Surpresa? Estresse oxidativo pode agir como fator de proteção durante a gestação.

Ao longo das décadas mais recentes, as ciências médicas vêm apresentando um aumento exponencial do conhecimento, permitindo um entendimento cada vez maior sobre o funcionamento e o desenvolvimento da espécie humana. Desta forma, já a algum tempo sabe-se da importância do período inicial do desenvolvimento, que podem interferir pelo resto da vida no funcionamento fisiológico do corpo. Os dados epidemiológicos indicam que fatores estressores neste momento crucial estão intimamente relacionados com predisposição a doenças crônicas. Por exemplo, entre os fatores estressores, podemos citar a pré-eclâmpsia (pressão alta gestacional) e as restrições de crescimento intrauterino como manifestações de estresse fetal associadas a uma alta incidência de obesidade visceral, hipertensão e complicações cardíacas durante a vida adulta.

Um fator comumente presente durante tais complicações é o estresse oxidativo intrauterino (OxIU), em que existe um aumento na quantidade normal de espécies reativas de oxigênio (EROS- moléculas que, em grandes quantidades, são capazes de reagir com no organismo humano causando efeitos deletérios, como morte celular e danos ao DNA). Entretanto, não se sabe ao certo a atuação do estresse oxidativo intrauterino na conformação da predisposição a doenças crônicas previamente citadas, uma vez que ela está, normalmente, associada a restrições de crescimento intrauterino). Neste sentido, um estudo de Dimova e colaboradores buscou compreender a função separada do estresse oxidativo intrauterino em meio a este processo, com foco na obesidade e a resistência à insulina. Cabe-se ressaltar que o estresse oxidativo intrauterino foi medido através do método de ELISA, pela medição de moléculas relacionadas a este estresse no plasma sanguíneo, uma vez que o estresse oxidativo intrauterino é resultado do estresse oxidativo sistêmico materno.

O experimento foi realizado em modelo animal, utilizando pequenos roedores com deficiências genéticas induzidas para menor funcionamento do sistema endógeno antioxidante, que são as enzimas que combatem as EROs, assim com uma queda nos “combatente” há o favorecimento de um quadro de estresse oxidativo pré-natal, ainda desassociado a restrições no crescimento intrauterino. 

O assunto em questão, embora clinicamente e epidemiologicamente relevante, é difícil de ser estudado, uma vez que em um organismo humano, dificilmente haverá um estado de estresse oxidativo intrauterino desassociado de restrições no crescimento uterino.

Desta forma, o estudo de Dimova e colaboradores em modelo animal contou com exposição da amostra a uma dieta ocidental (rica em carboidratos) à partir da décima segunda semana de estudo e ,devido a conversão de tecido adiposo branco (tecido de estoque de gordura, abundante no organismo adulto) em tecido adiposo marrom (tecido gorduroso abundante no nascimento, com principal função de manutenção da temperatura corporal do recém-nascido), apontou a criação de uma proteção em indivíduos do sexo masculino contra distúrbios metabólicos, como a resistência à insulina e intolerância à glicose.

A principal questão a ser entendida é como é possível um fator adverso importante como níveis elevados de EROS pode ser capaz de gerar um efeito protetor para disfunções metabólicas induzidas por dieta. Inicialmente, é importante compreender que, em níveis moderados, as espécies reativas de oxigênio conferem efeitos fisiológicos importantes para o funcionamento do organismo, sendo seu aumento um possível problema. Além disso, o estresse oxidativo parece mitigar, ou seja, diminuir a resistência à insulina pela alteração da expressão de certos receptores celulares. Desta forma, vem à tona o conceito chamado hormese, que sugere que a exposição do organismo a uma pequena dose de um fator estressor é capaz de conferir proteção ao mesmo fator em doses maiores, posteriormente.

Em suma, ainda que pouco compreendido, o estresse oxidativo gestacional induzido aparenta conferir resistência a obesidade, intolerância à glicose e dislipidemia em roedores do sexo masculino. Uma vez que o estudo foi realizado em modelo animal, não se sabe ao certo sua ação em indivíduos humanos, ainda que dificilmente o estresse oxidativo intrauterino estará desassociado de restrições de crescimento intrauterino. Ainda assim, o estudo de Dimova e colaboradores apresenta um lado diferente e inesperado relacionado ao aumento das espécies reativas de oxigênio, de forma que novos estudos precisam ser realizados no intuito de compreender melhor seu funcionamento protetor.

Referência: Dimova et. al. 2020. Publicado na revista Redox Biology.
Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2213231719305087?via%3Dihub

Enviado por: Augusto Y. Ueno, acadêmico de medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM.
Currículo Lattes:  http://lattes.cnpq.br/5505100996396257

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