Saúde das Minorias Sexuais

É inegável que vivemos em uma sociedade em que a pauta de minorias sexuais está cada vez mais em voga e os avanços nos direitos para a comunidade LGBTQIA+ vêm crescendo. No entanto, muitos estudos recentes ainda mostram grandes disparidades em quesitos como saúde mental, vida social e saúde física de pessoas que se encaixam nesse grupo. Em uma pesquisa LGBT feita pelo Government Equalities Office do Reino Unido em 2018, onde o casamento entre pessoas do mesmo sexo já é legalizado desde 2013, dois-terços dos participantes responderam que evitam ficar de mãos dadas em público por medo de reação negativa de outras pessoas, indicando como ainda existe um alto nível de discriminação na sociedade; mesmo em um país desenvolvido e de alta renda, onde se poderia pensar na existência de um ambiente mais progressivo em relação às minorias sexuais.

A discriminação é enfrentada por esse grupo em todos os momentos da vida, mas além disso existem dilemas internos que podem complicar alguns períodos. A adolescência é um momento muito importante no desenvolvimento humano, sendo um momento em que ocorrem muitas mudanças biológicas e psicológicas, ao mesmo tempo em que existem muitas demandas sociais. Nesse período, adolescentes de minorias sexuais estão particularmente vulneráveis, por estarem mais expostos a vitimização e ter de navegar no entendimento de sua identidade sexual. Todo os fatores de vitimização sofridos por minorias sexuais ainda tendem a ocorrer de forma simultânea, ocorrendo polivitimização, e isso provavelmente terá maior impacto na vida social e posterior vida adulta.

Em um estudo realizado no Reino Unido com adolescente de 14 anos, entre os que relataram sentir atração por pessoas do mesmo sexo, exclusivamente ou não, foi percebida similaridade com estudos prévios. Os pertencentes às minorias sexuais apresentaram baixa autoestima e menor satisfação com a vida, e a taxa de depressão e automutilação foi, em média, 5 vezes maior quando comparada com os participantes heterossexuais. Ainda dentro das minorias, foi percebido que era mais provável que sofressem bullying, vitimizações em geral e, inclusive, abuso sexual, além de tenderem a ser mais afastados dos pais. Também foi encontrada taxa mais alta de inatividade física e obesidade, além de distúrbios alimentares e uso de substâncias como álcool, tabaco e cannabis.

Quando abordamos a questão de identidade de gênero podemos falar, por exemplo, de mulheres transexuais, homens transexuais e de não-binários. A ‘expressão de gênero’ seria como uma pessoa comunica a sua ‘identidade de gênero’, e os esforços para alinhar as características físicas com a identidade de gênero podem ser referidos como transição ou afirmação de gênero. Apesar do fato de ser homem ou mulher transexual não ser uma condição de saúde comportamental, os códigos para o diagnóstico de ‘Transtorno de identidade sexual ainda estão na seção de saúde mental na Classificação Internacional de Doenças, 10ª Revisão (CID-10). Embora não se saiba qual é o mecanismo exato que determina a identidade de gênero, dados atuais sugerem uma base biológica programada desde o nascimento, e associações entre anatomia cerebral e identidade de gênero também já foram relatadas.

Mesmo com todas as informações que a ciência vem promovendo e que políticas sociais vêm alcançando, muitas pessoas transexuais sofrem com processos de polivitimização, como os descritos acima, e ainda enfrentam maus-tratos médicos e barreiras ao acesso a cuidados de saúde. Em uma pesquisa pela internet com aproximadamente 6.000 pessoas trans, 25% declararam que já foram negadas atendimento médico e 30% reportaram já terem evitado procurar o serviço de saúde por medo de discriminação. Essa disparidade entre a população trans e a população cisgênero pode ainda auxiliar a aumentar a diferença que já existe em alguns números, como por exemplo, a população trans apresenta taxas mais altas de abuso de substâncias, de infecção, de depressão, de ansiedade, de suicídio e, inclusive, de câncer, além de sua expectativa de vida ser muito mais baixa.

O termo não-binário incorpora as pessoas cuja identidade de gênero não se encaixa nem no feminino, nem no masculino. Esse grupo enfrenta, além de tudo, um desafio particular quando lidando com cenários segregados por gênero, como escolher títulos para documentos ou qual banheiro público utilizar. Isso se traduz também para o acesso a serviços de saúde. Embora a procura por terapia hormonal nesses casos não seja tão frequente quanto em casos de pessoas transexuais, ainda é importante que seja apresentada a opção e para isso é necessário o entendimento do que é essa identidade de gênero. Além disso, pacientes não-binários encontram outras barreiras como escassez de informações para ajudar a tomar uma decisão sobre terapia hormonal, dificuldade em encontrar médicos para prescrever hormônios e o fato de que os médicos de atenção primária frequentemente desconhecem a identidade de gênero de seus pacientes.

Em estudos, taxas mais baixas de participação em esportes escolares ou fora da escola, de empregos remunerados, de suporte familiar e de suporte de amigos foram encontradas em jovens declarados não-binários do que em jovens transgêneros mulheres ou homens, ou cisgênero. Jovens não-binários também apresentaram maiores taxas de polivitimização, inclusive pessoas se recusando a utilizar seu pronome de preferência ou negando a existência da identidade de gênero não-binária, de abuso verbal, de abuso sexual e de discriminação ao procurar emprego. Esses jovens ainda têm maiores taxam de estresse, isolamento social, ansiedade, depressão, distúrbios alimentares, baixa autoestima e suicídio. Dois estudos encontraram taxas de automutilação de 77% em jovens declarados não binários, 79,2% em homens transexuais e 50% em mulheres transexuais.

As minorias sexuais ainda sofrem muito preconceito e ainda estão vivendo em uma sociedade que foi ensinada a não os aceitar, e isso tem um grande efeito na saúde dessas pessoas, o que é traduzido nos dados que são apresentados por vários estudos presentes na literatura. Tornando a situação mais complicada, o seu acesso a serviço de saúde é, muitas vezes, dificultado e muitos médicos não estão aptos a lidar com esses casos, inclusive pelo fato de que essas minorias são pouco abordadas durante a sua formação acadêmica.

Fontes:

Rebekah Amos e colaboradores 2019. Artigo publicado na Child & Adolescent Health Journal – The Lancet
Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lanchi/article/PIIS2352-4642(19)30339-6/fulltext

Joshua D. Safer e colaboradores 2019. Artigo publicado na New England Journal of Medicine
Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMcp1903650

Denise Chew e colaboradores 2020. Artigo publicado na Child & Adolescent Health Journal – The Lancet
Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lanchi/article/PIIS2352-4642(19)30403-1/fulltext

Enviado por: Beatriz Sadigursky Nunes Cunha – Acadêmica de Medicina e Aluna de Iniciação Científica Laboratório Biogenômica – UFSM – Bolsista
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1422099879910898

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