Por que homens, desenvolvem casos mais graves da Covid-19?

Os interferons são proteínas produzidas pelas células de defesa do corpo humano com o intuito de destruir vírus, bactérias e células tumorais. Dessa maneira, são moléculas muito importantes na resposta imunológica contra o vírus SARS-CoV-2, principalmente um subtipo denominado interferon tipo I, e por esse motivo, seu mal funcionamento pode explicar porque algumas pessoas desenvolvem quadros mais graves da Covid-19.

Um estudo divulgado recentemente na revista Science, realizado pela equipe de Jean-Laurent Casanova, geneticista de doenças infecciosas da Rockefeller University, afirmou que cerca de 10% das pessoas com casos graves de Covid-19, no mundo todo, possuem uma forma de interferon tipo I que se tornou disfuncional após o ataque por anticorpos nocivos, o que fez com que os sistemas imunológicos desses pacientes ficassem menos responsivos ao ataque pelo vírus e mais suscetíveis a quadros preocupantes. Além disso, 94% desses casos eram homens, o que explica em parte porque o sexo masculino está mais suscetível à infecção grave por SARS-CoV-2.

 Nesse sentido, para chegar a essa conclusão a equipe do geneticista examinou amostras de sangue de 987 pacientes em quadros graves de Covid-19 de diversos lugares do mundo. Encontrou-se que 10,2% dos pacientes tiveram o interferon tipo I neutralizado por anticorpos e assim, experimentos laboratoriais mostraram que as células de defesa não foram capazes de conter a infecção, visto que o interferon estava comprometido. E ainda, um pequeno subgrupo dessas pessoas possuía níveis extremamente baixos do interferon no plasma. Já no grupo controle, composto por 663 pessoas com infecção leve ou assintomática pelo vírus, os anticorpos nocivos não foram encontrados. Portanto, uma pequena parcela dos casos graves da doença parece ser explicada por reações autoimunes. Esse fato interessou os cientistas, já que segundo a imunologista pediátrica do University Hospitals Leuven, Isabelle Meyts, a Covid-19 é a primeira doença infecciosa explicada por fatores produzidos pelo próprio corpo humano.

Essa pesquisa pode auxiliar no surgimento de novos tratamentos para pacientes com a doença, visto que os interferons sintéticos podem ser uma possibilidade de terapia para tratar pessoas com casos graves de Covid-19, como já são usados em outras doenças. Além disso, poderão ser criados testes rápidos para reconhecer a existência dos anticorpos nocivos no corpo do paciente, e assim essa pessoa poderá receber a vacina primeiro, se isolar ou realizar uma terapia para retirar esses anticorpos da circulação.

Um outro artigo publicado na revista Science, sequenciou o DNA de 659 pacientes com casos graves de Covid-19 e de 534 com quadros leves e assintomáticos da doença. Os 13 genes examinados foram os relacionados com a produção ou ação do interferon no corpo e os que ao serem mutados aumentam a gravidade e risco de morte de infecções virais e quadros gripais. Os resultados mostraram que 3,5% dos pacientes com quadros muitos sérios possuíam mutações raras em pelo menos 8 desses genes e nenhuma mutação foi encontrada nos pacientes do grupo controle, que eram os casos leves e sem sintomas. Ademais, foi feita a pesquisa de interferon no sangue de pacientes muito graves com amostras disponíveis e foram encontradas concentrações muito baixas. Dessa forma, os pesquisadores acreditam que as infecções graves por SARS-CoV-2 podem estar relacionadas com mutações em genes que se relacionam com o interferon e em outros também.

Ademais, Elina Zuniga, imunologista que estuda interferons na Universidade da Califórnia, afirmou que nenhum dos pacientes que foram positivos para as mutações ou que produziram anticorpos contra o interferon tipo I possuíam histórico prévio de infecções virais que necessitaram de internação, o que mostra que o interferon tipo I é mais importante para combater o SARS-CoV-2 do que as outras doenças virais. Nesse sentido, tentar terapias que aumentem a resposta desse interferon em pacientes com Covid-19 pode ser interessante.

Contudo, ainda há a possibilidade desses anticorpos reativos serem uma consequência das infecções graves e não a causa delas. Portanto, mais pesquisas são necessárias para correlacionar esses dois eventos que acontecem em pacientes graves e assim desenvolver novas terapias.

Fonte:  Meredith Wadman e colaboladores. Artigo publicado na Revista Science em 24 de setembro de 2020.
Disponível em: https://www.sciencemag.org/news/2020/09/hidden-immune-weakness-found-14-gravely-ill-covid-19-patients

Enviado por: Carolina Rodrigues de Freitas, acadêmica do curso de Medicina e aluna de iniciação científica do Laboratório de Biogenômica – UFSM
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3517267337571320

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