Terapia vocal: Orientações para a prática clínica como forma de evitar a transmissão da Covid-19

Como resultado da pandemia da COVID-19, os serviços de saúde estão enfrentando um novo cenário em relação ao atendimento de pacientes em diversos setores de saúde, e não está sendo diferente aos profissionais que trabalham com os distúrbios da voz, como os foniatras (médico especializado nos Distúrbios de Comunicação e Aprendizagem) e os fonoaudiólogos (profissional que trabalha com os diferentes aspectos da comunicação humana: linguagem oral e escrita, fala, voz, audição e funções responsáveis pela deglutição, respiração e mastigação).

Neste contexto, a terapia de voz vem enfrentando desafios como a intervenção por teleatendimento, uma alternativa viável e útil, além do desafio da crescente demanda por serviços devido a um aumento da população de pacientes em risco de deficiência vocal, seja como sequela direta da COVID -19 ou ainda, secundária à ventilação mecânica invasiva (VMI), em casos mais graves da doença. As evidências indicam que a duração da intubação está associada à prevalência e gravidade da lesão laríngea, resultando em maior risco de disfonia (76%), ou seja, a dificuldade na produção da voz, ou ainda na disfagia (49%), que é a dificuldade para engolir alimentos ou líquidos, após a extubação.

Segundo estimativas, um quarto dos pacientes com COVID-19 apresenta sintomas de disfonia leve a moderada, os quais podem estar relacionado a elevada expressão da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA-2) presentes no epitélio das pregas vocais em indivíduos com COVID-19, podendo explicar a etiologia do edema de prega vocal na disfonia relacionada ao COVID-19. Vale lembrar que o coronavirus faz ligação de uma suas proteína com o receptor da ECA-2 para que possa entrar nas nossas células.

Com o objetivo de promover a segurança e uma prática clínica eficaz para fonoaudiólogos e foniatras, no que diz respeito à avaliação e reabilitação vocal no contexto da pandemia do COVID-19, foram criadas pelo American Academy of Otolaryngology-Head and Neck Surgery (AAO-HNS)  algumas diretrizes, para auxiliar nesses procedimentos.

Os clínicos que realizam procedimentos associados a voz, situam-se entre um risco médio e muito alto nos níveis de risco para exposição ocupacional à SARS-CoV-2. O nível médio consiste na interação com pacientes que não conhecem seu estado contagioso ou com pacientes suspeitos de ter COVID-19. O nível muito alto consiste na realização de procedimentos que, por exemplo, induzem tosse em pacientes confirmados ou suspeitos de ter COVID-19.

Neste sentido, de acordo com as recomendações de saúde e segurança ocupacional, são considerados três elementos para controlar a disseminação do SARS-CoV-2: Controles de engenharia que incluem barreiras ou partições físicas e a adequação das salas de isolamento para infecções transmitidas pelo ar com ventilação adequada. Controles de administrativos onde sugere-se restringir o número de pessoas em escritórios e salas para evitar a transmissão do vírus, e por último, o uso de equipamento de proteção individual (EPI).

Resumidamente, de forma presencial, é fundamental realizar precocemente a avaliação e o tratamento dos pacientes hospitalizados para estimular a comunicação. Ser cauteloso com as medidas protetivas na avaliação e terapia devido ao risco de partículas de aerossol que as tarefas de voz e os exercícios apresentam. Este risco aumenta ao vocalizar por longos períodos de tempo em locais fechados e menores. Além disso, a segurança profissional está em primeiro lugar; se não houver acesso aos EPIs necessários, o atendimento deverá ser postergado.

Por outro lado, recomenda-se a realização de teleatendimento após a alta do paciente. Para isso, é essencial que estejam disponíveis todos os recursos necessários para uma avaliação e tratamento de boa qualidade, uma vez que, o teleatendimento pode ajudar a monitorar os cuidadores em casa e garantir que as recomendações sejam devidamente compreendidas e levadas em consideração.

Levando-se em consideração que a terapia de voz não é urgente na modalidade presencial, devem ser analisados os riscos, benefícios e o melhor momento para realizá-la e se esse procedimento pode ser realizado na forma de teleatendimento ou é necessário um atendimento presencial. Quando esse último for necessário, deve-se levar em consideração todos os cuidados para evitar contaminações pelo COVID-19, uma vez que, como já foi mencionado anteriormente, procedimentos de voz apresentam risco médio ou até muito alto nos níveis de risco para exposição ocupacional à SARS-CoV-2.

Fonte: Castillo-Allendes et al., 2020. Terapia Vocal No Contexto Da Pandemia Do Covid-19: Orientações Para A Prática Clínica. Journal of Voice, https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2020.08.019.

Enviado por: Isabel Roggia, graduada em Farmácia pela Universidade Franciscana (UFN) e Pós-doutoranda em Gerontologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). |
Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/4020469474371818.

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