Depressão juvenil: muito além de consequências psíquicas

Os transtornos depressivos são doenças psiquiátricas cada vez mais frequentes, que atingem uma ampla gama de idades, com uma prevalência ao longo da vida de aproximadamente 16%. Embora a prevalência de depressão seja menor em crianças e adolescentes, ela tem crescido intensamente nessa população juvenil, sendo que estudos recentes têm associado essa patologia a maiores riscos de desfechos adversos para a saúde, como o uso indevido de substâncias, aterosclerose, doenças cardiovasculares e morte precoce.

A infância e a adolescência são períodos de desenvolvimento em que o indivíduo está aprendendo a lidar com emoções frente a situações antes não vivenciadas. Questões sobre sexualidade, dificuldade em lidar com frustrações, bullying, pressão por um bom desempenho escolar tendem a estar na base desses conflitos e podem funcionar como agravantes para transtornos psiquiátricos. Os jovens, em particular, passam por várias pressões sociais quando se aproximam da idade adulta e, para alguns, este período de transição pode ser muito difícil. A depressão de início precoce possui relação com outras comorbidades do indivíduo, entretanto, ainda não está claro até que ponto este distúrbio está associado a doenças específicas e morte precoce, e se essas associações permanecem após o controle de doença psiquiátrica.

Diante disso, pesquisadores da Suécia desenvolveram um estudo retrospectivo que analisou aproximadamente o prontuário de 1,5 milhões de indivíduos, dentre os quais foi avaliada a prevalência de depressão juvenil e sua correlação com 69 doenças somáticas diagnosticadas após a depressão, como as endócrinas, cardiovasculares e neurológicas. A depressão juvenil foi definida como ter recebido pelo menos um diagnóstico de depressão decorrente de internação ou atendimento ambulatorial entre as idades de 5 e 19 anos. Do total de pacientes estudados, 2.5% tiveram diagnóstico de depressão juvenil, sendo a maioria entre 17 e 19 anos e do sexo feminino.

A pesquisa demonstrou que os indivíduos com depressão juvenil tiveram maiores riscos para 66 dos 69 das doenças somáticas analisadas, bem como 6 vezes mais chance de mortalidade. As maiores associações foram para lesões decorrentes de autoagressão, distúrbios do sono, hepatites virais, hipotireoidismo, doenças do fígado, doenças renais e mortalidade por todas as causas. Além disso, estes indivíduos também apresentaram outras doenças psiquiátricas em níveis maiores que a população em geral, com predomínio de transtorno de déficit de atenção, ansiedade e abuso de substâncias.

Em geral, os indivíduos do sexo masculino apresentaram mais doenças endócrinas e metabólicas, como obesidade e distúrbios da tireoide, embora ambos os sexos tenham apresentado risco aumentado para diabetes mellitus tipo 2. As meninas, em contrapartida, tiveram mais risco de infecções gastrointestinais, geniturinárias (relativo aos órgãos genitais e à excreção da urina) e respiratórias. Outra diferença entre os sexos foi que as mulheres manifestaram maior risco de doenças somáticas, ao passo que os homens, de mortalidade.

Em relação à mortalidade precoce, a automutilação foi a principal causa de morte entre os indivíduos com depressão juvenil, seguido por outras causas externas de morte. Já nos indivíduos não diagnosticados por depressão, a principal causa de morte foi causa externa, seguida de causa natural.

Esses dados alarmantes demonstrados no estudo evidenciam a necessidade de diagnóstico e tratamento precoce da depressão, por meio da busca de ajuda especializada, suporte familiar e social. Mais pesquisas também devem ser desenvolvidas para descobrir os mecanismos fisiopatológicos pelos quais a depressão pode estar associada a doenças orgânicas, os quais podem servir como alvos de intervenção precoce ou até mesmo prevenção.  

Fontes: Marica Leone e colaboradores. Publicado em dezembro de 2020, na revista JAMA Psychiatry.
Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/article-abstract/2773999

Enviado por: Luiza Elizabete Braun – Acadêmica do curso de Medicina da UFSM e aluna de Iniciação Científica do Laboratório de Biogenômica. 
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8218583647133629

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