Estudos iniciais indicam que microrganismos infecciosos podem ter relação com a doença de Alzheimer

Demência é definida como um estado progressivo de deterioração de pelo menos três dos seguintes domínios da cognição: memória, linguagem, função executiva e visuoespacial, reconhecimento de objetos e funções motoras necessárias para uma vida independente. Como sua prevalência está intimamente relacionada com o aumento da idade e a população mundial se encontra em um forte processo de envelhecimento, tornou-se uma grande reocupação de pesquisadores entender melhor os mecanismos envolvidos e procurar tratamentos alternativos. Existem diversas formas e causas de demência conhecidas, sendo uma das principais a doença de Alzheimer.

A doença de Alzheimer é caracterizada clinicamente pela perda progressiva do volume cerebral global e, mais especificamente, de alterações no hipocampo (área do cérebro responsável pela fixação de memórias). De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 70% das demências são do tipo Alzheimer e o número de pessoas vivendo com demência deve triplicar até 2050, o que demonstra a importância epidemiológica da doença.

Ainda pouco se sabe sobre as causas que levam ao desenvolvimento de Alzheimer, mas parece ter alguma relação com fatores genéticos. Cerca de 5 a 15% dos casos são em pessoas com história familiar da doença.

O cérebro de pessoas com Alzheimer possui algumas alterações características, como acúmulo de beta-amiloides (proteínas anormais e insolúveis que se acumulam nos espaços cerebrais) e placas senis (aglomerados de células nervosas mortas em torno de uma placa beta-amiloide).

Apesar de a hipótese do acúmulo de beta-amiloide no cérebro ser a mais aceita e com maiores evidências científicas, ainda se levantam perguntas do motivo causador do acúmulo excessivo dessas placas.

Uma hipótese levantada nos últimos anos, que sempre foi pouco aceita, mas que agora está ganhando maior credibilidade e interesse em se investigar é a de que certas infecções no tecido cerebral desencadearem a doença de Alzheimer.

Nesse sentido, Joel Dudley, um pesquisador da Escola de Medicina Monte Sinai de Nova York, , realizou uma pesquisa, onde se analisou a presença de microrganismos em cérebros pós-morte de cerca de 1000 indivíduos, descobrindo estruturas advindas de microrganismos, principalmente Vírus Herpes 6A e 7, aumentados em pessoas que tinham Alzheimer. No entanto, estes resultados poderiam, talvez, serem explicados pelo fato que no final de vida, o cérebro de pessoas com Alzheimer já está enfraquecido e mais suscetível a infecções.

Também procurando uma relação entre infecções e o desenvolvimento de Alzheimer, o neurogeneticista Rudolph Tanzi  norte-americano e sua equipe levantaram a hipótese de que as proteínas beta-amiloides poderiam ter um papel importante no combate a infecções ao Sistema Nervoso. Dessa forma, eles realizaram um estudo com ratos geneticamente modificados para expressarem e produzirem beta-amiloides, onde injetaram bactérias, como Salmonella typhimurium, e vírus como o Vírus da Herpes 6Adiretamente no cérebro desses ratos. Com isso, foi encontrado um tempo de sobrevivência maior nos ratos modificados para produção de beta-amiloides, quando comparados aos ratos não modificados, e, ainda, nos ratos infectados com o vírus herpes 6A percebeu-se um acúmulo de placas de beta-amiloide após apenas dois dias da injeção do microrganismo.

Esses resultados demonstram que infecções com patógenos que sejam capazes de invadir o tecido cerebral podem desencadear uma resposta inflamatória e, assim, gerar o acúmulo de placas de beta-amiloides no cérebro. Alguns outros estudos corroboram para a hipótese antimicrobiana do beta-amiloide, como o realizado pelo biólogo Yue-Ming Li, que demonstrou que mutações no gene da proteína IFITM3 (uma proteína que facilita a entrada de vírus no cérebro), que causam sua baixa expressão, e está relacionado com uma menor produção e acúmulo de beta-amiloides.

Apesar de serem resultados promissores e representarem uma possível forma de investigar melhor casos de Alzheimer e desenvolver novos tratamentos, os estudos ainda são iniciais, necessitando de novos estudos que investiguem melhor essa relação. A busca pelo conhecimento precisa ser constante.

Fontes: Abbot, A. Nature. 2020.
Disponível em: https://media.nature.com/original/magazine-assets/d41586-020-03084-9/d41586-020-03084-9.pdf

Huang, J. Manual MSD. 2018.
Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-cerebrais,-da-medula-espinal-e-dos-nervos/delirium-e-dem%C3%AAncia/doen%C3%A7a-de-alzheimer

Almeida, L. News Lab. 2020.
Disponível em: https://newslab.com.br/alzheimer-de-acordo-com-a-organizacao-mundial-de-saude-oms-70-dos-casos-de-demencia-no-mundo-sao-causados-pela-doenca/#:~:text=O%20Alzheimer%20%C3%A9%20uma%20doen%C3%A7a,respons%C3%A1vel%20pela%20fixa%C3%A7%C3%A3o%20das%20mem%C3%B3rias.

Enviado por: Daniel Augusto de Oliveira Nerys, acadêmico do Curso de Medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6856876692474909

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