Tecnologia de reconhecimento de voz na detecção de doenças

A voz é o principal meio de comunicação dos humanos e desempenha um papel importante na vida diária. Ela é responsável pela transmissão de informações, características e estado emocional. Para que uma pessoa consiga falar, diversos sistemas e estruturas são necessárias, em uma complexa interação do ar com as estruturas. Os pulmões lançam ar que, ao passar pelas cordas vocais, produzem o som. Este ainda é moldado pela língua, formando as palavras.

Diversas condições patológicas, que envolvem o comprometimento de alguma das estruturas e de sistemas responsáveis pela fala, estão relacionadas com distúrbios na voz, conhecidos como Disfonia. A Disfonia ocorre por meio de uma série de alterações, como esforço para emitir voz, cansaço ao falar, dificuldade em manter a voz, rouquidão, falta de volume, entre outros, e é um desfecho conhecido em muitas condições. No entanto, estudos recentes estão tentando relacionar alterações sutis na fala de pessoas com manifestações precoces de doenças.

A companhia de análise vocal Vocalis desenvolveu um aplicativo para smartphones, no qual as pessoas podem realizar gravações de certas frases e outros sons e enviar para a empresa. Com isso a empresa busca identificar alterações pequenas e específicas (chamadas de biomarcadores vocais) em pacientes com diagnóstico conhecido para certas patologias.

Um exemplo que poderia se beneficiar desse novo artifício é a doença de Parkinson. Este distúrbio afeta o Sistema Nervoso Centra , causando uma diversidade de sintomas motores, incluindo tremores, rigidez muscular e problemas de equilíbrio e coordenação. Essas alterações se estendem para os músculos envolvidos na fala, gerando uma voz mais fraca e suave em pacientes com Parkinson.

Esse recurso ainda pode ser expandido para diversas outras comorbidades, como estresse pós-traumáticos, depressão, condições relacionadas a desordens no desenvolvimento neurológico, como autismo, e ainda Alzheimer. Um estudo realizado em Toronto, Canadá, demonstrou que pessoas diagnosticadas com Alzheimer tendem a utilizar palavras mais curtas, vocabulários menores e sentenças mais fragmentadas. Elas também costumam repetir o que já foi falado e utilizar um número maior de pronomes, como isso ou aquilo. Isso ocorre pois, provavelmente a pessoa está tendo dificuldade para se lembrar de nomes e usa pronomes no lugar.

Ainda, é possível que existam biomarcadores vocais para condições que não possuem relação com a fala, como doença coronariana. Um estudo realizado em pessoas que estavam realizando angiografia coronária (exame de imagem realizado para avaliar as condições das artérias coronárias do coração) demonstrou que pessoas com a doença em estado grave estavam relacionadas com uma frequência vocal específica. No entanto, de acordo com Amir Lerman, cardiologista na clínica Mayo e responsável pelo estudo, a doença coronariana pode, teoricamente, diminuir o fluxo sanguíneo, gerando alterações na voz, mas, também é possível que as alterações na fala não sejam causadas pela doença em si, mas com os fatores de risco associados.

Vale ressaltar ainda, que estas pesquisas ainda estão no início e esse dispositivo é ainda teórico. São necessários ainda muitos estudos em larga escala para que seja possível a “generalização” de padrões de voz, uma vez que existem diversas alterações naturais da voz que podem funcionar como fator de confusão.

Assim, o desenvolvimento desta tecnologia não possui a pretensão de substituir o trabalho de profissionais da saúde ou minimizá-lo, mas sim de criar uma ferramenta a ser usada por esses profissionais, somando aos outros métodos diagnósticos já existentes, colaborando no rastreamento e detecção de doenças precocemente. O seu uso disseminado poderia servir para identificar pessoas que onde há indício de adoecimento, justificando uma investigação mais completa.

Fonte: Anthe E. Nature. 2020.
Disponível em: https://media.nature.com/original/magazine-assets/d41586-020-02732-4/d41586-020-02732-4.pdf

Zang, Z. The Journal of the Acoustical Society of America. 2016.
Disponível em: https://asa.scitation.org/doi/10.1121/1.4964509

Desconhecido. Núcleo de Otorrinolaringologia e Medicina do Sono. 2019. Disponível em: https://www.nosp.com.br/o-que-e-disfonia/

Enviado por: Daniel Augusto de Oliveira Nerys, acadêmico do Curso de Medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6856876692474909

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