Estudos apontam que a melatonina pode ser um hormônio aliado no tratamento da osteoporose

O processo de envelhecimento é resultado de eventos biológicos que comprometem progressiva e irreversivelmente a função dos órgãos vitais. As alterações decorrentes desse processo incluem câncer, doenças cardiovasculares, doenças neurológicas, e outras manifestações. A osteoporose, é uma doença óssea crônica debilitante acompanhada pelo aumento da perda óssea e alto risco de fratura, é, também, uma manifestação do processo de envelhecimento.

A osteoporose é uma doença esquelética sistêmica caracterizada pela baixa massa óssea e destruição da microarquitetura do tecido, tornando a estrutura óssea mais fraca e mais exposta a fraturas. A perda óssea relacionada à idade e a alterações hormonais, como a deficiência de estrogênio, podem ser associadas com a crescente epidemia de osteoporose que acomete indivíduos em todo o mundo.  A estimativa é de que, sem estratégias de intervenção, o número de pessoas que sofrem dessa condição aumente até três vezes nos próximos 25 anos no mundo. Entre as consequências mais graves, estão as fraturas de quadril e de vértebras, que se relacionam com o aumento da morbidade e da mortalidade.

Atualmente, o tratamento da osteoporose não é suficientemente eficaz para reverter a condição patológica, já que, embora as terapias farmacêuticas disponíveis inibam a perda óssea, elas não contribuem para a reposição e neoformação óssea. Além disso, alguns dos medicamentos empregados no tratamento têm efeitos adversos negativos, como  fibrilação atrial, câncer esofágico, eczema, celulites, trombose venosa profunda, e osteossarcoma, que resultam na sua baixa adesão.

Nessa perspectiva, a melatonina pode ser uma alternativa eficaz no tratamento da osteoporose. Ela é uma molécula que atua na modulação de ritmos circadianos, como o ciclo sono-vigília e, por isso, acredita-se que a deficiência de melatonina pode estar associada a vários transtornos, incluindo insônia, câncer e doenças cardiovasculares e neurodegenerativas. Ainda, alguns estudos indicam que a melatonina pode estar envolvida na homeostase do metabolismo ósseo. Como evidência dessa relação, as reduções dos níveis de melatonina associadas à idade são consideradas fatores críticos na perda óssea e na osteoporose. Assim, os níveis séricos de melatonina podem atuar como biomarcadores, auxiliando a detecção precoce da osteoporose e facilitando sua prevenção. Em comparação com os medicamentos antiosteoporósticos convencionais que inibem a perda óssea, a melatonina, além de suprimir essa perda, promova uma nova formação do tecido ósseo.

A melatonina é secretada principalmente pela glândula pineal durante períodos escuros, mas também pode ser sintetizada na medula óssea e em outros tecidos. A parte produzida na medula óssea pode produzir fortes efeitos sobre o tecido ósseo local. Os osteócitos (células típicas do tecido ósseo) apresentam um ciclo de 24 horas que é influenciado pela idade, sexo, doenças e estado hormonal. Nesse contexto, a melatonina da glândula pineal, que atua na regulação dos ciclos circadianos, mantém o metabolismo ósseo em sincronia com o ciclo dia-noite, bem como mantém a homeostase (equilíbrio) do microambiente ósseo. Curiosamente, já foi relatado que o trabalho noturno por 20 ou mais anos, período em que a exposição à luz inibe a produção de melatonina endógena, aumenta notavelmente o risco de fraturas em mulheres pós-menopausa. Além disso, estudos em ratos corroboram os resultados já comentados. Em outro experimento, evidenciou-se que a administração oral diária da melatonina aumenta o acúmulo ósseo e reduz a degeneração estrutural e funcional do osso através da promoção da formação óssea.

De acordo com a revisão de artigos anteriores, a melatonina emerge como uma alternativa importante na terapia cínica da osteoporose devido a seu papel no organismo. Ela atua, principalmente, das seguintes formas:

  • Atuação na homeostase óssea: Atua na regulação do funcionamento das células do tecido ósseo, exercendo influência em suas taxas metabólicas.
  • Atuação na formação óssea: A melatonina pode prevenir a degradação óssea e promover a formação óssea através de mecanismos que envolvam ações tanto mediadas pelo receptor celular de melatonina quanto por receptores independentes.
  • Inibição da perda óssea: Em estudos com camundongos, pesquisadores relataram que a administração exógena da melatonina suprime significativamente o desgaste da reabsorção óssea induzida por detritos e a expressão de citocinas inflamatórias in vivo.
  • Ação antioxidante: a melatonina pode afetar o metabolismo ósseo diminuindo o número de radicais livres, e, consequentemente, o estresse oxidativo, que ocorre quando a produção de radicais livres (que se originam de danos aleatórios em diversos tipos de moléculas) excede a capacidade do sistema antioxidante. O estrese oxidativo atua no aumento da reabsorção óssea e implica em baixa massa de tecido ósseo.

Os experimentos realizados em estudos anteriores demonstram que a melatonina tem atuação antiosteoporostica tanto em modelos celulares, quanto em modelos animais e humanos.

Com base em experimentos realizados em animais, foi relatado que a melatonina modula o metabolismo ósseo em ratos, galinhas e peixes dourados, e, por isso, suplementos alimentares à base de melatonina têm sido considerados como uma terapia de desaceleração do envelhecimento para perda óssea relacionada à idade. Em ratos fêmeas ovariectomizadas (remoção cirúrgica dos ovários), a administração da melatonina melhorou esses índices de estradiol sobre o osso. Além dos roedores, a melatonina também tem efeitos antiosteoporose em ovelhas. A pinealectomia, que consiste na remoção da glândula pineal, contribui para baixa densidade mineral óssea, perda óssea e osteoporose. 

Nos estudos com humanos, vários já demonstraram que a melatonina tem efeitos protetores ósseos semelhantes aos observados em animais. Foi relatado que baixos níveis de melatonina ocorrem em mulheres pré-menopausa simultaneamente com o aumento da reabsorção óssea. Nessas situações, a suplementação de melatonina se mostrou bem tolerada, melhorando os sintomas físicos pós-menopausa, restaurando desequilíbrios na remodelagem óssea para evitar a perda óssea e elevando a qualidade de vida das mulheres perimenopausais ( período  de 2 a 8 anos, anterior à menopausa e o período de um ano após a menstruação final).

Diante disso, evidencia-se que o tratamento combinado da osteoporose que utiliza melatonina parece ter resultados benéficos.

A melatonina também promove a formação óssea em algumas doenças bucais, como a periodontite, que é uma condição inflamatória caracterizada por inflamação gengival e reabsorção do osso alveolar. Em um estudo laboratorial com ratos pré-tratados com melatonina, as manifestações da periodontite foram restauradas com sucesso a níveis quase normais com uso de uma dose máxima de 100 mg/kg, o que sugere que a melatonina pode neutralizar danos ósseos destrutivos induzidos pela periodontite. Os resultados revelaram que o tratamento com melatonina inibe significativamente a reabsorção do osso alveolar e contribui para a cicatrização periodontal em ratos.

Ainda, a deficiência de melatonina atua como um mecanismo central na patogênese da escoliose idiopática adolescente (AIS), uma desordem ortopédica comum de etiologia desconhecida. Ela é caracterizada por uma curvatura lateral da coluna vertebral que muitas vezes está associada à osteopenia (perda de massa óssea). Essa condição foi relacionada à pinealectomia (remoção cirúrgica da glândula pineal), sendo que, em um experimento com galinhas, o procedimento contribuiu para a curvatura espinhal pós-operatória em 65% das galinhas operadas.  A pinealectomia pode resultar em uma perda rápida e acentuada do volume ósseo, e os dados revelaram que as galinhas pinealectomizadas apresentaram maior grau de osteoporose generalizada em comparação com os controles.

Propõe-se, portanto que a melatonina é um potencial candidato ao tratamento da osteoporose. Embora várias linhas de evidências tenham esclarecido os mecanismos da melatonina na osteoporose, o desenvolvimento de tratamentos bem-sucedidos que incluem melatonina não foi popularizado até o momento. Pesquisas translacionais adicionais e ensaios clínicos são necessários antes que a melatonina possa ser usada rotineiramente para prevenir a osteoporose.

Fonte: Li, T, Jiang, S, Lu, C, et al. Melatonin: Another avenue for treating osteoporosis? Journal of  Pineal Reserach. Voluma 6, edição 2, 2019.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30597617/

Enviado por: Júlia Diettrich Traesel – UFSM
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1094747370794264

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