Canabidiol: Uma promessa no tratamento de doenças neurodegenerativas

O canabidiol é um composto ativo não psicotrópico (não afeta os processos mentais nem altera percepção, emoções e/ou comportamento) encontrado na planta Cannabis sativa e que exerce uma ampla gama de atividades neurofarmacológicas no sistema nervoso central. Recentemente, pesquisas clínicas apontaram importantes evidências de potencial uso terapêutico, incluindo o emprego no tratamento de doenças neurodegenerativas, como Doença de Alzheimer, Doença de Parkinson, Doença de Huntington, esclerose lateral amiotrófica e esclerose múltipla.

As chamadas doenças neurodegenerativas são caracterizadas poruma perturbação na homeostase proteica (mecanismo de síntese, enovelamento, e degradação de proteínas), pela presença de proteínas mal dobradas e pela disposição de agregados proteicos no tecido cerebral, fatores que em conjunto culminam em morte dos neurônios e produzem sintomas como déficits motores e cognitivos. Nesse contexto, dois processos celulares possuem papel central no desenvolvimento das doenças do tipo neurodegenerativas, destacando-se a perda da homeostase proteica alterando a função das proteínas que são moléculas fundamentais para a vida, esta perda do “equilíbrio” das proteínas é causada por estresse oxidativo ( uma espécie de enferrujamento da célula devido ao excesso de radicais livres) e por  inflamação, quando ocorre no sistema nervoso central esse mecanismo se chama neuroinflamação.

Os neurônios são células do sistema nervoso que possuem grande atividade metabólica, fator que as torna particularmente vulneráveis aos processos de estresse oxidativo. Nesse mecanismo, ocorre intensa geração de espécies reativas de oxigênio (popularmente conhecidas como radicais livres), que são capazes de comprometer a homeostase proteica por indução da inflamação, dobra incorreta de proteínas, disfunção mitocondrial, comprometimento do sistema de reparo de DNA, ativação glial e, em última instância, danos celulares; ou seja, fatores estreitamente relacionados ao desenvolvimento de doenças neurodegenerativas. Outro fenômeno crucial no surgimento desse tipo de patologia é a neuroinflamação, processo relacionado a liberação de mediadores inflamatórios, como quimiocinas e citocinas, e geração de espécies reativas de oxigênio e nitrogênio. O acúmulo de proteínas mal dobradas ou agregados de proteínas é frequentemente desencadeado por espécies reativas de oxigênio e nitrogênio, que por sua vez ativa respostas pró-inflamatórias e, portanto, sustenta a neuroinflamação.

Nesse contexto, destaca-se o amplo espectro de propriedades terapêuticas potenciais do canabidiol que incluem efeitos antioxidante, anti-inflamatório e neuroprotetor. Inúmeras evidências sugerem que esse derivado da Canabis sativa é capaz de regular a funcionalidade da homeostase oxidativa em diferentes tipos de células, prevenindo o excesso de formação de espécies reativas de oxigênio e de nitrogênio. Notavelmente, as vias moleculares do estresse oxidativo reguladas pelo canabidiol também estão envolvidas na neuroinflamação e, dessa forma, o canabidiol controla a neuroinflamação não apenas reduzindo o estresse oxidativo, mas também produzindo substâncias anti-inflamatórias e regulando as respostas pró-inflamatórias. Somado a isso, os efeitos positivos do canabidiol também estão ligados à proteção do mal dobramento de proteínas induzido pelo cálcio, a regulação da homeostase proteica e ao aumento da expressão do fator neurotrófico derivado do cérebro (vital para o desenvolvimento dos neurônios) e de citocinas pró-inflamatórias que interagem com as vias intracelulares na sobrevivência neuronal.

Inúmeras evidências científicas deixam claro o potencial benéfico do canabidiol no mecanismo de regulação da homeostase de proteínas, especialmente por conta de suas propriedades anti-inflamatória, antioxidante e neuroprotetora relatadas em estudos clínicos e pré-clínicos. Desse modo, o canabidiol mostra-se capaz de fornecer neuroproteção e, portanto, se torna uma opção terapêutica para as doenças neurodegenerativas como Doença de Alzheimer, Doença de Parkinson, Doença de Huntington, esclerose lateral amiotrófica e esclerose múltipla, nas quais o tratamento proporciona retardo da progressão da doença. Por fim, ressalta-se que os estudos clínicos realizados até o momento são promissores, porém, eles fornecem dados preliminares e, portanto, a realização de pesquisas avançadas é essencial para aprofundar o conhecimento dos mecanismos celulares já conhecidos do canabidiol e para investigar outros efeitos ainda pouco esclarecidos.

Fonte: Dash e colaboradores. Publicado na revista Ageing Research Reviews em novembro de 2020.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33181336/

Enviado por: Joana Rosa Rodrigues – acadêmica de Medicina e aluna de iniciação científica Laboratório Biogenômica – UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1465826570691475

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