Máscara facial protege mesmo? Saiba o que os estudos mostram

As máscaras faciais se tornaram o símbolo onipresente de uma pandemia que já deixou mais de 35 milhões de pessoas infectadas e matou mais de 1 milhão. Sabe-se que em hospitais e outras instalações de saúde, o uso de máscaras é capaz de reduzir a transmissão do vírus SARS-CoV-2. Porém, em se tratando de uso pelas pessoas em geral, os dados são confusos, díspares e muitas vezes distorcidos por discursos políticos. Nesse contexto, é necessário destacar que a ciência apóia o uso de máscaras, com estudos recentes sugerindo que elas podem salvar vidas de diferentes maneiras: pesquisas mostram que elas reduzem as chances de transmitir e pegar o coronavírus, e alguns estudos sugerem que as máscaras podem reduzir a gravidade de infecção se as pessoas contraírem a doença. No início da pandemia, os especialistas não tinham boas evidências sobre como o vírus se espalha e não sabiam o suficiente para fazer recomendações de saúde pública fortes sobre as máscaras. Além disso, havia hesitação sobre o esgotamento dos suprimentos para os profissionais de saúde, o que fez com que a recomendação oficial do uso de máscaras pela Organização Mundial de Saúde (OMS) só ocorresse em junho desse ano. Assim, questões como “qual máscara devo usar, as cirúrgicas básicas ou as de tecido? Se assim for, sob quais condições?” começaram a ser levantadas pelas pessoas e pesquisas começaram a ser desenvolvidas a fim de sanar as dúvidas. Neste contexto, um estudo publicado no início de agosto descobriu que os aumentos semanais na mortalidade eram quatro vezes mais baixos em locais onde as máscaras eram a norma ou recomendadas pelo governo, quando comparada com outras regiões que não tinham essa recomendação. Os pesquisadores analisaram 200 países, incluindo a Mongólia, que adotou o uso de máscara em janeiro e, até maio, não havia registrado nenhuma morte relacionada à COVID-19. Outro estudo analisou os efeitos das determinações do governo de um estado dos Estados Unidos para o uso de máscaras em abril e maio. Os especialistas estimaram que isso reduziu o crescimento de casos da COVID-19 em até dois pontos percentuais por dia. Apesar dos ótimos resultados das pesquisas, é preciso atentar para o fato de que muitas vezes o uso de máscara coincide com outras mudanças de comportamento, tal como distanciamento social. Assim, para controlar as variáveis de confusão, estudos estão sendo feitos também em animais. Pesquisadores de Hong Kong alojaram hamsters infectados e saudáveis em gaiolas adjacentes, com divisórias de máscara cirúrgica separando alguns dos animais. Sem barreira, cerca de dois terços dos animais não infectados contraíram o SARS-CoV-2, de acordo com o artigo publicado em maio. Mas apenas cerca de 25% dos animais protegidos por material de máscara foram infectados, e aqueles que o fizeram estavam menos doentes do que seus vizinhos sem máscara. As descobertas fornecem justificativa para o consenso de que o uso de máscara protege o usuário e também as outras pessoas, mas, além disso, sinaliza que a máscara pode não apenas proteger o indivíduo de infecções, mas também de doenças graves. Tal afirmação tem respaldo em um estudo publicado em julho, sugerindo que o uso da máscara reduz a quantidade de vírus que o usuário pode receber, resultando em infecções mais leves ou mesmo assintomáticas. Isso é importante porque se mais pessoas tiverem casos leves, maior será a imunidade no nível da população sem que haja aumento na ocorrência de doenças graves e mortes. Em se tratando do material de que é feito a máscara, estudos mostraram que as máscaras de tecido cirúrgicas e comparáveis são 67% eficazes na proteção do usuário. Quanto às de tecido, apesar de faltarem pesquisas para dados mais precisos, sabe-se que múltiplas camadas são mais eficazes e quanto mais apertada a trama do tecido, melhor. Além disso, outro estudo descobriu que máscaras com camadas de diferentes materiais – como algodão e seda- podem captar aerossóis (isto é, partículas microscópicas que são eliminadas durante a respiração, fala, espirro ou tosse) com mais eficiência do que aquelas feitas de um único material. Ainda, é preciso destacar que o comportamento humano é fundamental para o funcionamento das máscaras no mundo real.  Algumas evidências sugerem que colocar a máscara facial pode levar o usuário e as pessoas ao seu redor a aderirem melhor a outras medidas, como o distanciamento social, sugerindo a criação de uma responsabilidade compartilhada. Assim, não restam dúvidas que as máscaras são um pilar extremamente importante no controle da pandemia, apesar de sabermos que elas não são infalíveis. Ainda assim, manter a distância e seguir as recomendações de higiene pessoal devem ser prioridade na prevenção à infecção pelo novo coronavírus.

Fonte: Lynne Peeples. Publicado na Revista Nature, 2020.
Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-020-02801-8

Enviado por: Tanize Louize Milbradt, acadêmica do Curso de Medicina e aluna de iniciação científica Laboratório Biogenômica – UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9501880936037755

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