O licopeno presente em frutas e legumes pode ser um aliado no combate a doenças cardiovasculares?

As doenças crônicas não transmissíveis, como câncer e doenças cardiovasculares, estão entre as principais causas de morte no mundo. Nesse contexto, é importante lembrar que, além de fatores como genética e idade, boa parte dos cânceres, mais precisamente cerca de 75% deles, estão relacionados ao estilo de vida. Inclui-se como estilo de vida a nossa alimentação, que pode ser protetora das nossas células quando baseada em frutas, verduras, carboidratos e proteínas de boa qualidade, ou pode ser “destruidora” e facilitadora do câncer quando baseada em frituras, açúcar e produtos industrializados em geral. Isto tem a ver com um processo chamado estresse oxidativo.

Vamos tentar compreendê-lo. Espécies reativas de oxigênio são moléculas oxidantes altamente reativas que são geradas pelo organismo através da atividade metabólica regular para formação do ATP, que é a moeda energética das nossas células. Parte do oxigênio forma estas espécies reativas de oxigênio que, em níveis baixos (quantidade fisiológica), são importantes para a sinalização entre as nossas células. Entretanto, quando espécies reativas de oxigênio são geradas em altas quantidades, elas reagem com as células danificando-as, e, conforme evidências, esse dano pode desempenhar um papel significativo no aparecimento de várias doenças crônicas.  É como se as espécies reativas enferrujassem nossas células. O que acontecesse a nível celular é muito semelhante ao que a ferrugem faz com as barras de ferro.

Já os antioxidantes são agentes protetores que inativam as espécies reativas de oxigênio e, portanto, retardam significativamente ou previnem danos oxidativos. Alguns estão naturalmente presentes nas células humanas, enquanto outros podem ser adquiridos via alimentação, como a vitamina E, a vitamina C, os polifenóis e os carotenoides. Para auxiliar no combate de doenças crônicas, recomenda-se a ingestão de alimentos ricos em antioxidantes, como é o caso do tomate, que parece ter uma ampla gama de propriedades anticâncer e de prevenção a doenças cardiovasculares, o que explica os indícios de que dietas ricas em frutas e hortaliças estão associadas a um risco reduzido de inúmeras doenças crônicas. 

O licopeno é uma molécula da classe dos carotenoides que está presente no tomate em seus derivados e em outras frutas. Ele é um pigmento natural que, embora não seja sintetizado por animais, é sintetizado por plantas e microrganismos e é um dos mais potentes antioxidantes de sua classe. Por esse motivo, a ingestão dietética de tomates e produtos de tomate contendo licopeno tem se mostrado associada a uma diminuição do risco de doenças crônicas, como câncer e doenças cardiovasculares. No entanto, algumas evidências destacam que não somente a ação antioxidante do licopeno seja responsável por todos esses benefícios, mas que existam, também, outros mecanismos envolvidos.

O licopeno age em diversas rotas do organismo, destacamos aqui sua importância em reforçar a p53, uma proteína considerada guardiã genoma, é responsável por a cada replicação celular conferir se está tudo certo, e se a célula tem condições de sobreviver sem prejudicar o organismo. A p53 faz uma espécie de triagem se a célula representar algum possível risco ao organismo, induzindo-a à morte ou ao reparo, quando possível. O licopeno ainda age no fígado potencializando o citrocromo p450, relacionado a desintoxicação.

O licopeno tem sido uma hipótese na prevenção do câncer e de doenças cardiovasculares, pois protege biomoléculas celulares importantes, como lipídios, lipoproteínas, proteínas e DNA. Em indivíduos humanos saudáveis, dietas sem licopeno (ou tomate) resultaram em perda de licopeno e aumento da oxidação lipídica, enquanto a suplementação via dieta com licopeno por 1 semana aumentou os níveis do soro de licopeno e reduziu os níveis endógenos de oxidação de lipídios, proteínas, lipoproteínas e DNA. Além disso, pacientes com câncer de próstata apresentaram baixos níveis de licopeno e altos níveis de oxidação de lipídios e proteínas no sangue.

O que já se sabe sobre os benefícios da ingestão de licopeno?

Em relação ao risco de câncer:

A ingestão dietética de tomates e derivados tem sido associada a um menor risco de uma variedade de cânceres em diversos estudos epidemiológicos. A dieta mediterrânea, por exemplo, rica em vegetais e frutas, incluindo tomates, tem sido sugerida como responsável pelas menores taxas de câncer naquela região. Além disso, nos EUA, a alta ingestão de tomates esteve ligada a efeitos protetores contra cânceres do trato digestivo e uma redução de 50% nas taxas de morte por câncer em todos os locais da população idosa dos EUA. Nos resultados do Estudo de Acompanhamento dos Profissionais de Saúde dos EUA foi demonstrado que ingestão de licopeno e de vários produtos de tomate estava inversamente relacionada ao risco de câncer de próstata, e esse resultado não foi associado a nenhum outro tipo de carotenoide utilizado no estudo. Para frequências de consumo de 10 ou mais porções de produtos de tomate por semana foi observado uma redução de 35% no risco de câncer de próstata, sendo os efeitos mais fortes percebidos em estágios avançados e agressivos. Em estudos recentes, os níveis de soro e tecido de licopeno mostraram-se inversamente associados ao risco de câncer de mama e de próstata; essa associação não foi observada em outros carotenoides.

Em uma revisão de 72 estudos epidemiológicos, 57 deles evidenciaram associação inversa entre a ingestão de tomate e derivados ou níveis de licopeno sanguíneo e câncer, sendo que em 35 casos a associação foi significativa e nenhum dos estudos mostrou efeitos adversos da alta ingestão de tomate ou de altos níveis de licopeno. Embora as evidências sejam significativas, não se pode dizer que o papel do licopeno no combate ao câncer é comprovado, já que existem poucos estudos sobre o assunto, e a maioria dos estudos investigou os efeitos sobre danos oxidativos a biomoléculas.

Risco de doenças cardiovasculares:

A oxidação de lipoproteínas de baixa densidade, que transportam colesterol para a corrente sanguínea, pode desempenhar um papel importante na causa da aterosclerose. Por esse motivo, a ação de antioxidantes pode retardam a progressão de doenças cardiovasculares, como a aterosclerose.

Alguns estudos atribuem à vitamina E o papel antioxidantes, mas um estudo de Avaliação de Prevenção de Desfechos Cardíacos (HOPE) recentemente concluído, evidenciou que a suplementação com 400 UI/d de vitamina E por 4,5 anos não resultou em efeitos benéficos sobre cardiopatias em pacientes de alto risco. Em contrapartida, outros estudos indicaram que, ao contrário da vitamina E, o consumo de tomate e produtos de tomate contendo licopeno reduziu o risco de doenças cardiovasculares. 

Em um estudo de controle de caso multicêntrico completo, foi avaliada a relação entre estado antioxidante e infarto agudo do miocárdio em pacientes de 10 distintos países europeus, e seu resultado evidenciou que, após o ajuste para uma série de variáveis dietéticas, apenas níveis de licopeno foram considerados protetores. Além desse, um estudo da Universidade Johns Hopkins mostrou que fumantes com níveis mais baixos de licopeno no sangue foram associados ao aumento do risco e morte por doença arterial coronariana em um estudo que comparou populações lituanas e suecas com diferentes taxas de morte por doença arterial coronariana.

Função Cognitiva

Com o envelhecimento, é comum que existam diminuições na função cognitiva dos indivíduos, muitas vezes associadas ao aumento do estresse oxidativo e de neuroinflamações. Atualmente, devido ao aumento da expectativa de vida, doenças do envelhecimento são cada vez mais comuns, como o caso da demência, condição representada por perda de memória, de linguagem, de foco, dificuldade na resolução de problemas e déficit visual e é tipicamente representada pelo Alzheimer. Nesse sentido, sabendo que o licopeno exerce função de antioxidante e combatente de espécies reativas de oxigênio, alguns estudos propuseram uma relação entre a ingestão dietética de licopeno ou de seus níveis circulantes e a manutenção da função cognitiva. Além disso, um desses estudos relatou associações significativas entre a redução do licopeno circulante e taxas mais altas de mortalidade por Alzheimer.

O licopeno age suprimindo a produção de citocinas inflamatórias inibindo a apoptose neuronal e restaurando a função mitocondrial. Por esse motivo, essa molécula tem o poder de atenuar os sintomas descritos e ser um aliado na manutenção da função cognitiva, embora as evidências atuais sobre a relação entre o licopeno e a cognição em humanos ainda não estejam inteiramente comprovadas, e as pesquisas nesta área ainda sejam escassas.        

Em vários dos diferentes estudos analisados, níveis baixos de licopeno no plasma sanguíneo foram correlacionados com baixo nível cognitivo. Em contrapartida, nenhum dos estudos demonstrou relação entre os níveis de licopeno e desenvolvimento de demência futuramente, embora os níveis de licopeno plasmático sejam menores nos pacientes já diagnosticados com demência.

Onde encontrar licopeno?

O licopeno está presenta em várias frutas e legumes vermelhos, como tomates, melancias, toranjas rosas, damascos e goiabas rosa. Além disso, produtos derivados de tomate também são fontes dessa molécula.  Curiosamente, de acordo com os estudos realizados, o licopeno de produtos de tomate processado parece ser mais biodisponível do que o do tomate cru, já que a liberação do licopeno da matriz alimentar é facilitada devido ao processamento, a presença de lipídios dietéticos e a isomerização induzida pelo calor, transformando a molécula trans, em cis. Outras evidências também indicam que o licopeno tem sua biodisponibilidade aumentada quando ingerido juntamente com outros carotenoides.

É importante lembrar que as evidências até agora encontradas são principalmente sugestivas e não estão claramente comprovadas. Em razão disso, outras pesquisas são fundamentais para elucidar o papel do licopeno e formular diretrizes para alimentação saudável e prevenção de doenças.

Fonte: Agarwal S, Rao AV. Licopeno de tomate e seu papel na saúde humana e doenças crônicas. O CMAJ. 2000 Set 19;163(6):739-44. PMID: 11022591; PMCID: PMC80172.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11022591/

Crowe-White, Kristi M et al. “Lycopene and cognitive function.” Journal of nutritional science vol. 8 e20. 29 May. 2019, doi:10.1017/jns.2019.16
Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6558668/

Enviado por: Júlia Diettrich Traesel – UFSM
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1094747370794264

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