Brasileiros apresentam níveis mais altos de ansiedade e depressão durante a pandemia

O ano de 2020 foi marcado pela pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2, conhecido popularmente como coronavírus. O primeiro caso da COVID-19 no Brasil foi registrado oficialmente em 26 de fevereiro de 2020 e a doença já tinha se expandido para todas as regiões do país até 19 de maio de 2020. A medida mais eficaz para conter a disseminação desse vírus é o distanciamento social, visto que ainda não há vacina e que o contágio acontece principalmente por contato direto com pessoas contaminadas. Assim o distanciamento social foi uma estratégia adotada por quase todos os países ao redor do mundo e contou com o fechamento de escolas, empresas, cancelamento de shows e eventos…o nosso dia a dia mudou.

            Diante desse cenário de afastamento social e mudança drástica do cotidiano, pesquisas foram realizadas em diversos países do mundo para investigar o impacto da pandemia sobre a saúde mental nas populações. Um estudo realizado na China percebeu aumento dos sintomas de depressão, ansiedade e estresse nos chineses durante os meses de seguimento da pesquisa. Ademais, outro estudo realizado nesse mesmo país também relatou um impacto negativo da pandemia sobre a saúde mental de seus habitantes, dado que grande parte dos indivíduos voluntários apresentavam quadros de estresse agudo, ansiedade e depressão.

            Com o intuito de entender o impacto da pandemia sobre a saúde mental dos brasileiros, uma pesquisa similar foi realizada no Brasil entre 20 de maio e 14 de julho de 2020, período de pico do número de casos da COVID-19 no país até o momento. Foram coletados dados de 1.996 indivíduos voluntários por meio de um questionário online anônimo que foi divulgado em redes sociais. A maior parte dos participantes (84,5%) eram mulheres e a média de idade foi de 34 anos. De todos que contribuíram, um total de 1.920 (96,2%) adotaram medidas de distanciamento social e estavam realizando quarentena.  

            Os resultados mostraram que 81,9% dos participantes apresentaram sintomas que se traduziam como ansiedade e aproximadamente 68% dos indivíduos relataram sintomas de depressão. Ainda, 34,2% relataram quadros de estresse pós-traumático e 55,3% dos participantes apresentaram problemas de sono recorrentes. As características mais associadas ao aparecimento de todos esses sintomas foram: ser do sexo feminino, possuir baixa renda, ser mais jovem, ter menor escolaridade e ter realizado isolamento social por mais tempo.

            Além disso, o estudo mostrou que possivelmente a pandemia impactou com mais força os brasileiros em comparação com os chineses, visto que os dois estudos realizados na China obtiveram como resultado uma parcela de 30% de seus respondentes referindo sintomas de depressão e ansiedade, enquanto o estudo brasileiro relatou 81,9% e 68% dos participantes referindo esses sintomas respectivamente. Esses resultados discrepantes podem ser decorrentes da diferença de renda entre os dois países, visto que 77% da amostra de um dos estudos chineses relatou renda superior a US$ 700, enquanto 36% dos participantes brasileiros afirmaram ter uma renda de até US$ 569, enquanto 66,2% tinham uma renda acima de 569 dólares. A associação entre baixa renda e desenvolvimento de sintomas psiquiátricos já foi observada em estudos anteriores à pandemia e provavelmente é mais contundente durante o período de distanciamento social devido à constante preocupação com perdas financeiras e insuficiência de suprimentos.

            Outra associação importante observada no estudo brasileiro foi o maior aparecimento de sintomas psiquiátricos em indivíduos com mais jovens. Esse fato pode ser decorrente da limitação de ambientes do jovem, que passou a ficar restrito ao ambiente doméstico, somado ao sentimento de desesperança próprio da pandemia e à menor capacidade de lidar com crises, característica que é adquirida com a idade e com as vivências. Ainda, o isolamento social também foi responsável por um agravo de sintomas em pessoas com história prévia de doença psiquiátrica, como foi observado em 40% da amostra.

            Apesar das limitações inerentes a esse estudo e da necessidade de realização de mais pesquisas semelhantes a essa para confirmação desses resultados prévios, foi possível perceber um impacto negativo da pandemia sobre a saúde mental de uma parcela dos brasileiros, principalmente no que se refere a indivíduos mais jovens, com baixa renda, que são do sexo feminino e que já tinham diagnóstico de doenças psiquiátricas prévias. Dessa maneira, esses dados podem se traduzir como um problema de saúde pública decorrente do período de isolamento social e medidas precisam ser tomadas para diagnóstico e tratamento dessas condições.

Fonte: Jeferson Ferraz Goularte e colaboladores. Artigo publicado na Journal of Psychiatric Research em 30 de setembro de 2020.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022395620309870

Enviado por: Carolina Rodrigues de Freitas, acadêmica do curso de Medicina e aluna de iniciação científica do Laboratório Biogenômica – UFSM
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3517267337571320

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