da Rocha

2ºSGT QPBM

Aline Campos Dinelly Xavier

CB QPBM (Administrativo do Gabinete do Subcomandante Geral do CBMAM)

Fabrício Ramos Rozas

CB QPBM (Administrativo do Gabinete do Subcomandante Geral do CBMAM)

Euler Esteves Ribeiro

Reitor da FUNATI e coordenador da parceria com o BBE – Batalhão de Bombeiros Especiais/ CBMAM

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