Ultraprocessados: Praticidade ou Ameaça a saúde?

Os últimos meses foram marcados por diversos fatores estressores, como a pandemia, a quarentena, catástrofes naturais…. A população mundial foi obrigada a alterar radicalmente sua rotina, adequando o seu modo de vida ao novo “normal”. Entretanto, algumas dessas mudanças podem afetar a saúde pública de modo não tão evidente e devem ser levadas em consideração. Com a paralisação de escolas, faculdades e empresas, muitas pessoas se viram perdidas no que diz respeito a sua alimentação, pois realizavam algumas refeições nesses locais onde passavam parte do seu dia. Esse fato associado ao estresse, pode levar a uma piora no hábito alimentar da população em geral e aumentar o consumo de produtos ultraprocessados, como barras de chocolate, refrigerantes, nuggets e macarrão instantâneo

   Produtos ultraprocessados podem ser definidos como produtos oriundos de formulações industriais geradas através de compostos extraídos, derivados ou sintetizados de alimentos. Esses produtos normalmente apresentam adição de substâncias artificiais, como adoçantes, corantes, conservantes, espessantes, emulsificantes e outros aditivos para melhorar a estética do alimento. Em decorrência da acessibilidade associada ao preço, conveniência e grande prazo de validade, o consumo desses produtos vem aumentando ao longo das décadas e chega a compor cerca de 56% das calorias consumidas diariamente por Norte-Americanos.

   A composição desses alimentos é rica em gorduras saturadas, sódio e açúcares. Porém a mesma é pobre em componentes vitais para uma alimentação balanceada, como proteínas, fibras, vitaminas e minerais. Uma dieta baseada majoritariamente na ingestão desses alimentos pode levar a uma má nutrição e a um possível quadro de sobrepeso seguido de obesidade.

   Além de uma má nutrição, um maior consumo de ultraprocessados está relacionado com obesidade abdominal, síndrome metabólica, depressão em adultos, maior risco de desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2, fragilidade, síndrome do intestino irritável, dispepsia funcional (má digestão crônica) e doenças cardiovasculares.

   Outro fator de preocupação, é a possível presença de elementos carcinogênicos nesses alimentos. Os tratamentos térmicos de processamento intensivo aos quais alguns produtos são submetidos, resultam na produção de acrilamida e acroleína. Ambos os compostos são associados a um maior risco de câncer e doenças cardiovasculares. Assim como, o nitrato de sódio (usado como conservante) e o dióxido de titânio (pigmento alimentar branco), que em modelos pré-clínicos são associados a danos oxidativos no DNA, que são associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como o câncer.

Até mesmo as embalagens desse tipo de produto podem contribuir para uma piora na saúde. O composto bisfenol A, presente em algumas embalagens plásticas, é suspeito de migrar para o alimento ultraprocessado e ter um efeito de interrupção da sinalização endócrina, afetando assim a nossa regulação hormonal.

   Para concluir, evidências recentes apontam que um maior consumo de alimentos ultraprocessados está vinculado a um risco aumentado de 20% a 81% para o surgimento de doenças não transmissíveis. O recomendado é evitar o consumo exagerado desses alimentos e optar por alimentos mais naturais, que podem inclusive ser oriundos da produção local, assim contribuindo para o crescimento dos agricultores e pecuaristas da região. Essa maior proximidade ajuda o consumidor a ter mais acesso as informações sobre as condições de produção dos seus alimentos e certificar a sua qualidade.

Fonte: Lane MM, Davis JA, Beattie S, Gómez-Donoso C, Loughman A, O’Neil A, Jacka F, Berk M, Page R, Marx W, Rocks T. Ultraprocessed food and chronic noncommunicable diseases: A systematic review and meta-analysis of 43 observational studies. Obes Rev. 2020 Nov 9.
Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/obr.13146

Enviado por: Wellington Claudino Ferreira, acadêmico do Curso de Medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9944318241574135

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

5 + onze =