Corrida pela imunidade: jornada para uma vacina contra a Covid-19

Com o advento da pandemia de Covid-19, a comunidade científica global se mobilizou para estudar o vírus SARS-CoV-2 e tem realizado esforços intensivos para identificar possíveis tratamentos para a doença, nesse âmbito, destaca-se o desenvolvimento acelerado de um grande número de vacinas.

Todas as imunizações contra a Covid-19 foram projetadas para ter como alvo a proteína viral spike (responsável pela entrada do vírus na nossa célula) e podem conter em sua formulação um componente não viral, chamado de adjuvante, que aumenta a eficácia da resposta imune.

Para serem aprovadas, as vacinas candidatas devem completar três fases de testes clínicos:

Fase I: confirma a imunogenicidade da vacina

Fase II: identifica a dosagem e esquemas de imunização apropriados

Fase III: testa a eficácia e segurança em um grupo maior de participantes

Quando a necessidade de uma vacina é imediata, esse processo é acelerado pela realização de diferentes fases em paralelo e encurtando a duração de cada fase. Dessa forma, uma vacina só é considerada bem-sucedida se os dados provisórios de segurança e eficácia da Fase III mostrem redução em 50 % ou mais na probabilidade de desenvolver Covid-19.

Essas vacinas podem ser classificadas em quatro grupos com base em seus componentes:

1. Vacinas de vírus vivos atenuados ou enfraquecidos

Consistem de vírus que foram inativados ou enfraquecidos por tratamentos neutralizantes, mas sendo ainda capazes de provocar respostas imunológicas fortes e protetoras. Pertencem a essa categoria as vacinas CoronaVac, Vacina Inativada sem Nome (produzida pela farmacêutica Sinopharm) e BBIBP-CorV, todas constituídas por amostras do vírus SARS-CoV-2 inativadas e contendo alumínio como adjuvante. Essas preparações biológicas encontram-se em ensaios clínicos de fase III em diversos países, incluindo Brasil, Indonésia, Turquia, Emirados Árabes Unidos, na Jordânia, Bahrain e Marrocos. Além disso, a CoronaVac e a Vacina Inativada sem Nome já foram autorizadas para uso emergencial em trabalhadores da saúde na China e nos Emirados Árabes Unidos, respectivamente.

2. Vacinas de vetor viral replicante ou não replicante

Possuem em sua composição um adenovírus (grupo de vírus que causam doenças respiratórias) não replicante (incapaz de se multiplicar) ou replicante atenuado contendo o DNA da proteína spike. As vacinas ChAdOx1 nCoV-19, Ad5-nCoV, Ad26.COV2.S  e Gam-COVID-Vac (Sputnik V) integram essa classe e atualmente ensaios de fase II / III estão sendo realizados no Reino Unido, América do Sul, Japão, África do Sul, Sudeste Asiático, partes da Europa, Rússia e Paquistão.

Cabe ressaltar que em 23 de novembro, a AstraZeneca, produtora da ChAdOx1 nCoV-19, divulgou os resultados da análise provisória de Fase III, que relatam a vacina como sendo até 90% eficaz quando administrada em duas doses com pelo menos um mês de intervalo. Somado a isso, o Instituto de Pesquisa Gamaleya da Rússia, em relatório provisório publicado em 22 de novembro, afirmou que sua vacina Gam-COVID-Vacfoi 92% eficaz após a primeira dose.

3. Vacinas de ácido nucleico (DNA / RNA)

Ao introduzir diretamente fragmentos de material genômico viral na forma de DNA ou RNA nas células hospedeiras, essas vacinas fornecem às células as informações necessárias para expressar e apresentar antígenos virais ao sistema imunológico, propiciando dessa maneira o desenvolvimento de uma resposta imune.

A vacina BNT162b2,produzida pela farmacêutica BioNTech em parceria com a Pfizer, em 18 de novembro, concluiu oficialmente seu ensaio de Fase III e relatou que sua vacina possui 95% de eficácia; atualmente a empresa já se prepara para fabricar 50 milhões de doses até o final de 2020.

Já a vacina mRNA-1273, obteve 94,5% de eficácia em relatório publicado por sua produtora Moderna, que também enfatizou a diversidade étnica e médica dos participantes testados, dos quais 37% pertenciam a comunidades não brancas e 42% eram de alto risco devido às comorbidades apresentadas.

Das quatro vacinas Covid-19 baseadas em DNA em testes clínicos, nenhuma avançou para os testes de Fase III e pouco se sabe sobre sua eficácia.

4. Vacinas com base em proteínas: subunidades proteicas ou partículas semelhantes a vírus

Essas imunizações são produzidas com subunidades de proteínas (fragmentos de proteínas de superfície viral) ou partículas semelhantes a vírus (nanoestruturas que se assemelham ao envelope viral externo). Inclui a vacina NVX-CoV2373, desenvolvida pela Novavax, que iniciou os ensaios clínicos de Fase III no Reino Unido com participantes adultos saudáveis e, em novembro, os ensaios de Fase III adicionais foram iniciados nos EUA e no México.

Entender os mecanismos pelos quais essas vacinas funcionam nos permite compreender melhor o significado desses achados clínicos, assim como avaliar a complexidade dos esforços realizados em prol do combate à doença. Por fim, ressalta-se que, apesar dos desafios futuros, o desenvolvimento de terapias específicas contra o SARS-CoV-2 e vacinas eficazes contra a Covid-19 são prioridades globais e são primordiais para a eliminação bem-sucedida dessa doença que assolou o ano de 2020.

Fonte: Fernández e Zhu. Publicado na revista British Journal of Clinical Pharmacology em dezembro de 2020.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33289156/

Enviado por: Joana Rosa Rodrigues – acadêmica de Medicina e aluna de iniciação científica Laboratório Biogenômica – UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1465826570691475

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